Li nos jornais

Não devia meter-me nestas conversas, que não são para a minha idade, mas lá vai.
George Soros poderia ser o meu herói, não fora um resquício meu de má vontade contra a grande riqueza, uma das sequelas que me ficou da minha doença juvenil, o buliçoso esquerdismo de olhos em bico. Dito isto, Soros está eticamente bem mais à esquerda, para os tempos que correm, do que o fácil esquerdismo que ulcerava o senhor Ulianov, sem que isso o impeça de estar (a Soros, discípulo de Karl Popper, não ao camarada Ulianov), mais do que na escala dos ricos, já na escala do sumptuário. Tudo razões para eu, que estou muito menos à esquerda, gostar de o ouvir.
Aos jornais, a este The Daily Beast, George Soros disse:

– Enfrentamos um dos mais perigosos períodos da história moderna. O “evil”, o insidioso “evil”, instila-se na vida política e social.
– A Europa pode estar na antecâmara de conflitos a que se seguirá o caos.
– O euro tem de sobreviver. O seu colapso arrastaria a Europa, os Estados Unidos e o Mundo.
– A América vai assistir a insurreições nas ruas que podem determinar restrições consideráveis das liberdades civis. A isto chama-se luta de classes.
– A ideia de que os mercados têm uma racionalidade que os regula e evita o desastre é um impensado insustentável que dá origem a acções que, inintencionalmente que seja, provocam sofrimento e catástrofe. Um banqueiro a fazer de Deus pode ser uma das formas de incarnação do Mal.
– Temos de mudar da Idade da Razão para a Idade da Falibilidade. A palavra chave não será competir, mas sim compreender.

O que me anda a atazanar é esta ideia: a democracia entrou numa fase em que gera mais sofrimento do que solução. Encontraremos um sistema que, com universalidade e ética, forneça soluções e poupe choros e ranger de dentes?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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11 respostas a Li nos jornais

  1. teresa conceição diz:

    É uma bela questão, Manel. Mas se nem a democracia é ética e muito menos universal, como fazer para encontrar outro sistema em plena borrasca?
    Interessante a escolha do Tiziano para o texto: o descarnar de Marsyas, o sátiro abusador e arrogante que ousou desafiar os deuses…e teve o castigo.
    Quem é o abusador aqui? Os Estados? Os mercados? os banqueiros? os inocentes?

  2. manuel s. fonseca diz:

    C’est ça que je veux comprendre. Diria que não é a determinação do abusador a questão essencial – essa é uma questão da ordem da razão. Mas que sistema é que poderemos construir que comporte a falha sem ter que, logo a seguir, tapar a falha com uma culpa? Precisamos de outra pele como o pintor sugere.

  3. Pedro Marta Santos diz:

    Doutor, aqui está uma questão que vale a pena discutir longamente.

  4. dizia uma boa amiga ontem que a democracia teve a sua evolução – obriga agora a que a maioria preste mais atenção à minoria…
    🙂

    • manuel s. fonseca diz:

      Pois é Rita, eu já nem me dava conta de que havia maiorias, quanto mais minorias..

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Na minha imodesta opinião, a solução não existe fora das pessoas, como pensamento ou prática filosófica. A razão é simples: como o Soros bem sabe (e nós também), o ‘evil’ chama-se ‘greed’…

  6. T. diz:

    ” Comprometida com a verdade – cientifica ,ética e pessoal – a sociedade pode superar muitas das crises de pobreza, doença,fome e instabilidade que a afectam.”

    Jeffrey D. Sachs in El País ,8 de Janeiro de 2012 ,suplemento Negócios

    ( tradução livre de T.)

    • manuel s. fonseca diz:

      Talvez, mas onde é que anda a sociedade que ninguém consegue falar com ela, perguntou-me um estafado pessimista…

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