Jerry, o meu primeiro palhaço

míope, corcunda e aluado Prof Kelp

Jerry Lewis deve ser o único homem no mundo que com o olho esquerdo consegue ver o olho direito. Um palhaço, o meu primeiro palhaço. Na Angola colonial, onde não havia televisão, dos antiquíssimos Charlot e Buster Keaton só tive uns vislumbres cinematográficos infanto-juvenis e o único rival de Jerry, em adolescências tropicais, era o mexicano Cantinflas, uma espécie de Chaplin dos pobres.

Comecei a gostar de Jerry muito antes de saber que a nouvelle vague francesa lhe tinha feito o voluptuoso embrulho cultural. (Tinham, Godard e Truffaut, a deslumbrante e colorida razão que Jerry lhes deu ao filmar “O Homem das Mulheres”.)

Vi as “Noites Loucas do Dr. Jerryl”. Jerry era dois em um: de dia, o míope, corcunda e aluado prof. Julius Kelp e, à noite, depois de ingerida uma conveniente mistela alucinogénea, o egomaníaco e sedutor Buddy Love. Há quem diga que um era um auto-vexatório Jerry e o outro a zurzida caricatura de Dean Martin, com quem formara dupla famosa.

Com o meu engasgado estilo de Julius, logo me apeteceu ter a fama e o proveito de Buddy Love: esbofetear humilhantemente quem me contrariasse e trazer sem esforço as frescas bocas das louras adolescentes à minha boca.

Gostei de Jerry: pertencia ao tempo em que vivíamos e, sobretudo, parecia do tempo em que sonhávamos viver. Adorei esquizofrenicamente “As Noites Loucas do Dr. Jerryl”. Por ser um sonho de miúdo. O que eu queria era o que via no filme: ter outra e desconhecida identidade, ser o irrecusável, irresistível, melhor de todos, entrar na discoteca (ui, o Purple Pit) e a orquestra parar, todos os olhos fixados no prodigioso fato azul celeste de colarinhos pretos, colete branco, camisa rosa e gravata azul-escuro com que Buddy Love irrompe, deixando esgazeados os também azulíssimos olhos da Stella Stevens que, essa manhã, o estrabismo de Julius sonhara despir de todas maneiras e melhor feitio.

Stella como a eu e Julius a víamos

O segredo confessado da arte de Jerry é que ele sempre foi um miúdo de 9 anos e não há ninguém que faça tão boa comédia como um puto de 9 anos. Alguma grosseria, ausência descomplexada de cultura, uma sexualidade descomandada que não se sabe ainda bem donde é que vem e para onde é que vai. A esses ingredientes, experimente juntar-se uma cambada de complexos, uma visão gigantescamente distorcida dos pais, dois monstros que talvez não nos amem.

Um dia, Jerry, o adulto Jerry, acontecendo-lhe estar entre dois filmes, caiu em si e foi consultar um psicanalista. O homem ouviu-o e deu-lhe um conselho precioso: salve-se, vá-se embora! E depois explicou-lhe: se lhe tiro a trapalhada toda que você tem na cabeça, se lhe arranco os cactos e as agulhas de que se queixa no baixo-ventre, você fica sem emprego. Tiro-lhe as dores, tiro-lhe a piada.

Tirem as dores ao mundo e depois queixem-se!

a fama e o proveito de Buddy Love

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

15 respostas a Jerry, o meu primeiro palhaço

  1. Luciana diz:

    Porque o Manuel parece ter um raio-x das minhas preferências. Não há, não há quem trate do cinema tão perto do que eu trataria se soubesse. Só me resta o obrigada e o loop vez em quando nestas letras…

    • manuel s. fonseca diz:

      Luciana, raios X já sabe que são o monopólio de quem sabe. Eu nem me atreveria… Obrigado pela generosa gentileza.

  2. Rita V diz:

    que bom ter trazido o Jerry Lewis

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    alors. até que enfim! eis o homem. concordo com suas palavras, luciana. só é preciso ter um pouco de cautela é com esse negócio de raio-x… agora, se a gente olha de perfil, só há duas coisas que amolecem o manoel: 1.lembrar da infância (eis onde entra lewis, o cinema, seus exuberantes textos sobre angola) e 2. ter uma bela mulher razoavelmente por perto (eis onde também entra lewis, o cinema…) — o que muito obviamente, como no primeiro caso, também lhe lega “uma sexu­a­li­dade des­co­man­dada que não se sabe ainda bem donde é que vem e para onde é que vai”. no caso do manoel — e para o alivío geral da tribo dos tristes — vai em parte para a leitura, para os filmes, para a escrita, para a provocação, o talento de congregar… sobre a outra parte, a que sobra e parece não ser de somenos , well, it’s not our business, ele que responda para onde que vai. o diabo é quem quer saber.

    • manuel s. fonseca diz:

      Uau, Ruy, mas que descomandada devassa! Saiba que a minha esquizofrenia anda a tratar-se em psicanalista selecto. O diabo é que vai ela e eu falto às consultas

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel
    Que interessa de onde vem e para onde vai, se nos podemos deliciar com esta catarse extraordinaria transformada em bela e pura escrita, que nos transporta para outras idades e experiências esquecidas, da infãncia à idade adulta, escondida tantas vezes em memórias , em imagens vistas ou vividas…bem haja !

    • manuel s. fonseca diz:

      Bernardo, agora é que me pôs para aqui num vai-vem… E, das infância à matura idade, não sei se volte, não seiu se fique. Obrigado pela simpatia.

  5. ~CC~ diz:

    Este mito do duplo – noite/dia, belo/mosntrinho, desprezado/conquistador…já assumiu tantos modos de se dizer, continuando a conquistar-nos.É eterno e é muito bonito.
    Quanto ao “tratamento”, consta que também o David Lynch fugiu da Psicanálise quando percebeu o que ela poderia fazer ao seu talento…dá que pensar 🙂
    ~CC~

    • manuel s. fonseca diz:

      ~CC~ pelo sim, pelo não, e atendendo à bondade dos exemplos, fuja também…

      • ~CC~ diz:

        Eh, eh…e o Woody Allen? Psicanálise e um filme por ano? Nem todos excelentes é certo, mas sempre interessantes. Ainda fico a pensar na psicanálise 🙂
        ~CC~

  6. António Eça de Queiroz diz:

    É, dá-me a impressão que mais ninguém fala de cinema como tu, Manuel.
    Buddy Love!… Inultrapassável.
    E narcotizar o mundo já foi tentado antes – talvez o resultado seja o que estamos a ver agora, quem sabe?

  7. manuel s. fonseca diz:

    É que não há mesmo outro dia enquanto a Eugénia não nos contar como é que se deu a intimidades de realidade e cartoon com o nosso Jerry. Sabia lá que gostava também…

  8. manuel s. fonseca diz:

    António, o que é preciso é sermos sempre uns putois de 9 anos. Eu acho que tu, por acaso, és. E que se lixe o mundo, meu irmão…

Os comentários estão fechados.