Retrato do artista enquanto vândalo

Tenho a certeza que o Manuel, com este, também não embirrará. O Manuel e, arrisco, todos os que estão do outro lado da barricada que divide a cidade ao meio. “Arte!!!” ou “vandalismo!!!”, assim mesmo com exclamações gritadas a plenos pulmões e interjeições impróprias para reprodução, é esta a dicotomia que separa quase até à morte os que louvam e os que vilipendiam o graffiti como forma de expressão. Como se não houvesse meio termo entre uma coisa e outra. Como se não houvesse bons e maus nos dois campos da batalha. Como se não houvesse quem tivesse já vindo ao mundo para separar o trigo do joio. Como se não houvesse quem tivesse feito já o suficiente para mostrar – mais lá fora do que cá dentro, como quase sempre acontece num país que ainda considera os artistas como parasitas da sociedade – que o graffiti pode ser uma maravilhosa declaração de amor à cidade.

Que venha, pelo menos, um momento de tréguas. Que se fume, por instantes, o cachimbo da paz. Por curtos que sejam os períodos de apaziguamento, que durem o tempo suficiente para uns e outros perceberem quão ilusória é a sua disputa. Chamem-lhe arte ou vandalismo, chamem o que quiserem ao que faz Alexandre Farto. Mas aqueles que quiserem ir por aí, não se deixem levar pelas evidências: uma parede vandalizada nem sempre é o que parece. Deixem o fogo extinguir-se, a poeira assentar, a névoa dissipar-se, o estrondo calar-se. E vejam, minutos volvidos, como uma nova cidade pode renascer das cinzas. E depois, ah depois, não se esqueçam de agradecer o favor que o Alexandre vos fez. Então, se lhe quiserem chamar nomes, basta que o tratem por Vhils. Será um sinal de que finalmente o reconhecem como artista.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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23 respostas a Retrato do artista enquanto vândalo

  1. Ana Rita Seabra diz:

    Diogo, gostei das explosões, dos estrondos e do resultado final.
    Não conhecia tal artista…
    bjs

    • Diogo Leote diz:

      Ana Rita, o Alexandre Farto, a.k.a. Vhils, apesar de pouco conhecido ainda em Portugal, já foi capa do Times e, lá fora, é um dos grandes nomes da arte urbana contemporânea. Ainda vamos ouvir falar muito dele, até porque tem apenas 24 anos.

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Diogo, eu sou um ignorante nisto de Graffitis e orelhas, mas parece-me bem mais do que Grafitti, parece uma inteligente forma de transformar superfícies…lembra o Gordon Matta-Clark que cortava edificios ao meio… Muito interessante!

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, é fácil de perceber que o Vhils (Alexandre Farto) está muitos passos em frente dos graffiters tradicionais (se é que se pode falar em tradição nesta forma de expressão). Porque o acompanhei por razões profissionais, sei que é um pioneiro no uso da pirotecnia na arte urbana (se o método fosse patenteável, seria ele o detentor da patente). E só tem 24 anos.

  3. Teresa Veloso diz:

    Há muito que acompanho o trabalho do Alexandre Farto aka Vhils
    http://alexandrefarto.com/
    http://veracortes.com/index.php?menu=artists&artist=1&section=work
    E este video é excelente, pelas explosões, pela fotografia do Vasco Viana e a pela música dos Orelha Negra. Todos de parabéns.

    • Diogo Leote diz:

      Cara Teresa, foi também através da minha amiga Vera Cortês que conheci o Alexandre Farto. E concordo plenamente consigo. É uma obra colectiva perfeita.

  4. teresa conceição diz:

    Belo texto, Diogo.
    E o vídeo acompanha na perfeição a obra do homem. Gosto disto.

  5. manuel s. fonseca diz:

    Diogo, sentei-me na fila da frente. Estou cheio de poeira. Um regalo.

    • Diogo Leote diz:

      E é pena que o Alexandre não nos dê o prazer de levarmos com a poeira em Lisboa. Anda sempre lá por fora.

  6. Pedro Norton diz:

    Eu quero continuar a embirrar com graffiti. assim não me facilitas a vida.

    • Diogo Leote diz:

      O truque é não o veres como um graffiter. Ou então terás de dar tréguas à tua embirração sempre que o Vhils aparecer com uma bomba.

  7. Manuel Dias diz:

    Como Avô que sou do Alexandre, fica-me talvez mal fazer qualquer apreciação, pelo menos expressá -la publicamente, mas estas minhas palavras servem sómente para salientar quanto me senti feliz ao ler o artigo escrito pelo Senhor Diogo Leoto, pois partilho da sua opinião.
    Nos meus tempos de correspondente do Jornal Diário de Lisboa; (vão decorridos já mais de 55 anos) tinha naquele jornal uma coluna que assinava como CANAL DA “CRÍTICA” (veja -se “crítica” entre aspas), e sempre substituía a mesma por OBSERVAR.
    E é isso que o Senhor Diogo Leoto faz em relação ao trabalho do Alexandre.
    Devemos ser críticos; – mas construtivos. É nosso dever aceitar a opinião dos outros, para que aceitem também a nossa…

    • Diogo Leote diz:

      Exm.º Senhor Manuel Dias,
      É com grande satisfação que recebo este seu comentário. Embora a obra do seu neto mereça muito mais do que as minhas modestas palavras, sinto ser minha obrigação divulgá-la na medida das minhas possibilidades. Quero que saiba que sou um grande admirador da obra do seu neto, que tenho o privilégio de conhecer pessoalmente e de acompanhar por razões profissionais. Como acontece com quase todos os grandes artistas que estão à frente do seu tempo, o Alexandre ainda não obteve cá dentro todo o reconhecimento que merece e que já tem lá fora, como bem sabe. Queira, por favor, se tiver oportunidade, transmitir ao Alexandre um grande abraço meu. Muitos parabéns pelo seu neto.

  8. Diogo Leote diz:

    Tinha notado, sim, Eugénia. Só não sabia quem tinha soprado tanto bom gosto à nossa Tia, se a Eugénia se o Manuel. Ainda bem que o fez. Já desde os tempos da outra senhora que pensava em trazê-lo à nossa casa. Mas só agora, com o post do Manual sobre a (não) embirração com o graffiti, chegou o momento certo. Tenho o privilégio de conhecer o Alexandre pessoalmente e de o acompanhar profissionalmente.

    • Diogo Leote diz:

      Eugénia, estou convencido de que muito se irá ainda escrever sobre o Alexandre. E já não precisaremos de andar por aí a mostrá-lo em todo o lado.

  9. Manuel Dias diz:

    Senhor Leoto
    Não posso deixar de lhe agradecer as palavras amáveis com que me respondeu, e creia, que sinto pelo meu neto Alexandre (assim como pelos meus outros 4 netos), o maior orgulho.
    Não seria preciso dize -lo aqui, pois eles sabem que assim é; mas e ainda que eles não necessitem já da pouca força de um “VELHO” AVÔ, não deixarei de estar na rectaguarda acompanhando os seus percursos de vida, que só peço que continuem a trilhar, como até aqui o têm feito, com o devido respeito pelo próximo, e trabalhando com honestidade e afinco.
    Quanto ás criticas, como já disse, temos de as saber aceitar com o devido respeito, para que possamos e tenhamos também o direito de as fazer.
    Quanto ao abraço que me pede transmita ao Alexandre, não deixarei de o fazer e com muito gosto, mas, como ele se encontra na China a preparar uma exposição individual na Galeria Magda, terei alguma dificuldade de o contactar, mas não esquecerei.
    Permita -me um abraço
    Manuel Dias

  10. Rui Ferreira diz:

    Já conhecia os Orelha Negra, de quem gosto bastante por sinal, mas desconhecia a obra do Alexandre Farto a.k.a Vhils, fiquei rendido.

    • Diogo Leote diz:

      Caríssimo Rui, é um prazer receber a sua visita. Ainda bem que gostou. Comigo, passou-se o contrário: já conhecia a obra do Alexandre Farto mas só ouvi falar dos Orelha Negra através deste video. E fiquei curioso em relação ao que irão fazer no futuro. A colaboração Vhils/Orelha Negra é um excelente exemplo da interdisciplinariedade nas artes. Apareça sempre. Um abraço.

  11. Rui Ferreira diz:

    Obrigado Diogo, passarei por aqui sempre que puder, tenho gostado de ler o que por aqui se escreve. Já agora permita-me uma sugestão relativamente a um nome importante da arte urbana contemporanêa e que também têm uma obra interessante, do pouco que eu conheço, chama-se Banksy http://www.banksy.co.uk/index.html, provavelmente já conhecerá, se ainda não conhecer dê uma vista de olhos. Um abraço.

    • Diogo Leote diz:

      Caro Rui, conheço alguma obra do Banksy, sim, embora nunca lhe tenha visto a cara nem saiba o seu verdadeiro nome, porque ele insiste em manter-se incógnito. O Alexandre deve-lhe até o impulso inicial na rota do reconhecimento internacional, porque foi num festival organizado pelo Banksy em Londres (o Cans Festival) que começou a dar nas vistas lá fora. Ainda não vi o filme/documentário sobre o Banksy (realizado pelo próprio), que em Portugal teve o título “Pinta a Parede”, mas quero vê-lo em breve em Dvd. Um abraço.

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