‘Selector’ perdido no tempo

O termo ‘selector’, na aplicação que aqui lhe faço, foi roubado de um romance de ficção científica de Philip K. Dick de que não recordo o título. Mas convém explicar o que é um ‘selector’ no contexto dickiano: concretamente, é uma espécie de fantasma resultante de viagens no tempo, que se irá esbatendo da realidade como a côr numa velha fotografia até desaparecer por completo. Enquanto tal não acontece, permanece, é uma entidade vagamente física – e até fala. Neste livro específico, a personagem principal confronta-se em Marte com um ‘selector’ de si próprio.
E é assim que me sinto hoje: depois de ter ouvido o enraivecido ladrar soviético-cunhalês do recém-eleito chefe da CGTP, bastou-me fechar os olhos, trocar mentalmente a ‘troika‘ pelo PREC (tão semelhantemente estúpidos se mostraram), recordar algumas passagens do magnífico e doloroso livro de Dulce Maria Cardoso (Retorno – sim, de retornados), e dar comigo a olhar para mim, perdido num tempo sem idade, mas já com muito menos forças para, como então fiz, lhe dobrar a esquina.
C’est la vie (por incrível que pareça)

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo.
E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado.
Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.

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8 respostas a ‘Selector’ perdido no tempo

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    António, não anda fácil a nossa vida de selectores. Mas é muito melhor do que a metralha das cassetes, das velhas e das novas. O “Retorno” da Dulce Maria Cardoso éxactamente como dizes: magnífico e doloroso. Um pequeno prodígio de reconstituição de uma realidade absolutamente invulgar no romance português.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Prodígio, e nem sei se pequeno, é o qualificativo adequado ao livro.
    Não há pachorra para os ‘irmãos’ da metralha, a menor…

  3. teresa conceição diz:

    Analogia curiosa, António. E um belo texto.
    E o retorno de um livro que me tenho esquecido de procurar.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Ainda bem que gostou, Teresa.
    Aconselho o livro vivamente, é francamente bom.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    António mão conheço nem li o livro, mais um para a prateleira dos “livros que devo ler”, mas que todos somos um pouco fantasmas mais ou menos desfazados desta realidade também ela imaginada e ficcionada, isso não tenho dúvidas. Agora que haja força e vontade de “dobrar a esquina”, nem que seja a voar…qual fantasma translúcido em noite mais escura.

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Sei bem que estou muito e bem acompanhado nesta minha nova vida ‘ectoplásmica’, Bernardo.
    Quanto às forças requeridas agora, não deixa de ser curioso que o livro de DMC até tem feito algo por isso – sendo um ‘objecto’ tão sofrido e tão carregado de memórias de coisas que também vivi, ainda que lateralmente.
    Obrigado pelo ânimo.

  7. Apeteceu-me brincar, … dizer-lhe ‘may the force be with you’ porque não gostava de o ver ficar sem forças. Mas a magia está em aplicar a energia, sem força.
    🙂
    [ assim poupa-se ( a si) mais um bocadinho]

    • António Eça de Queiroz diz:

      Rita, isso é como no judo, não é?…
      Vou tentar seguir o seu conselho e levar a esquina ao tapete!

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