Lá vem a conversa de Deus e coisa e tal

 

A religião é um disparate, para não dizer que é uma burrice, mas é uma burrice essencial para se chegar a um patamar civilizado de existência. A afirmação, recentíssima, é do filósofo Alain de Botton e talvez se pudesse dizer que é uma boutade se houvesse boutades do tamanho de um livro de 300 páginas. A tese de “Religion for Atheists: A Non-Believers Guide to the Use of Religions” actualiza o que outros filósofos ou teóricos escreveram desde o Iluminismo até à presente Idade Média Pós-Capitalista (nomenclatura da minha responsabilidade). Voltaire e os enciclopedista, Comte depois deles, já tinham pastado neste lameiro naturalista. E com linhas parecidas às de Botton, Simon Crichtley, Zizek, Badiou e Habermas também têm sugerido que Deus pode estar morto, mas vale a pena ligá-lo à máquina para apaziguamento das massas que sem Ele começam a acreditar em Dostoievsky: “Se Deus não existe tudo é permitido.” Tudo isto vem no “The Guardian”, mas francamente não precisamos para nada da tese selecta do prestigiado diário inglês, porque de forma mais directa e sem rodeios tudo isso é atestado e corroborado pelos títulos de todos os dias do nosso “Correio da Manhã”. Dois exemplos ajudam: “Gang aponta arma a bebé e atira ácido à cara da avó” ou “Tenta matar a filha bebé no hospital”. Mas também: “Arrependido de esfaquear o namorado”. Isto é, sublinho, colheita do dia.

Dito isto, lembrei-me que não faria mal relembrar um nem por isso tão velho texto em que tentei fazer um retrato a esse Deus que a elite pode dispensar, mas sem o qual as massas matam (é que é sempre a mesma merda da luta de classes!):

DEUS

Morreu, é certo. Deus foi assassinado, crê-se. Um alemão, Friedrich, reclama a autoria do crime. Alega tê-lo feito a mando de uma figura fantasmática que mal vislumbramos atrás do obscuro nome de Zaratustra.

A pretensão de Friedrich sofre de defeito. Não conseguiu apresentar prova material: o corpo do delito nunca foi encontrado. Não se estranha que outros alemães – a sanha alemã! – pretendam ter sido eles os autores da matança: Karl, que viveu penosamente em Londres, fez clandestina confissão de o ter morto a ópio. Adolph, pintor da escola suástica, jurou que Deus era judeu e matou-o gaseando-o. “O cristianismo, essa superstição judaica”, terá depois dito, eufórico, o matador.

A notícia da sua morte omite o que alguns acólitos advertem ser um facto essencial: a imortalidade da personagem. Possibilidade negada por uma seita blasfema que, sustentando a inverosimilhança ontológica, denuncia a lenda como uma trivial narrativa de maldição metafórica: apenas e só a maldição da eternidade.

Outros, numa improvável combinação de ciência e esoterismo, sustentam que Deus deve ser imaginado como um incrível burlão que tivesse, primeiro, roubado o tempo e, num segundo momento, decretado a sua inexistência.

Não é fácil executar-lhe a biografia, sobretudo quando os seus mais acérrimos defensores pretendem que a sua idiossincrasia é apofática. Mesmo se tentarmos ser positivos, reunir as peças da sua vida é uma tarefa atrapalhada por torpes fantasias. Relatos heterogéneos dão-no como súbita presença no naufrágio de um transatlântico, salvando uma centena de aflitos enquanto mil infortunados se afogavam. Herói de superpoderes, terá salvo um bebé no meio de um terramoto, uma virgem na queda de um avião em que todos os passageiros pereceram carbonizados. É olímpica a sua indiferença ao sofrimento, é juvenil e entusiástico o seu modelo de heroísmo.

Épico parece ter sido o seu apetite sexual. De Deus, nome de guerra a que nunca juntou apelido, conhecem-se episódios insensatos, detalhes dissolutos. Manteve uma relação mais íntima com Teresa d’ Ávila e com João da Cruz o que revela uma sexualidade melancólica, preenchida por silenciosos êxtases *. Em San Francisco, mais a norte na costa californiana, iniciou o “flower power”. O movimento outorgou-lhe a paternidade nomeando-o num lema mítico: “Deus é amor”, diziam.

Mestre do disfarce, entretendo uma vida lúdica, ninguém conheceu o seu rosto. Cega quem o olhar de frente, asseguram testemunhos balbuciantes. Homem sem rosto – um olho só, intolerável e imenso, como surge em retratos apócrifos – os seus soldados, os seus ministros, os adeptos do seu culto delirante e arrebatado, apagaram-lhe as imagens, abominando a pintura, a escultura, a fotografia como elementos ruinosos e ridículos, obstáculos à ontoteologia que proclamam.

Apreciador de uma ironia clamorosa, ao rosto secreto contrapôs uma interminável multiplicidade de nomes. Sociedades secretas, agremiações teosóficas, seitas delirantes enumeram os seus nomes. Um grupo de iluminados ou ungidos assegura serem 99 os nomes verdadeiros, de alfa a ómega. Outros, radicais, defendem que é o Inominável. “Unum” foi como o chamou, com inefável serenidade, Mestre Eckhart.

Múltiplos são também os sinais da sua passagem por cidades e desertos, por remotas aldeias e incansáveis rios. Há cruzes e crescentes, rodas e pedras negras, mesmo um falo estatuário. Descrição a roçar o idólatra apresenta-o em festas secretas com uma auréola pairando-lhe sobre cabeça, o que o converte num precursor da Industrial Light & Magic e dos special effects spielberguianos que substituíram os esgotados lumen naturae.

Morto, sem rosto, inominável, de sobredotada sexualidade, recolhe-se hoje a este cemitério. Réprobo e tão próximo agora, deixa de ser a visão poética que se confundia com uma galáxia distante. Estava morto. Está enterrado.

* Triângulo (não confundir com trindade) em que François Truffaut se inspirou para o filme “Jules et Jim”. 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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9 respostas a Lá vem a conversa de Deus e coisa e tal

  1. caruma diz:

    Que prazer – ler este coisa e tal.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Um deus personificado foi a única forma de o representar à massa anónima, que assim foi sendo controlada através da imagem castigadora de alguém que tudo vê e tudo sabe. A imagem esbateu-se, Zaratustra disse que a matou, mas também já se disse o contrário.
    E Saturno devora os seus filhos, de vez em quando…

  3. sc diz:

    Este Botton não escrevia guias turísticos?
    Mudou de ramo?

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Um mundo sem Deus sérá provávelmente um mundo cheio de “Deuses”…aqueles todos que aparecem no texto e muiots mais…Roubando a frase ao nosso amigo longínquo Ruy apetece dizer ” Quando morre a divindade a humanidade cambaleia…”

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    É verdade, Bernardo, é cada tropeção…

  6. manuel s. fonseca diz:

    Pois é, grande vantagem a da despretensiosa e desinteressada morte.

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