Ladrar à lua

De repente lembrei-me do Stand by Me. Porque é que aqueles miúdos, que tanto me fazem lembrar os bandos de bons meninos da minha infância, andam quilómetros e quilómetros só para verem o corpo morto do miúdo que um comboio esfacelou? E lembrei-me da parteira, nossa vizinha. Os nossos 10 anos subiam então ao frondoso caramanchão para espreitarmos, num misto de excitação e perplexidade, os gritos dos partos, os comentários vivaços dela – vê lá se choravas assim quando estavas a fazê-lo!
Nada nos fascinava mais do que, como à lua os cães, ladrar ao espectáculo da mulher aberta ou do cadáver abandonado. Começámos a crescer entre os gritos de vida e o silencioso aroma da morte.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a Ladrar à lua

  1. lagarto , lagarto !!!!

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Voyeur de parturientes!…
    Nunca tal imaginei!
    Eu não ia além das cenas de marmelada (e um pouco mais, até) que se apanhavam lá nas dunas da minha Granja… Isso e ver a Eugénia Maluca (não é piada, chamava-se mesmo assim) levantar as sais à saída da missa só para aperrear os burgueses e a gente fina que vinha de ver a Deus…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Sabes que em Luanda tínhamos a Joana Maluca – quando lhe davam os azeites corria-nos à pedrada. primeiro tinha medo dela, depois passei a ter pela loucura tão independente dela grande admiração.

      • António Eça de Queiroz diz:

        A minha maluca também me fascinava (aliás, os malucos em geral – mas só deste género, que há também malucos sérios, e esses sim, são mesmo perigosos.

  3. Benrardo Vaz Pinto diz:

    Foi a televisão e os telemóveis que deram cabo de isso tudo, voyeurs empoleirados em árvores, ou embrenhados nas dunas…Manuel e António, lembram-me o Garcia Marques e A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e Sua Avó Desalmada….

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Em cada menino bom um poeta. Já é mais raro (mas é tão bom) num poeta encontrar-se ainda o menino bom

  5. Paula Ferreira diz:

    Você é um bom exemplo disso. Senão, como admirar a loucura independente da Joana Maluca?

  6. teresa conceição diz:

    Aqui somos voyeurs várias vezes: as vezes espreitadas, as vezes contadas, as vezes que lembramos o espreitar e as que revivemos a cena, como num quadro de Magritte, no espelho a ver as próprias costas. Mas o ladrar à lua é página de banda desenhada. Curioso como um texto sem imagem convoca tantas.

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