Nenhuma vida se esgota…

Nenhuma vida se esgota nos títulos dos jornais. Nem nos suculentos títulos fornecidos pelas fontes policiais, nem nas menores ou maiores reportagens que uns contra os outros os lobbies encomendam. A vida não se esgota sequer no trabalho decente de jornalistas e redacções independentes. A vida não se esgota no rodízio de especialistas económicos que aconselham com vigor uma coisa e o seu contrário. A vida não se esgota nem nos salários gourmet nem na linha branca dos salários microscópicos, ainda que entre os dois haja, e há, um cortejo inegável de amargura, azedume, às vezes desespero. A vida não se esgota na chinesice que é o espectáculo farsola e hipócrita de nomeações “é sempre para os mesmos”.
A vida nem se esgotou, quando eu era adolescente e jovem adulto, na ditadura e na PIDE ou na resistência a ambos, nem se esgota agora na exangue democracia.
O rating da vida não é o da Standard & Poor’s. A vida não é a dívida. A vida não se esgota porque a vida é soberana. E eu hoje acordei outra vez com 20 anos.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Nenhuma vida se esgota…

  1. Rita Vasconcellos diz:

    em resposta:

  2. Pedro Marta Santos diz:

    A vida é soberana. That’s it.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel, que tosca e triste vida seria se a nas manchetes dos jornais , nas filosofias do politicamente correcto, ou nos balanços herméticos de uma qualquer multinacional que ao desaparecer não deixará saudade. Não. Antes acordar com essa sensação de ter outra vez 20 anos…eu também gosto do grito de guerra do James Brown ( para ouvir em alto e bom som ): I FEEL GOOD ….!!!!

  4. manuel s. fonseca diz:

    E que a vida lhe dê o tudo tanto que outra latina princesa canta.

  5. irónicamente, a vida e o dinheiro, partilham algumas caracteristicas. É dinheiro que gera dinheiro, é vida que gera vida. Ambos se esgotam quando não se alimentam a si próprios, de si próprios. Desinteressadamente.

  6. manuel s. fonseca diz:

    Sem ironia, Rute, sou a favor do dinheiro e da vida.

    • Sim, foi mesmo por sentir essa concordância que reescrevi a mesma ideia com outras palavras. Sem me alongar, apetece-me acrescentar que é a falta de “vida” na vida que gera a dívida pessoal, a que antecede todas as outras.

  7. ~CC~ diz:

    Com 20 anos Manuel ??? Isso já não é a vida, é um milagre nela infiltrado!
    ~CC~

    • Manuel S. Fonseca diz:

      ~CC~, sempre fui dado a milagres. E não tem a ver, sequer, com a transcendência. Há pessoas propensas a quedas. A mim é milagres: 20 anos, sem pacto fáustico.

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