Norma Jeane/Marilyn

"A Minha Semana com Marilyn"

Baseado em dois livros de memórias de Colin Clark, o terceiro assistente de realização de “O Príncipe e a Corista”, uma fita de 1956 onde se reuniam um grande actor que queria ser uma estrela ( “sir” Laurence Olivier) e uma estrela que seria ser uma grande actriz (Marilyn Monroe), este “Uma Semana com Marilyn” é um pequeno filme sobre o mistério por trás da fama da “blonde bombshell”. E é também um filme pequeno. Dezenas de livros já se escreveram sobre a mulher-criança Norma Jeane Mortenson (o verdadeiro nome de Marilyn), a menina ruiva de mãe louca, sem pai, enfiada em orfanatos, de eterna fragilidade, como se a infância pobre regressasse ao mais leve passo em falso. Há documentários sobre Marilyn todos os dias no “Biography Channel” ou no “Canal História”, e quase todos se focam na tragédia da sex-symbol que tinha tudo, menos a segurança do amor – acabou aos 36 anos, afogada em barbitúricos numa vivenda em Brentwood. A curiosidade deste filme é não ser um “biopic” mas antes um retrato fugidio de meia-dúzia de dias na vida da estrela, durante a rodagem nos Pinewood Studios londrinos do tal “O Príncipe e a Corista”, uma fita medíocre, baseada numa peça de Terence Rattigan, sobre os amores do soberano de um país fictício e uma bailarina de vaudeville, espécie de “Pigmalião” para grandes audiências (foi um flop comercial). Mas “Uma Semana com Marilyn” falha em demasiados aspectos: a personagem que dirige e narra o filme, Colin Clark (Eddie Redmayne) é boçal e arquetípico – ele é o rapaz que há em todos os homens, com a mulher mais desejada do mundo num banho nu, a dois, no Tamisa – e, ao fim de um par de dias, ama perdidamente Marylin e quer protegê-la para a eternidade, tarefa em que o anterior marido Joe Di Maggio e o actual, Arthur Miller, falharam por completo. Dirigido sem inspiração por um veterano de séries de tv, “Uma Semana com Marilyn” não é capaz de iluminar a complexidade de Norma Jean por trás do rosto planetário, ficando-se pelos casamentos infelizes, a fome de aprovação artística, o vício dos comprimidos. Salva-se a interpretação tocante de Michelle Williams, que tem mostrado ser uma actriz de respeito desde “O Segredo de Brokeback Mountain”. É apenas graças a ela que entrevemos as outras faces de Marilyn. Se quer saber um pouco mais sobre Norma Jean/Marilyn, talvez seja melhor ler “A Beautiful Child”, um dos grandes textos de Truman Capote na colectânea “Music for Chameleons”. Ah: Williams vai ganhar o Óscar.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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3 respostas a Norma Jeane/Marilyn

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Há para aí dois momentos Marily no filme. Um é quando na visita à biblioteca e com os funcionários à espera ela diz ao rapaz: “Queres que eu seja ela?” O outro já no regresso, depois do banho lustral, quando a câmara a enquadra atrás do vidro da janela do carro, com a tristeza a demarrar-se-lhe pelo rosto.

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Com esta bela descrição acho que já não vou ver o filme ao cinema…

  3. Pedro Marta Santos diz:

    Concordo contigo quanto ao vidro do carro, Manel. Tem razão, Eugénia, eram uns patetas. Pois é, Bernardo, acho que se percebe mais sobre a Marilyn revendo o “The Misfits”.

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