Os Meus Melhores de 2011

Aqui vão, sem ordem particular de grandeza (os melhores filmes que vi, ou revi, em 2010/2011 mas que não são deste ano surgem para a semana).

Jane Eyre

 JANE EYRE – Cary Fukunaga

Há versões do clássico de Charlotte Bronte desde os tempos do cinema mudo. Esta é a melhor, dirigida por um californiano de 34 anos. De uma austeridade húmida – sentem-se o cheiro da erva, a frescura dos lençóis, a roupa aquecida junto à lareira, os armários bafientos, o óleo das lamparinas, o manto da tristeza – é a história de dois proscritos, ramos de árvore que se entrelaçam para a chuva não os levar. Com Mia Wasikowska e o grande Michael Fassbender.

 GAME OF THRONES – criada por David Benioff

A grande série do ano e tudo aquilo que a trilogia “O Senhor dos Anéis” não conseguiu ser. O final da primeira temporada é um dos melhores epílogos da história da televisão.

 MARGIN CALL – J. C. Chandor

O filme de estreia de Chandor (depois de vários adiamentos, estreia este mês em Portugal) é, até agora, o trabalho cinematográfico que mais fielmente retrata o início da crise financeira global de 2008. São 24 horas na vida de uma mega-empresa do “mercado de capitais”, num cinismo sem contemplações. Com um Jeremy Irons de sacanice shakespeariana.

 HADJEWICH – Bruno Dumont

A fronteira complexa entre fé e fanatismo por um dos melhores – e mais radicais – cineastas europeus.

 BRIDESMAIDS – Paul Feig

Uma comédia escatológica, ridícula, parva. E absolutamente hilariante.

 CERTIFIED COPY – Abbas Kiarostami

A arte da simplicidade de Kiarostami na Toscana dos postais turísticos.

 KASI AZ GORBEHAYE IRANI KHABAR NADAREH (No One Knows About Persian Cats) – Bahman Ghobadi

Um contagiante manifesto pela liberdade, através dos esforços duma nova geração de iranianos para compor e tocar a música de que gosta (pop, rock, techno, reggae, hip-hop, há de tudo). Filmado clandestinamente, dá vontade de apanhar o próximo voo para Teerão e ajudá-los a transportar as guitarras.

 DOWNTON ABBEY – Julian Fellowes

Tudo o que a televisão britânica tem de melhor: escrita, actores, direcção artística, rigor histórico e um impecável sentido de decência.

 LOURDES – Jessica Hausner

A indústria dos milagres num filme frio sobre o egoísmo.

 MARTHA MARCY MAY MARLENE – Sean Durkin

A fragilidade emocional de um grupo de mulheres ao serviço de um manipulador fundamentalista (o subestimado John Hawkes). Outra estreia impressionante, a de Durkin.

 MILDRED PIERCE – Todd Haynes

Muito diferente da versão de 1945 por Michael Curtiz, é um tríptico melodramático de primeira água que revisita Douglas Sirk, John M. Stahl e Mitchell Leisen sem copiar nenhum deles.

 THE INFORMERS – Gregor Jordan

O primeiro filme a fazer justiça ao niilismo cruel de Brett Easton Ellis.

 KYNODONTAS (Dogtooth) – Giorgos Lanthimos

Um dos chefes de fila da nova fornada grega (“Attenberg” está prestes a estrear) numa parábola familiar de gelar o sangue.

 ROUTE IRISH – Ken Loach

O regresso à boa forma de um dos pais do “realismo social” e um lúcido “post it” aos desvarios da ocupação anglo-americana do Iraque.

 THE GOOD HEART – Dagur Kári

Por um islandês educado na América, um conto picaresco sobre dois desgraçados – um barman às portas da morte (Brian Cox) e um jovem mendigo (Paul Dano) – que se transforma num festival de estilos opostos de representação. Faz lembrar Hal Ashby.

 DRIVE – Nicolas Winding Refn

O melhor filme do ano por um furioso dinamarquês que encontrou o seu estilo: a fábula.

 ESSENTIAL KILLING – Jerzy Skolimowski

Sem diálogos, uma odisseia cinética por um dos grandes realizadores criados nos anos 60.

 INCENDIES – Dennis Villeneuve

Violento, vibrante, fiel às raízes – milenares – do melodrama, é um lamento polifónico ao caos do Médio Oriente. Tem uma actriz extraordinária, Lubna Azabal.

 THE ADJUSTMENT BUREAU – George Nolfi

Visto e revisto, tem, apesar dos clichés, um encanto capriano que fica, e o mais capriano dos actores contemporâneos: Matt Damon.

 13 ASSASSINS – Takashi Miike

Uma homenagem dura e estilizada aos filmes de samurais pelo mais prolífico (e eclético, e louco) dos realizadores japoneses.

 PINA – Wim Wenders

O primeiro filme que me fez acreditar no 3-D. Belo como uma discussão de amor.

 THE WAY BACK – Peter Weir

De algumas concessões fáceis nas personagens, com um final decepcionante, volta a demonstrar a capacidade única de Weir, desde “Picnic at Hanging Rock”, em fundir paisagens físicas e humanas. A travessia do deserto de Góbi e a morte de Saoirse O’Ronan não se esquecem.

 BLUE VALENTINE – Derek Cianfrance

Um elogio, e uma elegia, fúnebre ao casamento pela voz dos líderes da nova geração de actores americanos: Ryan Gosling e Michelle Williams.

 CAVE OF FORGOTTEN DREAMS – Werner Herzog

O segundo filme do ano que me fez acreditar no 3-D. Viagem no coração da criatividade humana, é um tour guiado às pinturas rupestres de Chauvet, no sul de França, pelo mais apaixonante e apaixonado dos documentaristas, superior às incursões ficcionais (parece que o novo de Herzog, “Into the Abyss”, sobre a pena de morte, é outro triunfo).

 TINKER, TAYLOR, SOLDIER, SPY – Tomas Alfredson

Ao lado de “The Spy Who Came in From the Cold” (Martin Ritt, 1965), é a mais fiel reprodução em cinema do universo de John Le Carré, pelo autor de “Let the Right one in”. A Guerra Fria como um perpétuo jogo de xadrez numa câmara frigorífica.

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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13 respostas a Os Meus Melhores de 2011

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Vai ser este ano que vou ao cinema… (com o Chandor e o Werzog na mira)

  2. Vasco diz:

    Pedro, ansiava à dias por esta lista. Thanks! Vi o Margin call e confirmo um Jeremy Irons de arrepiar a espinha.

    Forte Abraço

    PS: Fico à espera dos teus comentários à Vergonha do McQueen.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Pedro fico com a duvida se o cinema pode vir a ser o “ópio” dos pobres, agora que alguns de nós contam os tostões com as duas mãos ( outros andam a contá-los já há muito!!), e espera-se que ainda haja uns euritos para nos podermos fechar na sedutora “caixa negra”. Em qualquer caso obrigado pela lista que me obriga a reconhecer que deixo passar tanto ao lado…” num cinema perto de mim…”

  4. Não consegui ver este Jane Eyre e bem me parecia que tinha razões para andar a lamentá-lo.
    Também me consta que o último O Monte dos Vendavais, de Andrea Arnold, não é de se perder.
    As manas Brontë dão muito bom cinema.

  5. Pedro Marta Santos diz:

    Um abraço aos companheiros de escuridão. Ivone, espero que goste deste “Jane Eyre”. Também já ouvi muito bem de “O Monte dos Vendavais” da Arnold, que é uma realizadora mais do que estimável (tanto “Red Road” como “Fish Tank”, que penso não terem estreado em Portugal, são fitas de respeito, verdadeiros manuais de sexo para crimes banais). Cumprimentos para si.

  6. Pedro Marta Santos diz:

    Olá, Eugénia. Gosto muito que tenha gostado deste “Jane Eyre” (está a ver a sensação de, quando se gosta muito de um filme, ou de um livro, ele parecer ter sido co-assinado por nós, tornando-se nosso? É um auto-hipnotismo reconfortante). Acho que não se vai decepcionar com o “Tinker, Taylor”. E, de facto, o “The Spy Who Came in from the Cold” é uma categoria. Se fosse a si, do Ritt, comprava o “Sounder” e o “Conrack” (este é dos meus preferidos de sempre). Acho que lhe iam oferecer boas memórias.

  7. Ana Rita Seabra diz:

    Faltam-me ver alguns que falhei, mas agora que constam nesta lista vou ver com certeza!
    Obrigado!

  8. Pedro Marta Santos diz:

    Olá, Ana Rita. Se fosse a si, começava pelo “Certified Copy”, Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

  9. Ana Rita Seabra diz:

    Fui com o Bernardo ver o filme! Eu gostei, mas ele ia esganando a Juliette!!!!!!
    Ainda ontem falámos desse filme…
    Adorei o Pina, Drive e ESSENTIAL KILLING !
    Quanto ao Pina, concordo plenamente com o seu comentário! Finalmente o 3D convenceu-me!
    Obrg

  10. Rita V diz:

    A lista encostou-me à parede, espalmou-me contra o espaldar. Tentei fugir, mesmo escalar, mas as ripas por cada filme apertavam-me mais … mais… e mais!
    Por fim … desisti, esmagada com o peso de todos os filmes que não vi … ainda.
    Obrigada Pedro

  11. manuel s. fonseca diz:

    Pela razão que tens em Drive deves ter razão em todos os outros que, hélàs, não vi. Mas ainda vou ver o Tinker… agora com mais confiança.

  12. Diogo Leote diz:

    Nãi nem meia dúzia dos teus 25 mas vou ter debaixo de olho tudos os que me faltam (que julgo ainda não estrearam em Portugal, salvo uma ou outra excepção). Vejo que ainda não fizeste as pazes com o Von Trier. E que não morres de amor pelo Van Sant.

  13. Pedro Marta Santos diz:

    Espero que tenha um 2012 cheio de filmes, Rita. Acho que te vais dar bem com o Tinker, Manel. E gostava muito de saber a tua opinião sobre o Hadjewich. Diogo, o único da lista que ainda não estreou em Portugal é o “Margin Call” (está previsto para daqui a 15 dias). Sou um fã antigo do von Trier, desde o “The Element of Crime” – até das curtas gosto – mas achei este “Melancolia” uma melancólica banalidade, e o homem anda demasiado deprimido e pessimista para o meu gosto, confesso. E acho o van Sant um dos melhores, e mais importantes – já te contei que eu e a Alexandra jantámos uma vez com ele e com o namorado, um aspirante a silver surfer que mal tinha idade para fazer a barba? – mas achei este último uma grande decepção. Ab

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