Oslo, 31 de Agosto

Veio da Noruega este “It´s a Wonderful Life” dos tempos modernos. Tal como o George Bailey de Capra, Anders enfrenta um drama na sua vida. Um drama igual ao de muitos milhões de pessoas pelo mundo fora. E, no dia 31 de Agosto, tem uma oportunidade para se reconciliar com a vida. Será esse o primeiro dia do resto da sua vida? Ou, antes, serão já as 24 horas finais de um “dead man walking”?

O admirável “Oslo, 31 de Agosto”, do norueguês Joachim Trier, é a história de uma escolha. A escolha entre viver ou morrer, tomada no espaço de 24 horas. Tal como George, Anders é forçado a olhar para o passado. Mas, se o passado de George o leva a um futuro que sem ele não pode passar, Anders parece não ter razões para acreditar. Parece não ter passado. Ou ter um passado cheio de promessas que ficaram por concretizar. E os anjos, esses, já não são o que eram. Na escolha entre a morte e a vida, os próprios anjos se retraem, quando da vida pouco mais se pode esperar do que um imenso tédio.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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12 respostas a Oslo, 31 de Agosto

  1. Ruy Vasconcelos diz:

    vou assistir, diogo. é bom viver filmes sobre a única escolha que fazemos a cada segundo. mas antes, escuto a lana del rey e leio o pornopopeia

    • Diogo Leote diz:

      Ruy, em prol da escolha certa, talvez não seja mau inverter a ordem, de forma a acabar a celebrar a vida com a Lana del Rey…

  2. teresa conceição diz:

    Diogo,
    é um filme a ver.
    E o trailer ficou muito melhorado com as suas palavras.
    FELIZ ANO NOVO!

  3. O Eco de Umberto diz:

    Defitivamente, há qualquer coisa avariada na Noruega.

    • Diogo Leote diz:

      E a verdade é que este é Anders como o outro. Mas pelo menos só fez mal a ele próprio. E a nós, até ver, só nos faz bem vê-lo a interpretar de forma magistral o “mal de vivre” norueguês.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Estou muito curioso, o texto não se deixou revelar, mostrou só a ponta da saia…calculo que só na net ou Amazon ?

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, vi o filme no Estoril Film Festival em Novembro. Sendo o festival organizado pelo Paulo Branco, como sabes, julgo que vai acabar por estrear comercialmente em Portugal. Seria um crime se tal não acontecesse. Provavelmente, ainda não está disponível na Amazon.

  5. Pedro Marta Santos diz:

    Tenho que ver isto, Diogo. Um abraço pela dica.

    • Diogo Leote diz:

      Pedro, nunca imaginei que pudesse algum dia dar-te uma dica em matéria de cinema. Só isso já justificou ter visto este magnífico filme, que muito poucos viram ainda em Portugal. Tenho a certeza que vais gostar. Um abraço.

  6. manuel s. fonseca diz:

    Não vi, nem sabia: mas já lhe cheirei a Angst…

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, ali em cima usei “mal de vivre”, mas a palavra certa, depois de ver o filme, é mesmo “Angst”. Atenção que se pega a quem o vê.

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