O Homem que não foi criança

É uma história de “gangsters”, uma história de crise, uma história de amor.

Podia ser uma história de hoje. Em certo aspecto podia ser também a história de cada um de nós. Ascensão e queda, amizades que se inimizam, amores que se reencontram, que passam e não se concretizam.

Mas o diamante em bruto de “The Roaring Twenties” (em português Heróis Esquecidos, realizado por  Raoul Walsh em 1939), é mesmo James Cagney, no papel de Eddie Bartlett.

É ele que se mistura na atmosfera pestilenta dos bares ilegais (os famosos “speak easy”), onde o fumo era espesso como paredes. É ele que transforma o pequeno negócio de táxis num gigante de venda ilegal de álcool (estamos no período da lei seca). É ele que desperta a genuína amizade do seu amigo de longa data que o acolhe quando este regressa da guerra. É ele que se assusta com a face inocente e ainda virginal de Priscilla Lane, no papel de Jean Sherman, inconsumado amor de Cagney no filme.

É em contraste com o seu percurso que a ingenuidade de Jane se transforma em credível maturidade no final do filme. É por comparação com a sua honestidade de assumir os próprios erros que nos chocamos com a frieza e perversidade da personagem de Bogart.

É aquele olhar que chora sem pestanejar, as feições que não se alteram, mas que tudo dizem. A expressão que nos fere por detrás de uns pequenos olhos prístinos, focados. A face desenhada de quem é adulto prematuramente pela dureza da vida.

Temos pena dele, mesmo quando é ele que domina o mundo, (“he used to be a big shot” explica Panama Smith, interpretada por Gladys George, ao policia sobre o corpo sem vida de Cagney …)

Temos pena dele quando o vemos de volta aos bares solitários, às dores da paixão, na noite fria da cidade, onde o amor é tantas vezes trocado por um casaco de peles.

Cagney representa o anti-herói e o próprio herói, porque é o herói que na última cena tomba sem vida na escadaria da igreja, no memorável “ending” de Walsh.

Temos pena dele por ser a cara do homem que nunca foi criança.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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6 respostas a O Homem que não foi criança

  1. Rita V diz:

    Quando era miúda, via imensos filmes com o James Cagney mas o Gregory Peck é que nos fazia suspirar
    eh eh eh
    o seu texto acima fez-me gostar um bocadinho dele

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Rita o Gregory Peck e o Cary Grant são de certeza os campeões no roubo de corações de finas donzelas, da época e nao só…mas olhe que o Cagney, por entre uma certa dureza e a tal cara de adulto precoce, também não fica mal na fotografia. Até breve, por estes lados…

  2. manuel s. fonseca diz:

    É sim uma história de hoje, Bernardo, filmada por um cineasta como não há hoje: viril, enérgico, mais interessado no ritmo do que na moral. O Coppola andou, no Cotton Club, à procura de rimas com este Roaring Twenties. O final na escadaria é, como diria o Bénard, inadjectivável.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Caro Manuel concordo com o viril e enérgico, mas acho que o filme também tem muito de moral! A cena que Cagney ” aceita” perder Jane para o Lloyd, e o final onde acaba por se “sacrificar” pelo casal ” they have kids…” diz Cagney a Bogart…tem muito de moral acho eu. Vamos falando …

  3. Ana Rita Seabra diz:

    Gostei de conhecer melhor este Cagney, ao lado de um Bogart frio e com ar tough

  4. bernardo Vaz Pinto diz:

    Eugenia deve haver uma relação difusa mas directa entre as nossas memórias e aquilo que somos e fazemos, não acha? E que belo avô que teve…essa já ninguém lhe tira.

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