Na cozinha com os Stones

Primeiro a “grande histoire”: estamos todos de acordo que os Rolling Stones mudaram a História da música popular. Foram eles que, depois de Elvis ou Buddy Holly, transformaram o rock´n´roll naquilo que hoje em dia ainda dele resta. Mas talvez poucos saibam que não era esse o seu projecto quando começaram. Nos seus primórdios, os Stones não aspiravam a mais do que ser a melhor banda de blues de Londres, o que, na ausência de outros que a isso se atrevessem deste lado do Atlântico, passava apenas por recriar competentemente o que os grandes mestres Muddy Waters, Bo Diddley, Jimmy Reed, Chuck Berry e outros da mesma estirpe faziam por terras do Mississipi.

Mas, para que se perceba bem como se consumou a revolução musical dos Stones, nada como visitarmos a intimidade de Mick Jagger e Keith Richards. A convite de Keith, deixemo-nos levar pelas “petites histoires” da sua extraordinária autobiografia Life (não estou a exagerar, o livro é mesmo um portento).

Comecemos então pela cozinha. Corria o ano de 1965, os Stones eram já uma banda que provocava reacções descontroladas entre a comunidade adolescente do Reino Unido. Reacções de sinal oposto, pois que em medida directamente proporcional à histeria colectiva das meninas se seguiam as manifestações de fúria dos seus namorados ciumentos. Os Stones tinham, no entanto, um problema: eram apenas uma banda de covers, ou seja, nunca tinham composto uma canção. Até ao dia em que Mick e Keith foram fechados numa cozinha pelo seu então produtor Andrew Loog Oldham, com a expressa indicação de que não podiam de lá sair sem uma canção. Bem entendido, com uma canção que fosse genuinamente dos Stones e não mais uma imitação do blues de Chicago. E foi assim, bem à força, que Mick e Keith perceberam que até se podiam safar na composição. De tentativa em tentativa, lá foram saindo uns acordes e umas frases soltas. Primeiro o “It is the evening of the day”, depois o “I sit and watch the children play”. E, ao fim da noite, já de madrugada, estava composta a primeira canção dos Stones, As Tears Go By.

Resolvido um problema, passaram Mick e Keith a ter outro: “aquilo” não passava de uma cançãozinha pop e os homens tinham horror ao pop. Tinham horror ao pop e vergonha de tocar “aquilo” com os outros Stones (na altura, Brian Jones na outra guitarra, Charlie Watts na bateria, Bill Wyman no baixo e ainda o pianista Ian Stewart que, apesar de já não fazer parte da formação oficial da banda, fora seu grande impulsionador nos primeiros tempos e com ela tocava ainda). Apesar do problema, escusado será dizer que As Tears Go By foi um hit instantâneo pela voz de Marianne Faithfull e se tornou um clássico ao longo dos tempos. E, durante quase um ano, lá continuaram Mick e Keith a compor cançõezinhas pop para miúdas histéricas. Canções que os próprios entendiam não ser dignas dos Stones e se recusavam a tocar com a banda, enquanto assistiam, com arrogância e desprezo, à escalada das mesmas pelas tabelas de vendas.

Um dia houve em que, finalmente, os Stones oficialmente nasceram enquanto banda com canções originais: o dia em que Mick e Keith compuseram The Last Time, a primeira canção que se orgulharam em mostrar aos outros elementos da banda. E daí foi um pulo até Keith se lembrar de inventar os acordes de Satisfaction, o primeiro número um na tabela de vendas dos Stones. O resto, com mais ou menos “petites histoires” (e a elas voltarei em breve, aqui fica a promessa), foi aquilo que já sabem: a grande história da música a seguir o seu curso.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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16 respostas a Na cozinha com os Stones

  1. O Eco de Umberto diz:

    As tears go by nasceu na cozinha? Foi cebola. Ansioso por mais cozinhados destes.

    • Diogo Leote diz:

      Caro Eco, parece que o Mick e o Keith nunca mais voltaram à cozinha depois da epifania. Mas à Marianne voltaram, sim, e de que maneira…

  2. Dobra diz:

    O que uma mulher aprende com esta blogue!

  3. Rita V diz:

    First ‘Sounds of Silence’ – Simon and Garfunkel
    Second My Sweet Lord – George Harrison
    Third ‘As Tears go By’ – Stones
    Os primeiros acordes na viola
    Giro!

    • Diogo Leote diz:

      Rita, depois de ter visto umas peixeiras do séc. XVI a falar, já acredito em tudo. Até a vê-la lá atrás no video, a acompanhar à viola a Marianne.

  4. manuel s. fonseca diz:

    Diogo, volta com os Stones, mas sempre com a Marianne. Quem é que, meu amigo, à Marianne não é faithfull?

    • Diogo Leote diz:

      Pois é, Manuel, mas mais vale ser Faithfull na cama do que na cozinha. Só por isso prometi voltar.

  5. Pedro Marta Santos diz:

    Não sendo grande fã dos Stones – pronto, o Norton vai matar-me – sou um assolapado pela Marianne, fielmente. Boa lembrança, Diogo.

    • Diogo Leote diz:

      Pedro, fica descansado, já te trago a Marianne de volta. Não garanto é que a fidelidade seja o forte dela.

  6. Sofia roque diz:

    Acho que prefiro ir lendo as tuas pequenas historias, ás do livro do keith…keep writing diogo! Grande beijinho

    • Diogo Leote diz:

      Bem vinda, Sofia! O teu desafio não me deixa alternativa: vou já ali para a cozinha para te trazer mais histórias. Um beijo para ti também.

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Saem muitas coisas boas da cozinha, mas estas lagrimas já fazem parte das”fornadas” clássicas…e a Marianne com 17 aninhos tão bem comportada, não sabia que o pacto com os diabinhos iria transformar a sua vida…

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, depois de ler o Keith, eu diria que o diabinho estava mesmo no corpo da menina Marianne…

  8. Diogo Leote diz:

    Cara Eugénia Mariana Faithfull de Vasconcellos, aqui vai um conselho de quem seu amigo é: antes Lana um dia do que unfaithfull toda a vida, como a Marianne o foi!

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