Na cama com os Stones

Como estarão recordados, já estivemos na cozinha com os Stones. Mas Keith Richards faz questão, nas brilhantes páginas de Life, de nos dar a conhecer zonas mais reservadas da sua intimidade. Não se envergonhem, charming ladies and tough gentlemen, quando perceberem que já estamos no quarto. Na cama, para sermos mais precisos, e com o Keith, o Mick, a Anita e a Marianne. E, por estranho que pareça, prontos para assistir a uma espécie de campeonato.

A deslumbrante Anita Pallenberg

1-0. Mas quem é a Anita? Se este nome não vos diz nada, acrescentem-lhe o aristocrático apelido Pallenberg e saberão que, se o qualificativo femme fatale assentou bem a alguma mulher nas décadas do sexo, drogas e rock´n´roll, foi a ela, Anita Pallenberg. Sim, a deslumbrante, sofisticada e cosmopolita Anita Pallenberg, top-model de eleição nos anos 60, actriz com potencial de diva nunca confirmado, numa palavra, musa inspiradora, tanto das epifanias criativas como dos excessos destrutivos que se sucederam na carreira dos Stones em certo período da sua existência. Daquelas mulheres de que homens com queda para a aventura dirão não saber viver com nem sem. Para quem não saiba, a imparável Anita entrou na vida dos Stones como namorada de Brian Jones. O mesmo Brian Jones que, nos primeiros tempos de Stones, se autoproclamava líder da banda. E cujo declínio começou nem mais nem menos do que na dita cozinha onde Mick e Keith provaram a si próprios que podiam compor uma canção, justamente porque começou a ficar evidente a partir daí que a Brian faltava esse talento. Importa dizer ainda que Brian ficou totalmente deslumbrado com a fama, para o que muito contribuiu o facto de passar a ser visto com Anita, uma das mulheres mais bonitas e sensuais do planeta. Mas o que precipitou de forma irreversível a espiral de destruição de Brian foi aquela viagem a Marrocos. Teve o azar de adoecer a meio do caminho com uma pneumonia e de ter de ficar internado em Toulouse.  Anita seguiu viagem com Keith e o resto já se sabe: Brian perdeu Anita para Keith e, desde aí, foi sempre a descer até ser despedido da banda e acabar afogado na piscina de sua casa.

Brian e Anita em Marrakech, já a traição se tinha consumado e Brian não sabia

1-1. Mas quem com ferro mata com ferro morre. Neste caso, Keith não morreu porque, segundo o próprio, já sabia que não podia esperar outra coisa de Anita. Estava visto que isso de filmar cenas com Mick numa banheira ia dar mau resultado. Ainda que fosse a pretexto de um filme muito arty como Performance, dos britânicos Donald Cammell e Nicolas Roeg. A verdade é que Keith acabou por saber mais tarde da dupla traição (do melhor amigo e da companheira) e a relação entre ele e Mick nunca mais foi a mesma.

Anita e Mick na banheira

2-1. E a vingança não se fez esperar. Enquanto Anita se entretinha com Mick, Keith não se fazia rogado com Marianne, a unfaithfull Marianne, na altura já companheira de longa data de Mick. E logo na mesma cama que Mick com ela partilhava todas as noites. Segundo Keith, foi só uma cambalhota mas bastante “ardente e suada”. Certo é que, estava Keith em pleno rescaldo pós-climax, com a cabeça aninhada “nos dois maravilhosos melões” de Marianne (alto lá que a expressão não é minha, é de Keith himself), quando ouve roncar o motor do carro de Mick. Só teve tempo de recolher os sapatos e saltar pela janela. Ficaram as meias. Felizmente, Mick nunca se pôs à procura delas. E ainda hoje Marianne, sempre que encontra Keith, se sai com a private joke “Ainda não consegui encontrar as tuas meias!”.

…………..

Está claro que a amizade entre Keith e Mick se ressentiu. Mas a música não. Querem melhor prova do que Gimme Shelter, cujas palavras “I feel the storm is threatening my very life today” foram directamente inspiradas pela suspeita de traição que corroía Keith enquanto Anita estava na banheira com Mick?

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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13 respostas a Na cama com os Stones

  1. manuel s. fonseca diz:

    Diogo, temos novela. Queremos mais, mais.
    Agora a sério, Diogo, esta Anita não me parece nada ser a da Anita na escola, Anita monta a cavalo, Anita na floresta… Não é, pois não?

    • Diogo Leote diz:

      Olha que não sei se não é a mesma, Manuel. Esta tinha muita “escola”, adorava “montar” e era viciada em “cavalo”…

  2. Pedro Marta Santos diz:

    Diogo, já me estás a lixar a vida. Lá vou eu ter que comprar o livro.

    • Diogo Leote diz:

      Pedro, compra que não te arrependes. Eu também vou ter de me meter em despesas por causa do teu último post.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    É swing até mais não (ou foi, que agora…)
    E grande versão do Gimme Shelter.

    • Diogo Leote diz:

      António, eu até fiquei tonto com tanto swing. Com o swing e com as pernas da Anita.

  4. O Eco de Umberto diz:

    Anita nos Stones. Parece que ainda falta ela fazer o baixista, não?

    • Diogo Leote diz:

      Caro Eco, parece que o baixista (Bill Wyman) e o baterista (Charlie Watts) não tinham hype suficiente para a Anita. Mas tudo isto dava uma bela edição especial de um livro da Anita. Só para adultos, claro.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Caro Diogo, sem este segundo texto poderia parecer que a invenção e imaginação dos Stones vinha só da cozinha….mesmo que saibamos que o Andrew Oldham forneceu algum “booze” e alguma farinha branca…que não era para fazer bolos! Mas as grandes musas foram sempre as donzelas, E a Anita foi rainha merecida…vou ter de comprar o livro sim senhor…

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, dá para perceber porque é que o Keith não tinha tempo para dormir. Chegou a estar 9 dias sem pregar olho. À custa de muita drogaria, claro. Mas o maior aditivo do Keith era e é mesmo a música. Por mais importante que tenha sido na sua vida (e foi, no bom e no mau sentido), a Anita veio sempre depois da paixão pela música. E isso é o que impressiona mais no livro. O livro respira paixão pela música em cada uma das suas palavras.

  6. Ana Rita Seabra diz:

    Grande Anita sim senhora! Não brincava em serviço…claro que o baixista e o baterista não interessavam, com aquelas carinhas!!!
    Boa música!
    beijos

    • Diogo Leote diz:

      Ana Rita, não vamos ser injustos com a Anita: ela viveu um grande amor com o Keith. Como já antes o vivera com o Brian. Só o Mick é que foi um devaneio. O Mick, claro, e muitos outros. A rapariga não se dava bem com a rotina. E gostava de umas novidades de vez em quando…

  7. Diogo Leote diz:

    Eugénia, eu percebo essa distância. Mas o livro do Keith não se alimenta de “fait-divers”. Muito longe disso. Estes, quando aparecem, estão sempre ao serviço da grande narrativa. Grande narrativa que é, apenas, a de uma história de amor, muito bem contada, contagiante e viciante. E já adivinhou qual é o objecto desse amor do Keith: não é a drogaria, não são as mulheres, não é a fama; é apenas …a música. O livro é uma carta de amor à música. Vinda de um homem de grande sensibilidade (quem diria) e profundamente culto musicalmente (já era de suspeitar, apesar do estilo “nonchalant”).

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