Onda Curta

Sonho.

Que são os pombos a dar o sinal. O sinal de que sob o sol branco desta manhã de Inverno é outra vez, como uma vez, há muito tempo, uma onda gigante que lá vem e que desta vez chega do sul, do lado baixo e quente do mundo, lá da parte dos Brasis. E que é de uma geometria perfeita e singular, um degrau ascendente de vinte metros, uma interrupção de continuidade, transparente e cristalina que ruge como um comboio feito de água salgada saído de um horizonte azul, daqueles que só esta cidade sabe usar. E que a onda primeiro se esmaga contra as marinas de Oeiras e Caxias para depois desviar o seu curso e acompanhar o rio a entrar na barra. Sonho que ali, entre o norte de Belém e o sul de Porto Brandão, onde o mar se afunila e o Tejo começa, esta se enrola e cresce e se multiplica em alturas e no meu sonho vejo-a tão nítida e reluzente que parece passar rés-vés ao tabuleiro da ponte, precedida apenas pela vertigem da sua sombra que atrevida vai lá cima lamber os pés a um atónito e impotente Cristo Rei.

Sonho-a a varrer a 24 de Julho e a doca de Santo Amaro e logo a seguir a do Conde de Óbidos. E agora a inundar a praça de Dom Luís e a levar consigo, inteirinho, o Mercado da Ribeira, só para o dilacerar mais à frente de encontro à Igreja de São Paulo e para depois entrar, sem maneiras, pelo Cais do Sodré adentro e tentar subir as pendências das Flores e do Alecrim. E é já negra e cheia de coisas humanas e árvores e mármores e também altares e animais e santos e santas que em vão nadam e rezam e rogam pragas aos céus, que a vejo agora a entrar altíssima na Praça do Comércio enchendo-lhe até aos capitéis as colunas que mantêm de pé os seus passos. E que de seguida sobe, grossa e escura como uma enxurrada confusa e vertiginosa, as Ruas do Ouro, Augusta e da Prata, levando consigo um Tejo zangado em direcção a um Rossio que cheio de sol, na sua inocência, se prepara para almoçar. E a cavalo na crista da sua espuma dançando, leva também um Dom José que, no verdete da sua tez, comanda a esperança de voltar a ver, uma vez mais, lá de cima, a sua Lisboa e de encontrar, quem sabe a força da vaga o permita, o seu querido e temido Marquês.

Mas no sonho, a avenida, que é agora da Liberdade, é resiliente na sua largueza e ainda mais sólida na idade dos seus plátanos. E a onda, essa, ao sair dos Restauradores, negra de galhardia, espumosa como um cão com raiva, começa finalmente a perder o seu ímpeto e acaba por vir morrer às portas do velho Tivoli. Quando finalmente as águas e tudo o resto que nelas se fundiu se recolhem lá bem para o fundo do Mar da Palha, vejo que o nosso velho e cansado rei verde ali ficou, à altura do Parque Mayer, tristemente apoiado contra o mármore dos caídos da grande guerra sem ter conseguido chegar à fala com o Marquês, esse que, lá do alto e sem ânsias, mantém de pé o sonho que é Lisboa. A cidade está agora nua e ajoelhada aos meus pés, completamente à mercê do meu sonho. Arqueja extenuada. É lindíssima na sua nova e imaculada transparência. No ar ficou só um silencio calmo e fresco. Dir-se-ia que com o olhar firme um no outro, recuperamos ambos o fôlego para um novo início. Para um começo que finalmente a faça entrar comigo e sem medo, num século que para ela, de novo e até aqui, se mostrou vazio de esperança e de graça. E quando os pombos pousam de novo sobre o seu corpo esguio, puro e luminoso, o que sinto por ela é só amor. Um amor imenso, tão grande e tão bom.

Fotografia: Lisbon 2006 by Misterkey

Horizonte Azul: Agarrado ao azul by Pedro Bidarra, aqui

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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15 respostas a Onda Curta

  1. Diogo Leote diz:

    E que, quando a última espuma da onda deixar a descoberto uma Lisboa ainda mais bela, fiquem apenas os artistas e os filósofos.

  2. manuel s. fonseca diz:

    Uma vaga de fundo: o mais harmónico maremoto que já ouvi contar.

  3. Sofia roque diz:

    Gostei muito de ler sobre esta tua lisboa, soube me melhor ainda por estar tao longe dela. Obrigada vasco.

  4. Teresa Conceição diz:

    Que bonito, Vasco.
    Bonito sobretudo quando se acaba de ler e a cidade sobrevive, porque antes disse que sufoco.
    E uf!, ainda bem que o pesadelo afinal era só um sonho de D. José. Que afinal era uma declaração de amor, tempestuosa como só as grandes.

    • Vasco Grilo diz:

      Toda esta escrita para acabar num dia novinho em folha, feito de alagamentos e reflexos e de galochas nos pés ainda por salpicar.
      Afinal afinal já estava tudo dito por ti com muito maior simplicidade…
      bj

  5. Rita V diz:

    Foi tão bom ir nesta onda

    • Vasco Grilo diz:

      Ainda bem que gostou Rita. É um meu sonho recorrente. Lembro-me que em 1755 estava a amanhar peixe no mercado da ribeira quando a primeira onda aqui bateu na costa…

  6. Vasco Grilo diz:

    Somos já dois, pois então…

  7. Rita V diz:

    … parece-me que ainda o estou a a ver, a enxaguar o peixe com água fria e depois, a esfregar as mãos com limão …

  8. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Se a onda fosse como a descrição , então Lisboa seria lavada num belo “banho por dentro” …como dizia o Eça.

  9. Pedro Bidarra diz:

    É esperar que ela vem. A onda. Mais cedo ou mais tarde.

  10. Alberto Perry diz:

    Uma verdadeira onda de “Vasconamara!”, oxalá quando ela vier todos nós tenhamos uma prancha para te acompanhar.

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