Sad Herald Tribune Vol.1 No.1 Winter 2012

Caro leitor, seguem três notícias insólitas, talvez tristes, das derradeiras voltas de 2011. Salte este post, se for sensível. [Mas se for em frente, favor, clique no nome dos sítios à direita, e leia as matérias na íntegra. Se não, pode ir para o raio que o parta da mesma forma. Ou melhor, para o raio-x que o parta].

i. Os churros de Santiago [BBC

Imagine-se a ler seu jornal favorito. De repente há na seção de culinária uma receita de churros. “Por que não?”, você diz. Afinal, todo mundo tem um dia para extrapolar nas calorias e cair de boca nas gorduras saturadas. Churros é boa combinação disto. Você se põe a fazer churros pela receita do jornal e, súbito, os churros começam a explodir feito bombas para lá de efeito moral. You sued the paper.

ii. As radiografias de Lérida [La Vanguardia]

Um calendário erótico é publicado no Japão. Até aí nada de mais. Calendários e fotos picantes estampam-se das paredes de borracharias e barbearias às páginas da Playboy passando por certos circuitos onde só a imaginação. A diferença é que hoje eles são confeccionados ao gosto de ambos os sexos e mais além. E de momento são até virtuais – o que lhes acrescenta certo impulso espiritual. O calendário japonês, no entanto, é de carne e osso. Ou melhor, é impresso. E um tanto criativo. As modelos são apresentadas em imagens radiográficas. Alguma investigação, algumas lupas após, outras tantas salas enfumaçadas, e descobre-se que as tais “radiografias eróticas” foram feitas na Península Ibérica. Mais exatamente em um hospital de Leilla (Lérida), na Catalunha. E um diretor do hospital acusa as enfermeiras. (Ora, com a Espanha em crise, esse tal diretor vai implicar logo com as enfermeiras!) Convenhamos, se a Psicanálise reconhece sexo e morte entre os instintos mais básicos, as enfermeiras de Lérida – se é que foram elas – bem que ilustram o binômio in a very effective way.

 

iii. O consumidor lesado da Pennsylvania. [Daily Mirror]

Um sujeito de 63 anos, morador de Berlin, Pennsylvania – e aqui se pode lembrar da Paris texana e há também um Brazil, Indiana, além de uma infinidade de similares tranqueiras, a prova cabal de que somos mais criativos que os norte-americanos – pagou cerca de 300 esterlinas libras pelos serviços de duas prostitutas. Porém no meio da madrugada ligou para a polícia ressabiado e se disse lesado por ambas, pois elas se recusavam a devolver a quantia paga. É que as duas juntas eram um sol só, passavam o tempo todo entretidíssimas, entanto permitissem que ele ficasse sentado à beira da cama, assistindo. Ou pensando na morte da Bezerra, como se diz por aqui, e talvez se diga no Alentejo. Os três foram presos. A prostituição é ilegal na terra do glorioso William Penn. [A palavra usada na nota do jornal, hooker, é um dos infindáveis termos em inglês para prostituta. Assim como threesome responde, digamos, por um equivalente mais terra à terra em inglês – ah, o pragmatismo anglo-saxão! – para o que os franceses chamam  pomposa e filosoficamente de ménage à trois.] Oh, dear! Difícil, é fato, constatar se o sujeito foi mesmo lesado em seus direitos do consumidor, ou foi consumido por suas lesões voeyurísticas.


 

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Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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11 respostas a Sad Herald Tribune Vol.1 No.1 Winter 2012

  1. Luciana diz:

    Ruy, querido, eu já vinha elaborando um imenso comentário, mas parei no riso ao ler “pensando na morte da Bezerra” que me deu esta coceirinha chamada saudade, vou tratar de correr ao meu interior.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      bom, luciana, é um tanto inevitável que ao menos uma vez na vida a gente pense na morte de uma ou de uma manada de bezerras.

  2. teresa conceição diz:

    Ruy!
    Eu para já vou para o raio-x…e com todo o gosto, porque as fotos estão o máximo (e conheço vagamente algures alguém neste blog que vai apreciar ainda mais)
    Ainda só consegui ler completa a notícia dos churros, que é escaldante (mas uma delícia se não fossem os efeitos secundários da receita)
    Quando ler as outras, voltarei para mais bate-papo.

    E FELIZ ANO NOVO!

    • Ruy Vasconcelos diz:

      querida teresa, este narrador malcriado, apegado a velhos clichês, que coisa desagradável. e ainda insulta os leitores. não sou eu, viu?

      e espero que o(a) vagamente algures também aprecie.

      UM EXCELENTE 2012!
      com muitos êxitos , viagens e um pouquinho mais de tempo para nos brindar com seus esplêndidos textos e desenhos.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Churros explosivos não é colesterol, é mais combustível para fouguetes (versão individual).
    Agora aquilo do espanhol Mendia…, só mesmo um espanhol! Vê-se perfeitamente que são japonesas (diachos, tenho um primo Mendia… Será ele?!).
    E o trio, hein? Agora é que ninguém me tira da cabeça que os americanos são realmente burros por natureza!… (depois há uns que fogem ao destino, claro)
    Grande informação! É assim mesmo!

    • Ruy Vasconcelos diz:

      sim, vê-se nitidamente os olhos amendoados, incorrigível antónio. pronto, agora tenho certeza de que é o seu primo. e com essa escala de prioridades, mais um para a antesala do analista. indispensável informação, imprescindível. não mais, no entanto, que a sua sobre samoa, os meridianos.

  4. ~CC~ diz:

    Eu sugiro mesmo que escreva todo um noticiário 🙂 Seria sem dúvida mais interessante do que aqueles que temos visto nos últimos dias, repletos de balanços tristonhos e desencantados.
    ~CC~

  5. manuel s. fonseca diz:

    Ruy, sabe que mais? devia o meu amigo fundar um jornal, o jornal dos jornais. Ao pé destes seus exemplos toda a Imprensa me parece que anda só a pensar na morte da bezerra.

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    sad, sad thing!

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