Jogar à baliza

Quando um tipo era aleijado jogava à baliza. Era um tempo em que, estando por inventar a palavra deficiente, ainda se dizia aleijado. O medo da poliomielite pairava no ar. Philip Roth, no seu “Nemésis”, mostra esse indecifrável inimigo. Não se sabia donde vinha, nem como chegava. Podia, dizia-se, começar na praia ou num picnic, com um pico, um prego ferrugento, um espinho envenenado que se espetasse no calcanhar. Era o que, mal lidos, diziam os pálidos Reader’s Digest que nos chegavam com atraso. Não tínhamos sequer noção da morte: tínhamos, era medo de ficar paralíticos. E de ter de jogar à baliza.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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19 respostas a Jogar à baliza

  1. teresa conceição diz:

    Vem de longe, a angústia dos guarda-redes…
    (e um leitor de Philip Roth marca sempre golo).
    Bonito jogo, avançado Manel.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Um dos miúdos do meu bairro era não só guarda-redes, coxeando abundantemente da perna direita, como era cantor. Interpretava, para delícia do nosso merceeiro e do nosso apreciado barbeiro, o que então se chamava cantores brasileiros românticos, como Nelson Ned.

  2. Diogo Leote diz:

    Felizmente, a minha infância e adolescência já não são do tempo do medo da poliomelite. Eu sou do tempo do “gordo vai à baliza!”. Na ausência de gordo, ia para a baliza o “gajo que não jogava nada”. E aquilo era uma ordem. Ai do gajo que desobedecesse.

    • Fausto L. C diz:

      Execelente!

      Pior mesmo só os dois que ficavam para o fim das “linhas” e que equilibravam pela negativa as equipas: “Então ok, eu fico com o gordo e tu ficas com o caixa de óculos para equilibrar”. A crueldade natural das crianças é fascinante.

      abr

      Fausto

    • Manuel S. Fonseca diz:

      A desobediência, Diogo, foi inventada por espíritos amargos. Nós limitávamo-nos a embirrar.

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    no meu tempo, manuel, ruim de bola ia pro gol. não tinha esse negócio de se preocupar com bullying, não. não jogava nada? pra debaixo das traves. contra pólio éramos todos vacinados, e não era mais um problema pra galera da minha idade. agora, se fosse muito ruim, nem no gol ficava. apitava o jogo. ou assistia. é, parece que a coisa é universal. se o sujeito jogava bem, a gente dizia: “este é bom, marca ele”. se não jogava nada: “este é ruim, pode deixar desmarcado que ele mesmo se marca”.

    • Fausto L. C diz:

      Caro Ruy,

      Muito me ri com o seu texto. Pior só quando o gordo da baliza levava com a bola na cara e os colegas lhe diziam: “epá granda defesa! Parabéns.Tás a ver como tens jeito para ir à baliza?”

      Realmente, nunca em situação alguma as virtudes ou defeitos são tão saudavelmente aceites do que num jogo de futebol entre crianças. Talvez sirva de exemplo.

      • Ruy Vasconcelos diz:

        opa, fausto, espero que prossiga a ler-nos. é para essa indiscrição que estamos aqui. uns são mais rápidos no gatilho. outros, no trocadilho. e embora esteja escrito triste, todo mundo sabe que escrever é chiste.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Momento capital na minha aprendizagem de infância: o dia em que não quisemos deixar jogar uns mais velhos só por eles serem muito bons, melhores do que nós. Não queríamos correr atrás do prejuízo. Aprendi – quer dizer, julgo que aprendi.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Eu ainda sou do tempo da poliomielite, mas, como não jogava coisa nenhuma ia para a baliza, claro.
    Um certo dia, invernoso e molhado, havia jogo. Eu na baliza. Bola (de couro bem molhado) com pressa pelo ar, na minha direcção.
    Fiquei a olhar…
    Quando acordei do desmaio tinha gente preocupada à minha volta.
    A carreira no futebol terminara para mim, num só golpe.
    (só voltei a dar um pontapé numa bola já o meu filho tinha seis anos, tal foi o trauma)

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel acordou memórias que moribundas aparecem sem aviso, das crueldades das crianças ao racismo dos adolescentes….mas quando a bola rolava, na areia ou no saibro, tudo se esquecia nem que fosse com a “porrada ” final…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Bernardo, naquela fímbria de Luanda entre o asfalto e o muceque tínhamos o qjue se chamava trumunos: uns desafios de futebol homéricos que suávamos a branco e preto ou a preto e branco, parecendo-me que, então e para quem era, a ordem dos factores era indiferente. Deixava de o ser, tantas vezes, quando os trumunos acabavam.

  6. O seu artigo fez-me lembrar a minha infância. Na altura era a ‘talidomida ‘. Só em 2010 se descobriu que a talidomida se liga a uma proteína chamada cereblon, tornando-a inactiva. Proteína essencial no processo de formação dos membros no embrião.
    Há uns que nasceram para ponta de lança, outros para estar à baliza … mas giro mesmo é jogar. Não é?

  7. Na minha infância o terrível efeito da ‘Talidomida’ deixou famílias de rastos.
    Há pouco tempo descobriu-se que a talidomida se liga a uma proteína chamada cereblon, tornando-a inactiva. (Proteína essencial no processo de formação dos membros no embrião.)

    Há uns que nascem para ‘ponta de lança’ outros para estar à baliza mas giro mesmo é jogar , não é?
    😀

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Rita, Rita, tem tanta razão: o pior mesmo é deixar de jogar o cruel jogo da infância.

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