Nunca te Disse

 

                                                                 Chagall,  Lovers at Midnigh

Nunca soubeste os caminhos que tive de percorrer, ligando-me a pessoas que não conhecia, as camas onde tive de me deitar, sobre ruas pestilentas, cobertas de jornais e papeis velhos que esvoaçavam no ar seco e áspero que só corre nas vielas escuras dos recantos esquecidos das cidades cujos nomes não nos lembramos.

Nunca soubeste os anos que vivi escondido em casebres, perdido nos lados mais recônditos de um porto qualquer, o mundo reduzido ao rectângulo amarelado da janela sem tinta, onde o vidro envelhecido criava rugas no céu e nas nuvens brancas que passavam.

Nunca entendeste aquele primeiro instante, aquele momento certeiro em que pela primeira vez senti esse olhar que me trespassava no meio da multidão que percorria as ruas solarengas da cidade fria, numa tarde de inverno. Nunca soubeste que esse primeiro momento dilacerou-me a carne, toldou-me o espirito numa náusea profunda, e obrigou-me a deambular pelo passeio, como se fosse pelo tempo, acabando por me agarrar ao poste metálico e liso que parecia orgulhoso na sua verticalidade prístina. E sucumbi ao peso de toda uma vida que sabia não possuir.

Nunca entendeste que quando falava, falava sobre paisagens de rochas secas e pequenos arbustos de folhas verdes, onde suculentos gomos vermelhos rebentavam nos meses primaveris, sem que nenhum de nós estivesse a olhar. Nunca entendeste que não era de mim que falava, por não saber que tinha qualquer coisa para dizer.

Nunca entendeste que era impossível continuar de olhos abertos ao ouvir o segundo andamento da quinta sinfonia, como costumava-mos fazer nas mesas velhas da esplanada do restaurante peruano, a olhar languidamente as copas das palmeiras esticadas e fotogénicas.
Nunca entendeste que eu não estava exactamente ali, eu tinha-te imaginado e sonhado, como no conto do Borges, subjugado, e não era possível tu entenderes.

Nunca entendeste que só existires era para mim razão suficiente de poder dizer adeus à vida.

Só existires carregava de sentido a existência patética que se desenrolava à minha volta, cheia de quotidianos indecifráveis e incompreensíveis.

Nunca entendeste que quando abrias os olhos, essas elipses desenhadas em mundos passados, mitológicos, a noite caía. E tudo ficava escuro.

Nunca entendeste porque nunca to disse.
Como te poderia dizer?

Como te poderia explicar, sentado contigo a olhar os pássaros que bicavam a erva verde gelada, debaixo daquele céu que se encomendou para nós, só para nós, numa tarde infinita, com as ambulâncias a passar, o cheiro pesado dos automóveis, a minha mão na tua, os olhos de água escondidos por detrás de lentes escuras, as bocas que se abriam em frases ditosas, a perdurar no ar?

Como te poderia dizer?
Se tudo era um tempo que se fazia curto, um amor que se queria incógnito.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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21 respostas a Nunca te Disse

  1. Rita V diz:

    que bonito Bernardo
    vou ler outra vez

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Rita, obrigado sempre, é bom sabermos que alguém nos ouve…e saber e ler não ocupam espaço.

  2. E de repente um texto que nos leva para o outro lado da vida, e de repente Chagall.

    Obrigada pelo inesperado e pela qualidade. Soube-me bem.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Obrigado também…tudo isto é algo inesperado para mim…escrever é triste mas também é expor-mo-nos a todos que de fora nos lêem…até breve espero.

  3. Carla L. diz:

    Ao terminar o texto dá vontade de perguntar: Como nunca me disse??? de tão envolvidos que ficamos.Nos perdemos entre o eu e o outro.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Carla mas isso acontece às vezes tão juntos e tão perto, e fica tanto por dizer…Obrigado pelo comentário.

  4. Paula Ferreira diz:

    E como poderia ter dito tanto? E como pode escrever tanto?Ah os amores que acabam no papel…

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Diz-se tanto sem saber, tão pouco a achar que se disse muito. Escreve-se às vezes com a vontade de não deixar que o mundo avançe e nos atropele… realmente o que é que conta? Muitos amores acabam no papel como diz, prefiro pensar que são inumeras as formas de amar. Obrigado pelo comentário.

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Exacto, como seria possível dizer antes algo que só se apreendeu depois?
    Não sei se é (ou quis ser) um testamento emocional, mas é belo.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Obrigado António, mas para ser honesto também não sei…São torrentes que saem de uma vontade de agarrar pensamentos e imagens que se ligam a sentimentos…

  6. ~CC~ diz:

    Bela homenagem a todos nós que nunca o dissemos, tantas foram as vezes que enrolei para dentro palavras como estas…bem, não sei se tão belas 🙂
    ~CC~

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Provavelmente tão belas (as suas) porque ditas para o serem…As palavras são também aquilo que sente quem lê, não é? Obrigado… sinto que estou incluido na “sua” “homenagem”.

  7. manuel s. fonseca diz:

    Well done. Por mais que se diga, nunca dizemos. Por mais que olhemos e nos olhem, continuamos incógnitos. E é bom, Bernardo, que passem ambulâncias.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Que passem as ambulâncias…é interessnte como o comentário já me leva a outros lugares…lembrou-me uma frase que me ficou na mem´ria há já muitos anos (penso que é do John Updike) que era :”Keep passing the open windows”, “deixem que passem as ambulâncias…” ooops já estou a divagar…Obrigado sempre…

  8. teresa conceição diz:

    Nunca lhe disse, mas talvez ela tenha sabido sempre.
    Há coisas que não precisam ser ditas.
    Mas ainda bem que podemos lê-las, Bernardo.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Olá Teresa, acredito que sim, que há coisas que se entendem ser terem de ser ditas ou explicadas. Obrigado por lê-las…

  9. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Eugénia ainda bem que refere as palavras ” bonito” e ” feliz”, porque era esse um pouco o sentido do texto, embora possa parecer, agora que o re-li, um pouco melancólico…Também não tenho duvidas que este “re-ler” a todos no escreveretriste tem muito sentido para mim. Obrigado.

  10. Pedro Norton diz:

    Bernardo,
    Ao ler este teu texto dei comigo a pensar no meu irmão Tiago. Tive a sorte, durante alguém inverno sem fim, de lhe dizer tudo o que havia para ser dito. E ainda hoje me arrepio de pensar que podia não ter sido assim.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Pedro, mas ainda bem que assim foi!!! O que é verdade é que a ficção se mistura com a realidade sem pedir liçença…

  11. Benvinda Neves diz:

    Lindo,muito lindo mesmo, uma homenagem a todos os amores incógnitos cujo tempo é sempre pouco, mas arrebatadoramente vivido, pela consciencia do mesmo.
    Que bom ter-se a noção de que nunca se diz tudo, pois o tempo dir-nos-à que até dissemos demais.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Tempo e amor não falam a mesma língua muitas das vezes, sabe a pouco o tempo que se passa junto, mas é doce a memória quando se está longe. E concordo que se calhar até já dissemos demais…obrigado pelo seu comentário, e até breve espero….

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