Quando Morre a Divindade

 

A Confeitaria Colombo, emblema do Rio Belle-Époque

 

Francisco de Paula Ney era figura carimbada nos círculos boêmios cariocas ao tempo de João do Rio, Emílio de Menezes, Olavo Bilac, do grande Lima Barreto. Sua presença de espírito era assunto de antologia. Jornalista, também escreveu versos. Mas ninguém lembra dele por isso. Ou talvez, mas sem querer. Indiretamente. É que um vestígio perto de imperceptível de soneto vive muito ao lado da gente. Paula Ney é o autor do mais célebre – e improvável – aposto à Fortaleza: “a loira desposada do sol”. 

Em 2012, Paula Ney acerca a inexistência. Tirante o professor Sânzio de Azevedo, um ou outro erudito por dever de ofício, ninguém mais o lê. Mas há a expressão – que todo mundo adora, e está nos lábios dos fortalezenses. Hoje mesmo, milhares deles vão lançar mão dela. Principalmente depois da terceira dose – quanto tudo é sentimentalismo e peixe à delícia. De resto, é tudo que sabemos – quando sabemos – de Paula Ney. E também mal podia antecipar Paula Ney que um século depois de haver escrito mais um soneto aparnasianado, uma prefeita loura – mas não propriamente desposada do sol – iria usar e abusar da expressão em eventos públicos.

Difícil explicar o porquê dessa loura desposada – e logo de quem – fazer tanto sucesso. Talvez por estar disponível, vá saber. Casar com o sol não requer juiz de paz. Não é casar com o próximo, bem entendido. Ou quem sabe, disponível, mas também bronzeada como manda o figurino. Embora se estivesse casada com o Pedro, o Nogueira, o Luís ou o juiz de paz, não estaria menos. Bronzeada, fique claro. E há por igual o fato de a metáfora para uma cerveja gelada ser uma loura, e vivermos debaixo de um sol de rachar. E não é tremenda, deselegante injustiça associar as louras àquele maldoso clichê que envolve testes de QI?

Por outro lado é de admirar que o politicamente correto ainda não haja reivindicado a cabeça do aposto em nome das ruivas, das morenas, das afro-brasileiras, das judias, das teuto-sulamericanas, das ítalo-brasileiras, das albinas, das sírio-libanesas, das descendentes dos povos indígenas, das polacas, das nisseis, das que assoviam mascando chicletes, das que que trazem aquele meio centímetro de queixinho dividido, das que implantaram botox, das que guiam cabriolés… Manuel Bandeira foi mais direto ao ponto quando disse que as “mulheres são lindas, inútil pensar que é do vestido”.

Mas, então, contam de Paula Ney que a sua – que não se sabe ao certo se era loura – saiu-lhe ao encalço e antecipando em meio-século a canção de Vanzolini. É Sexta-Feira da Paixão e estamos naquele Rio de Janeiro Belle-Époque. Pode-se ver o filme. A trama é universal, claro. E, aqui, todo homem tem a Penélope que merece. A de Paula Ney, por fim, encontra-o no boteco – que bem podia se chamar Bar da Circe – entre amigos, amigas, pandeiros, tangos, fandangos.

Resignado, ele então ergue-se, um pouco trôpego. E ela:

Chico, até no dia em que o Senhor morreu!

E ele:

Querida, veja, quando morre a Divindade, a humanidade cambaleia.

* * *

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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9 respostas a Quando Morre a Divindade

  1. Rita V diz:

    …diacho!
    Não é que me lembrei do Bocage?

    • Ruy Vasconcelos diz:

      dá mesmo de lembrar, rita? mas no caso do nosso manuel maria, o buraco é mais embaixo. hehehe! grato por suas tão prontas leituras.!

  2. manuel s. fonseca diz:

    E eu lembrei-me do Nelson Rodrigues. Há uma arte da crónica, desse quase negligente discorrer sobre a urgente desimportâmcia dos dias, que é carioca de de cédula. O Ruy tem essa arte.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      “a urgente desimportância dos dias”. sim. a gente escreve uma crônica, e o melhor trecho dela é o comentário do manuel!

  3. Luciana diz:

    E eu lembrei-me…de voltar ao afetivagem e reler aleatoriamente narrativas envolventes 😉

    • Ruy Vasconcelos diz:

      e eu me lembrei que você deve estar partindo, moça. boa viagem! aproveite bastante. na volta lhe passo o cel e marcamos umas geladas no arlindo, combinado?

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Esta cantilena melódica de palavras que se casam e se trocam, passamos por elas como se fosse pela propria vida.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      bom, vindo de alguém que ouve bach, a gente vai dormir mais satisfeito.
      obrigado por simpatia e leitura, prezado bernardo,

      segue um abraço fraterno!

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