Os punhos dos poetas

Sempre me encanitou ligeiramente a ideia de fazer da poesia uma coisa delicada.

Poetas e escritores que não eram, e talvez não sejam, de meias medidas, sempre os houve em todos os tempos. Por vezes, foram mesmo de bater forte e feio. Não se admirem se debaixo de um verso vos saltar um carroceiro. O poeta e dramaturgo Ben Johnson matou um actor num duelo, embora um tribunal compreensivo o tenha condenado só brandamente. Camões espadeirou o arreeiero da casa real, rachando-lhe a cabeça: atiraram-no para o Tronco fedorento e de lá só saiu com perdão real e obrigação de partir para a Índia.

Antes deles, já o poeta francês François Villon criara uma lenda de aventura e opróbrio, começando por matar um padre que com ele rivalizava mais num negócio de saias do que em versos.

William Burroughs matou a mulher quando os dois, embriagados diz-se, se entretinham num perigoso jogo de William Tell.

Jean Genet, o autor de Querelle de Brest, filho de uma jovem prostituta e criado em reformatórios, alistou-se na Legião Estrangeira de onde foi expulso por comportamento obsceno. Genet era tudo menos um menino de coro, mas mesmo o sensato Paul Verlaine deu dois tiros a Jean-Arthur Rimbaud antes de se converter ao catolicismo.

Será que vale a pena invocar os punhos de pugilistas de Ezra Pound ou de Ernest Hemingway? Talvez baste lembrar os de Norman Mailer quando, numa das suas homéricas discussões com Gore Vidal, não resistiu e o esmurrou violentamente. Estatelado, e provavelmente de lábio rachado, Vidal teve suficiente presença de espírito para dizer o essencial: “Norman, como sempre, faltam-te as palavras.”

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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7 respostas a Os punhos dos poetas

  1. manuel s. fonseca diz:

    Mais elática do que a menina não pode haver que quase mandou o comentário antes que os poetas lhe mostrassem as habilidades circenses.

  2. Quem sente, arrebatadoramente. Quem se empolga, se insurge, quem se transcende por incapacidade de gerir o que sente…explode. Da mesma forma que uma paixão nunca é branda, um apaixonado dificilmente consegue ser contido ou sequer ponderado. Seria a idiossincrasia improvável…
    A escrita é um purgatório onde é possível (quando o engenho o consente) expurgar, com a menor das violências, o excedente do que se sente.
    A poesia, que é esculpida por todos os sentimentos que a prosa insiste em ocultar…revela o mundo das sombras. Os gritos, as raivas e os murros que não se conseguem evitar.
    Se na prosa podemos encontrar a calmaria do mar, na poesia: a tempestade. No poeta: um qualquer Adamastor.

  3. teresa conceição diz:

    Grande desfecho para um belo texto. Fiquei k.o.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    A criação tem toda ela a semente de uma certa violência não é? Há uma “dor de parto” em tudo o que sai do interior do Homem para o mundo cá fora.E o texto com este ritmo marcado, o ritmo de um combate de boxe…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Bernardo, gosto de fazer listas. No fundo este post é só uma lista muito incompleta que gostei de embrulhar assim.

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