O meu amigo Zach

Lembro-me da noite em que lhe falei dele. Apresentei-o como Beirut. Perguntou-me se ele era libanês. Disse-lhe que não, que Beirut era pseudónimo de um nome impróprio. Impróprio, como impróprio? Sim, Condon não era apelido com que nenhum rapaz decente se apresentasse, pois não? Lembro-me que trocámos então o nosso primeiro sorriso malandro. O rapaz, e era mesmo um rapazinho com pouco mais de vinte anos, não tinha culpa de ter nascido Zacharias Condon. Zach para os amigos. Mas não, não nascera, nem sequer vivera, no Líbano. Era americano, nascido e criado no Novo México. E a sua música também não criara raízes no Médio Oriente. Mas andava lá perto, pelos Balcãs. E sempre com um melodioso trompete e um condimento de chanson française a acompanhá-lo. Alguns sorrisos malandros depois, lembro-me ainda de ela me vir dizer que eu a tinha enganado. Beirut não era pseudónimo dele, era o nome da banda, ou do projecto, ou lá o que era. Isso era só um truque do Zach, expliquei-lhe. A banda era ele, os outros músicos eram uma espécie de orquestra particular ao serviço de todos os seus caprichos. E achei por bem dizer-lhe que a palavra “projecto” estava banida do meu dicionário de aspirante a melómano.  Ela sorriu. E eu sorri com ela. Sorri tanto que tive vontade de enganá-la. Tive tanta vontade de enganá-la como teve ela vontade de ser enganada. O Zach vem aí, sabias? Vem aí com a sua pandilha para tocar para nós. A sério? Perguntou-me ela, fingindo acreditar. Claro que vem, e ainda mal tinha eu começado a mentir e já se faziam ouvir os primeiros acordes do Elephant Gun. E não é que, de tanto fingirmos acreditar, acreditámos mesmo?

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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5 respostas a O meu amigo Zach

  1. manuel s. fonseca diz:

    Muito berm apresentado, Diogo. Pareceu-me um carnaval com laivos de pouca esperança. Gostei bastante e vou ouvir mais.

  2. Diogo Leote diz:

    Falaste em pouca esperança, Manuel? Também me pareceu que a praia onde ele vai dar antes de morrer fica pelas nossas bandas. O que nos vale é que somos gente triste e convivemos bem com a falta de esperança.

  3. Diogo Leote diz:

    Nós só não coincidimos na Lana, menina Eugénia. E, mesmo aí, tenho dúvidas que a discordância se mantenha por muito tempo…

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Foi o meu filho que me apresentou Beirut, já tenho no carro em ‘juke box’.
    Muito bom!

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