Na Espera da Chuva

O sonho de Durer

Foram tempos de secura. Os longos meses sem água transformavam a terra num pó fino, dourado. E anos a fio passados a olhar o mundo pela pequena janela sobre o terreiro de oliveiras.

Lá fora os animais emagreciam da fome, vagueando longe pelas colinas, estas mais desertas.

A pele dos braços encarquilhava-se à volta dos ossos, nas mãos secas veias azuladas  traçavam linhas oblíquas, desordenadas. As pernas magras perdiam-se dentro do par de calças de veludo, desbotadas com as lavagens rudes da água do tanque, fria no inverno ao ponto de criar um liso espelho de gelo onde os pequenos insectos enganosamente pousavam, na tentativa  desesperada de chegar à superfície liquida.

O rosto vertical, estreito, era marcado pelos sulcos cinzentos dos círculos em volta de dois pequenos olhos, abertos, pupilas perdidas num oceano branco translucido. A beleza tinha passado por ali, nas feições que outrora fizeram abanar cabeças, alterar as  expressões de quem passava.

C. Sentou-se na cadeira em frente da mesa e do espelho estilhaçado. Via-se a si própria todos os dias por duas vezes, logo de manhã e antes de se deitar. Não entendia as alterações no rosto, os ombros espetados como cabides, os seios descaídos.

Às vezes sentia que aquilo era uma outra história, não a sua. Uma outra coisa qualquer…ela não era aquilo… Mulher bonita, de uma alta estatura, proporcional. Cabelos longos, lisos e fortes de cor negra, basalto. Umas pernas esbeltas, que suportavam um corpo e peito curvilíneos. O pescoço era pálido, uma boca de carne, vermelha em fundo branco, uns olhos marcantes de cinzento profundo.

Mas lembrava-se.

Do dia em que conheceu R. Vestia uma saia curta preta, sobre uns finos “collants”, uma camisa cinzenta de mangas compridas e o seu chapéu favorito. As arvores frondosas dançavam com a brisa, ouvia-se a água que escorria do tanque para alimentar o pomar de macieiras, onde os piscos mordiam as folhas verdes ao final da tarde. E havia um certo sentido de tudo. Do lajedo irregular do caminho, às ervas daninhas que cresciam entre as nesgas dos muros de pedra abandonados, ao musgo verde que nascia na sombra do sol.

Agora sentava-se à janela e pensava nos pássaros  que esgravatavam a terra por uma migalha…seria bom não ter a memoria do que tinha sido, como qualquer pássaro ou insecto, voando ininterruptamente até uma morte precoce não sentida? Porque o preço da vida era poder senti-la, disfruta-la até ao fim. Sim até ao fim.

Percebeu que vinha a chuva, o ar que se tresmalhava de humidade pesada, o vento  a levantar suavemente a poeira fina e as poucas folhas secas que restavam.

Esboçou um sorriso. Com a chuva sabia que vinha também a doce memoria de R.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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14 respostas a Na Espera da Chuva

  1. Rita V diz:

    Bernardo que bonito

  2. Diogo Leote diz:

    Enquanto C. recordar, vive. E, enquanto R. for recordado, vive também. E o teu texto, Bernardo, tem o mérito de nos tirar o medo de recordar. Mesmo que, um dia, já nada mais tenhamos senão recordar.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      É verdade Diogo, podemos ter medo de recordar, porque recordar é também sentir…assim como não deve ser possível viver sem memória…ou será uma vida sem sal…

  3. teresa conceição diz:

    Bernardo,
    é como se o tempo sem amor fosse o deserto. Como se o tempo de chuva regasse também o coração. E por fim, como se a memória pudesse resgatar o Amor e a Beleza.
    As pessoas sem Chuva definham como a vida sem Amor faz rugas (só que a vida com amor também, que seca de lembrança a estragar-me a teoria).

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Teresa que bela interpretação…muitas vezes deixo de me preocupar com o texto como um todo…agora vejo que as suas palavras também fazem todo um sentido. Obrigado.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Há se eu tivesse sabido antes…podia cair que nem as gotas ( de chuva) no final…decididamente nada se inventa, e está tudo ligado entre si.

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Onde se prova que as estações da vida dependem mais do clima que do tempo…
    Gostei muito, Bernardo (e lembrou-me Cabo Verde…)

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Mais do Clima que do tempo? E não estão os dois interligados? Não conheço Cabo Verde, infelizmente. A única imagem que tenho é a de algumas cenas do filme a Casa da Lava, do Pedro Costa que acho que é lá filmado…mas consigo imaginar a cena lá perto…

  6. manuel s. fonseca diz:

    Nasce o musgo na sombra do sol, nascem memórias na sombra de uma curta saia preta.

  7. Ruy Vasconcelos diz:

    agudo senso descritivo que parece desencadear-se por uma sequência de hai-kais.
    e fica uma sensação: serenidade.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Caro Ruy, o pouco que conheço de Hai Kai é que é uma forma ritmada e repetitiva de escrever poesia (?)… bela referência porque acho que o ritmo do texto é muito importante, mas transmitir ideias também…e fico contente de ter conseguido transmitir alguma sensação.

  8. rita vaz pinto diz:

    Nano
    Gostei muito. É saudade recheada de alegria.
    rita

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