Super sad

(Escrevi há uns meses sobre este livro, acerca um futuro cada vez mais presente que o autor ia adivinhando já em 2010. Dou-me por mim cada vez mais perto dele. Do autor e do futuro.)

O presente angustia-me. Não este em particular da dívida e dos ratings, este entedia-me, mas o presente enquanto sítio para viver. Nunca consegui a serenidade hippie do carpe diem, aquele sorriso fixo e olhar de bovina felicidade que indicia o Nirvana. Conheço pessoas assim, perfeitas no seu presente e cujo o único senão é a limpeza. Como se o carpe diem fosse incompatível com a higiene diária.

Mas em frente, para o futuro que é onde eu gosto de estar.

E gosto porque o  futuro é um sítio imaginado sem as inconveniências do presente; mesmo quando o imaginamos, como eu imagino, catastrófico e assolado por pragas que irão reduzir a espécie humana a números pré-revolução industrial, nunca imaginamos um futuro onde rebentam canos do lava-loiças, onde ouriços se espetam no pé ou onde o papel higiénico acaba quando estamos mais vulneráveis. Tudo coisas que habitam exclusivamente o presente. E por isso passo a maior parte do tempo a fugir dele com ajuda da arte, da ficção e do sonho diurno que é o mais barato dos escapismos.

Serve este relambório para partilhar um futuro: o romance de 2010 de Gary Shteyngart “Super Sad True Love Story”.

Ao contrário do futurista analista, que se angustia e paralisa porque os dados nunca são suficientes para deduzir o que aí vem, um escritor é capaz de intuir e concluir futuros a partir dos insuficientes dados presentes.

É o que faz, com um enorme talento, humor e amargura Gary Shteyngart em SSTLS. Uma estória passada num futuro e num mundo, muito, muito próximos, onde os Estados Unidos são governados pelo Bipartisan Party, onde o dólar está indexado ao yuan, onde a dívida é colossal e toda a gente vive a olhar o seu apparati (smartphone) que transmite, publicamente, tudo sobre a vida pessoal, incluindo o nível de crédito que determina o ranking social de cada um. Enfim, o futuro que se segue.

Eu acredito muito no futuro. Em particular neste negro, patético e super sad futuro vislumbrado pelo Gary Shteyngart.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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5 respostas a Super sad

  1. caruma diz:

    Acabei de perceber por que é que Escrever é Triste, bolas !

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Eu também: acredito!

  3. vou pegar no único ‘senão’:
    talvez o problema não seja a higiene diária mas uma tentativa de se relacionar mais com o ‘ au naturel’ sem sofisticação ou adereço … acho que é mais isso.
    Um Carpe Diem sofisticado é muito (demasiado) atraente
    lol

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Sim, eu também, até imagino um chip implantado à nascença com visualização imediata no Google Earth. E tudo…

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