O Tesouro escondido de Andrew Wyeth

Numa bela manhã invernosa, mas limpa, o coleccionador americano de arte Leonard Andrews, decidiu viajar até uma bem cuidada e charmosa propriedade que remontava ao século XVIII. Sem saber, caminhava ao encontro de um dos mais importantes episódios da sua vida (que tinha incluído a passagem por duas guerras). A referida propriedade, situada no estado da Pensilvânia, pertencia à conhecida família de pintores, os Wyeths.

Leonard tinha um grande respeito por Andrew Wyeth, um dos mais influentes pintores figurativos americanos do ultimo século, e até já tinha adquirido algumas peças ao artista. Andrew era um dos filhos do ilustrador e também pintor Newall Convers Wyeth, homem possuidor de uma vasta e ecléctica cultura, e um grande apreciador de Edward hopper e de Thomas Eakins. Andrew cresceu a olhar a colecção de gravuras de Durer que o pai coleccionava, ou a rever cópias das pinturas de Hopper e Wislow Hommer, que enchiam a casa.
A sua saúde precária obrigou a extensas temporadas em casa com o pai, onde aprendeu desde cedo a arte do desenho, a carvão, a tinta da China, com pincel seco, em aguarela.A sua pintura ficaria para sempre marcada pela exímia qualidade do seu desenho.
Voltando à nossa história, Andrew e a sua mulher Betsy tinham falado a Leonard, dizendo que gostariam que este viesse conhecer uma colecção particular, pintada por Andrew, que ainda ninguém, para além do casal, tinha visto.
Nessa manhã de Março, no ano de 1986, acabado de chegar à quinta/atelier dos Wyeths, Leonard não podia de forma alguma prever o que o esperava.
O casal, ao recebê-lo, logo aconselhou Leonard para que fosse, sozinho, ao enorme celeiro que servia como atelier de Andrew, e ver sem qualquer pressão do próprio autor e da sua mulher, a dita colecção, sobre a qual não revelaram mais nenhuma informação.
Leonard descreve sucintamente a cena, num texto posterior, mas imagino-o a caminhar sozinho para o celeiro, curioso mas ainda sem poder quantificar o desconhecido, a subir uma pequena escada de degraus em madeira, e finalmente a empurrar a porta enorme da entrada. Ainda com os olhos ofuscados pela luz do sol exterior, avança na penumbra até ao grande espaço aberto interior.
O que viu nunca mais esqueceu: o espaço estava repleto de pinturas, desenhos, gravuras e esquissos. Encostados às paredes, pendurados nas vigas de madeira, arrumados em pilhas, sobre mesas lisas, inclinados sobre cavaletes. Leonard passou as duas horas seguintes embrenhado naquela espantosa descoberta, levantando pinturas a óleo, seleccionando gravuras, apreciando aguarelas. Ao todo a colecção incluía 240 trabalhos!
Mas o que impressiou Leonard era que todos eles tinham como tema um único modelo: Helga, uma empregada de uma quinta vizinha que Andrew havia contratado para os seus esboços e estudos. Mais impressionado ficou quando entendeu, pela explicação do próprio pintor, qual tinha sido a duração do projecto: quinze anos! Quinze anos a pintar a mesmo pessoa, e em total segredo. De 1970 a 1985, Andrew Wyeth desenhou continuamente o seu modelo, de dia, de noite, nas paisagens exteriores abertas, no calor de um pequeno quarto. Acordada e a dormir, com roupa e despida. No verão e no inverno.

O resultado é um projecto extarordináriamente singular. Possui a força das naturezas mortas de Morandi, que se repetem umas atrás das outras, fazendo notar pequenas diferenças antes despercebidas. Ou os desenhos repetitivos que Matisse, já velho, fazia, colocando um bloco de folhas brancas nos joelhos e desenhando folha após folha, sem nunca voltar a trás. O trabalho revela um artista que se repete para se testar, que não se satisfaz, qual actor de teatro que decora a sua deixa ao ponto de não se lembrar de mais nada.

Não se deixem convencer pelos textos que se publicaram sobre os contornos da relação entre Andrew e Helga (que aliás não passou de uma relação de trabalho…) Não se deixem desiludir por um ou outro desenho que pode parecer um pouco controlado demais, talvez ainda influência do pai ilustrador. Se possível vejam a totalidade da colecção (está publicado o catálogo). Em última instãncia podem ir ao Thyssen a Madrid que tem pelo menos um Wyeth em exposição.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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14 respostas a O Tesouro escondido de Andrew Wyeth

  1. manuel s. fonseca diz:

    Bernardo, nua e vestida, acordada e a dormir, 15 anos de Verão e de Inverno? Ó meu rico e esquecido Deus, não seria melhor que todas as relações fossem de trabalho?!

    • Rita V diz:

      estava a responder ao Bernardo quando plim, o comentário do Manel passou à frente, esvoaçando as estações do ano em que Helga se dispôs a vestir, despir, posar para a posteridade.

      • Bernardo Vaz Pinto diz:

        Rita não se esqueça que tudo se fazia pelo amor à arte, não ao modelo….(pois pois pois …) Foi isso que aprendi nas primeiras aulas de desenho com modelo…

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Manuel a dificuldade é essa: ele dizia que era só trabalho mas ela…ou a versão que era ela que só o fazia pela necessidade…mas tudo se resume a isso não é? necessidade e prazer…fica para próximas discussões…

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      OOOPs Manuel parece que respondi no lugar errado….

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Claro que sim ! para o lado mais maldoso lembro aquela frase do Stravinsky “Vivaldi ? Sim, sim um grande compositor: escreveu um fabuloso concerto e depois repetiu-o 400 vezes…” Mas concordo, a sério. Acho possível que o artista trabalhe quase sempre numa direcção que em muitos casos pode ser idêntica e repetitiva, mas que se centrando na verdadeira essência do seu trabalho.

  3. Paula Ferreira diz:

    E também se passa o mesmo com os filmes. Bergman, Woody Allen, não tratam sempre do mesmo tema nos seus diferentes filmes? Obrigado Bernardo, acaba de me dar uma razão para ir a Madrid…

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Olá Paula, pensei que lhe tinha respondido, mas pelos vistos o pc pregou-me uma partida. Obrigado pelo comentário e claro que sim também o Bergman e o Allen sempre trataram de temas que atravessam toda a obra, mas neste caso o tema e o objecto é sempre o mesmo. Em Madrid veja o Wyeth e penso que na mesma sala um Hopper e um Balthus que são um assombro.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    belo texto sobre tema pinçado a dedo. esses seus textos, bernardo, tem uma calma conduzida que nos leva ao ponto com tranquilidade e bom táxi. a relação entre o singular e o múltiplo pode, de fato, ser explorado de diversos modos. anos a pintar uma mulher que obviamente não é a mesma de um para outro quadro ou esboço. e interessante, convidativa mesma, a figuratividade, quando hoje tudo é abstração e/ou instalações.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Caro Ruy, obrigado pelas suas palavras que leio sempre com genuíno gosto. escrever e triste mas tem destas compensações…

  5. maria poppe diz:

    gostei muito do texto BVP, assim como tenho gostado de todos os outros… este uma espécie de escrita policial que nos deixa em suspense até ao desenlace “Helga”; descobri Wyeth através de um livro de Clarice Lispector editado pela Relógio D´Água; um encontro feliz, Christina´s World e Perto do Coração Selvagem”; não fora o pormaior de terem atribuído o quadro a Edward Hopper…; deixo-te aqui um excerto de uma carta do pai de Wyeth dirigida ao filho em 1944, que descobri na wikipédia: “”The great men [ Thoreau, Goethe, Emerson, Tolstoy] forever radiate a sharp sense of that profound requirement of an artist, to fully understand that consequences of what he creates are unimportant. Let the motive for action be in the action itself and not in the event. I know from my own experience that when I create with any degree of strength and beauty I have no thought of consequences. Anyone who creates for effect — to score a hit — does not know what he is missing!”, Obrigada!

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Maria, obrigado! Vindo desse lado tem um sabor doce…e que bela carta que não conhecia. Uma lição clara e directa sobre o papel do artista, muito no sentido que eu penso que faz sentido :” Let the motive of action be in the action itself”, e vêmos o mundo todo a pensar nas consequencias e nos resultados… Lembro-me sempre do Bergmann que escreveu “a verdadeira arte não pode estar separada da adoração (worship no original)…é um pouco isso.

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