O jovem monstro

 

De perna grossa e andar quase marcial, a drª Maria das Dores Brinques avançou pelo longo corredor em calçada à portuguesa de imitação rumo à primeira aula do seu último ano como professora de desenho e artes em geral.
Sentia-se moderadamente feliz, nunca gostara muito de dar aulas, em especial ao grupo etário adolescente que a sua relativa especialização dava acesso. O facto de neste último ano lectivo a terem atirado para as extra-curriculares ofendera o seu orgulho de matrona impositiva, coisa que ruminava em silêncio mais não fosse porque nunca partilhara intimidades com ninguém: sempre fora solteira e fechadona, e não era católica exposta a confissões. Nem baptizada sequer…
Coisas de cultura familiar já antiga, de onde herdara um nome próprio que em tempos pensara mudar oficialmente por ser tão grotescamente ridículo: Maria das Dores e Prazeres Conjugais da Silva Brinques… Uma gracinha idiota imposta pelo seu terrível avô Adérito, um activista tardio da Carbonária. As burocracias infindáveis para tal operação de limpeza onomástica acabariam por fazê-la optar antes por deixar cair a parte mais ofensiva do seu nome, e, nos dias que corriam, já ninguém, nem mesmo em documentos oficiais, se lembrava do que estava atestado na certidão de nascimento. Nunca percebera como a Conservatória de Elvas tinha permitido tal coisa, mas a fama de matador e bombista do avô Adérito (o Não-Brinques, como era conhecido) devia ter ajudado.
A extra-curricular que lhe caíra nas sortes era afinal uma matéria que dominava com certo à vontade: iniciação às artes.
Entrou na sala sem olhar para nenhum dos 26 miúdos em particular, anunciando-se com um sonoro «bom dia» que desfez num repente o ajuntamento formado em volta de um rapaz dos seus 16 anos de olhos estranhamente claros, quase luminosos.
Ao mandar sentar a classe com um gesto displicente, notou que o tal rapaz se apoiava numa curiosa bengala de castão em forma de cabeça de crocodilo (seria de prata?…). A chamada decorreu rápida, com a professora Maria das Dores a usar apenas os nomes próprios dos alunos.
Até que, mesmo no fim da lista, a sua celeridade estacou de espanto, alterando-se para um pausado enunciar do nome completo do visado:
– Plínio Augusto Bacelar Telles de Albuquerque… E com dois ‘l’ e tudo, vejam lá!… Ora aqui está um nome de peso!…, disse Maria das Dores com gozo na voz, olhando em redor a ver quem se denunciava.
Levantando-se da cadeira, apoiado na sua bengala de cabeça ferina, o jovem de olhar quase branco disse apenas, com um leve sorriso irónico nos lábios finos:
– É verdade, e o da senhora doutora também é bastante interessante…
No íntimo da professora um sinal de alarme aconselhou-a a não averiguar o porquê deste comentário. Reparou com algum incómodo que o olhar dos jovens companheiros de Plínio se fixava alternadamente nele e em si própria.
Como este era o último da lista passou de imediato à matéria com que pretendia iniciar o ano: o simbolismo na pintura clássica. Ligando uma ‘pen-drive’ ao painel interactivo, seleccionou a imagem de um quadro figurativo bastante escuro. O ‘power-point’ mostrava o título e o nome do autor da obra: ‘Água’, de Joachim Beuckelaer.
Uma chispa de vingança iluminou-lhe zona imprecisa do córtex. E foi com voz pausada e aparentemente desapaixonada (mas logo ali traída) que designou o palestrante:
– Ora eu gostaria muito de ouvir o que o jovem senhor Plínio Telles… DE!… Albuquerque…, tem a dizer sobre este quadro. O que lhe parece, o que acha disto?…
O jovem preparava-se para se levantar, no que foi interrompido pela professora.
– Deixe-se lá estar sentado…, parece que se aleijou…
– É verdade. Ia ficando sem uma perna. Um jacaré esmagou-me a tíbia há três anos, no Brasil, e agora tenho de ser operado de dois em dois anos para alinhar o esticador de platina. Mas quando deixar de crescer fica tudo bem…, disse o jovem com despreocupação, sentando-se de  perna bem esticada e bengala em pose de poder.
– Quanto ao quadro, sinceramente acho-o mauzote… Aliás os pintores renascentistas da Flandres eram bons era nas cenas de misticismo evidente ou em interiores, sempre cheios de pormenor… Nem é pelas caras serem todas iguais, embora neste caso seja quase ridículo… Isto era bastante comum na pintura não retratista do século XVI, o próprio Leonardo da Vinci usava sempre o mesmo modelo nos seus anjinhos e madonas, que por sinal era o namorado dele…
Nesse instante a sala inteira desatou à gargalhada, guinchinhos das meninas, caras mais escondidas nos rapazes, em fungadeira ruidosa. Para grande desorientação de Maria das Dores calaram-se todos quase imediatamente a um mudo sinal de reprovação do já insuportável catraio. Que continuou a sua insuportável prelecção:
–  E quanto ao simbolismo estamos conversados, os quatro elementos da série são todos comidinha… Mauzote mesmo. O Beuckelear pode dizer à vontade que o pregado é S. Pedro, mas para mim estava bem era num rodízio… E depois aquela perspectiva com pontos de fuga que não jogam… Mas há uma coisa curiosa: ele lembra-me bem mais os barrocos franceses que os renascentistas puros…
Maria das Dores estava paralisada, não conseguia esboçar um gesto que fosse para interromper o jovem, que dissertava agora com improvável segurança sobre o «pequeno pornógrafo Fragonard» e o «imprestável  Ingres», elogiando antes os grandes flamengos «como van Eyck e Bosch»  – ou Turner, o «pai de todo o futurismo»…
O soar da campainha não lhe alterou o estado, permaneceu sentada enquanto todos abandonavam a sala agrupados à volta de ‘Plínio-o-manco’, como já só conseguia denominar mentalmente aquele seu novo e irritantíssimo aluno.

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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11 respostas a O jovem monstro

  1. manuel s. fonseca diz:

    Plínio, o Manco saiu-te uma bela bengala. Grande aula.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Mas tive de o mandar aos jacarés, se não a coisa não corria bem.
      Ainda bem que gostaste!

      • António Eça de Queiroz diz:

        Pois imagino que não, Eugénia…
        Mas a si vou contar uma curiosidade a respeito deste texto: só o nome de Plínio-o-manco foi inventado, a drª Maria das Dores & Prazeres existiu realmente, algures nos anos 20. Era dos arredores de Castelo Branco e não era neta mas sim filha dum Carbonário (não, não se chamava Brinques, o apelido foi criado a preceito…)

  2. Rita Vasconcellos diz:

    não posso chegar atrasada à próxima aula
    (registei frenéticamente o DE e os dois LL’s)
    🙂

  3. Ó monsieur Antoine, este texto é magnificente. Pura ficção, todavia, disto não há. Muito quereria eu um Plínio, ainda que manco, nas minhas aulas de literatura.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Ivone, primeiro: ainda bem que gostou; segundo: com a perna traçada por um jacaré, que eu saiba não há…

  5. ~CC~ diz:

    Ah, ah…uma história bem humorada, bem precisamos!
    A prof. Maria das Dores deve ter sonhado isto…e ainda deve estar hesitante a pensar se foi sonho ou pesadelo.
    ~CC~

  6. António Eça de Queiroz diz:

    ~CC~, sonho ou não para ela é pesadelo certo (a ideia foi essa, coitada da mulher…)

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Caro António deliciei-me! …da ironia dos nomes, fantástico o Não Brinques ( até dá para os políticos…), à reformulação do vocabulário critico com “mauzote”…um prazer de leitura.

  8. António Eça de Queiroz diz:

    Isso é óptimo, Bernardo, nada me dá mais prazer do que divertir com o que faço.
    O “mauzote” na boca daquele ‘bisca’ produz alguma destruição – é como uma ‘Magnun’ com silenciador, chega de pantufas mas esburaca à mesma.
    Ainda bem que gostaste!

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