Textos imprestáveis #2 (apocalipse papirófago na Biblioteca Joanina)

 

A Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, considerada há dias como a mais bela biblioteca universitária do mundo pelo guia internacional Flavorpill, de Nova Iorque, é palco diário de miríades de pequenos dramas da vida animal.
Tudo se desenrola com o cair da noite, quando as grossas portas de teca encerram ao público e depois de todos os belos buffets e demais mobiliário de época (século XVIII) serem cuidadosamente cobertos por espessas mantas de couro verde. Já com as cerca de 200 mil publicações avançando no seu sono peculiar, este insuspeito ecossistema revela mais um ciclo de perigosa vida para os poucos papirófagos que ainda se atrevem a afiar o dente na perspectiva de lauta jantarada.
Imaginem-se, por momentos, na pele de esfomeados papirófagos: há ali do melhor, entre bíblias e in-folios, raros tratados de Teologia, Direito Civil e Canónico, ciências em geral, Geografia, tudo numa organização e cuidado de causar inveja ao mais meticuloso dos gerentes da cadeia Pingo Doce.
São estantes e estantes da mais pura guloseima papirófaga!
Mas, hèlas!, estas estantes são feitas em desagradável e mal cheirosa (para o papirófago, entenda-se) madeira de carvalho… Persistente no seu fito, o ainda afoito papirófago tapa o nariz com uma das suas inúmeras patas, enquanto esvoaça salivando pela nave central daquela catedral do Saber, sob o olhar simultaneamente altivo e benevolente d’El Rei D. João V.
«Ele é magnânimo», pensará esperançado o guloso comedor de papel.
Vã esperança, como adiante se comprova.
Porque nesse momento – e podemos perfeitamente imaginar a cena ao som das Valquírias – tem início o apocalipse do papirófago: do ar, silenciosos e stealth que nem esquadrilhas de americanos F-117 sobre Bagdad, descem dúzias e dúzias de quirópteros plenos de crueldade e tão ou mais esfomeados que o dito e redito papirófago – que logo ali é deglutido num festim pleno de guincharia.
Acabada a breve investida do imprudente insecto, a vasta legião alada ruma às saídas estratégicas da Biblioteca numa busca alarve de mais alimento. Pelo fim da madrugada, as panças já cheias, todos regressarão à civilizada gruta que lhes serve de santuário há mais de trezentos anos, numa relação simbiótica com os homens que explica o grande azar eco-sistemático do eventual papirófago e presumível descendência.
Um fado triste, sem dúvida, testemunhado in-loco por esse grande opinador universal que dá pelo nome de Umberto Eco.
Apresento aqui algumas considerações do inevitavelmente polémico escritor – autor de interessante tese de doutoramento sobre a Estética em S. Tomás de Aquino – relatadas em entrevista de Stephen Smith para o Toronto Globe & Mail, em 1996 (Eco toma aqui inequívoco partido anti-papirófago, o que aliás se compreende).
No seu texto de título Ask Umberto, Smith lembra os conselhos de Eco no que respeita ao assunto:

If you – or your library, for that matter, suffer from the depradations of bookworms, you might take Umberto Eco’s advice and get yourself some bats. On a visit to Toronto last week, the Italian novelist, academic, translator and polymath was remembering a recent visit to the aged library at Coimbra in Portugal.
“Spread out on the tables they had green towels, as for billiards”, Eco was saying. “I asked why: They said it was to protect the furniture from the shit of the bats. They have bats; the ceiling is full of bats. During the day they sleep; during the night they shit. “So I asked, why don’t you get rid of the bats? But you see, the bats eat the bookworms that would otherwise damage the books. For 400 years the bats have been protecting the books”.
Matters of book protection are of more than anecdotal interest to Eco: His personal library, shared out between apartments in Bologna and Milan and a country house, numbers nearly 40,000 volumes. “I have to suspect that somewhere I have worms”, he says. So far, though, he hasn’t resorted to bats.”You know you can also use a big, old-fashioned alarm clock”, he says. “You keep it on your shelf: It seems the tick-tock noise disturbs the worms so they will remain safely in the wood.”

Uma imagem vale por mil palavras...

Resta-me dizer que desta vez Eco quase me desiludiu.
Primeiro meteu mais 100 anos em cima da Biblioteca Joanina, o que me parece um erro de tomo para alguém tão informado; mas depois…, como seria ele capaz de trocar uma romântica revoada de morcegos papirofago-ófagos por um velho e ruidoso crono-trambolho da Reguladora?!…
Afinal, soube mais tarde, o meu desânimo revelou-se bem escusado: fontes quase-quase maçónicas ligadas à Universidade de Coimbra garantiram-me que a espaços, em certas noites de verão, quando o vento leste desorienta moçoilas e faz uivar as doninhas, é vislumbrada a sombra hierática do iminente semiólogo italiano, sempre bem escoltada por centenas, se não milhares, de quirópteros esfaimados – que aparenta comandar.
A foto inclusa, obtida num feliz momento de relax do autor dos Diários Mínimos, não desmente tais rumores, além de que não se lhe vê nenhum velho despertador de corda atado à cintura…
Mais contente fiquei ainda em saber que os ditos protectores alados do Saber são também (e como não?) melómanos inveterados, beneficiando assim dos vários concertos que por ali se realizam. No filme que encerra este tema observa-se a tentativa falhada do cineasta amador em captar imagens da quiroptérica ‘geral’.
Sem as prometidas imagens resta-nos pois imaginar o morcegal excite, por entre volutas e douradinhos barrocos, o entusiasmo aos sons mais perfeitos, e o ‘flap-flap-flap’ das suas  arrebatadas palmas…

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

11 respostas a Textos imprestáveis #2 (apocalipse papirófago na Biblioteca Joanina)

  1. O Eco de Umberto diz:

    Serão estas as célebres cultural wars? Assustadora descrição do que grassa à noite numa bibiloteca. Nunca mais lá volto.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    E eu que andava doido por comer uma biblioteca! Ainda bem que avisas – raio dos morcegos!
    Bem bom e divertido o texto, António (e afinal o Eco é um querido).

  3. António Eça de Queiroz diz:

    É um querido mas comanda os F-117…
    Ainda bem que gostaste, Manuel.

  4. Rita V diz:

    uma cirurgia bariátrica para os pobres papi­ró­fa­gos e logo a seguir uma batwoman.
    Tínhamos biblioteca para mais cem anos ou será vice versa?

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Cirurgia bariátrica nos papirófagos, Rita?!
    Mas se eles já são tão magrinhos por dieta imposta!…
    E a batwoman só se fosse para desviar o Eco dos seus deveres, parece-me.

  6. Pedro Marta Santos diz:

    Ainda agora se descobriram novas propriedades neuronais aos morcegos, como a extensão de uma forma de capacidade telepática entre a espécie. O mundo é deles, não há dúvida (com o preço a que está a luz, qq dia teremos o mundo às escuras).

    • António Eça de Queiroz diz:

      É por isso que eu uso daqueles isqueiros chineses com lanterninha, Pedro…

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    António pensei que fosse só em Mafra que os ditos “caças” atacavam sorrateiramente, aproveitando o início do lusco-fusco, os indefesos papirófagos…mas a grande revelação é mesmo a imagem do “Ecobat” …sem palavras…

  8. António Eça de Queiroz diz:

    Mafra é o outro ecossistema simbiótico do género em Portugal, suponho que não há mais nenhum – embora existam mais bibliotecas antigas. Nestas o que tem piada é existirem desde a sua construção entradas (e saídas) para melhor tráfego quiroptérico, foram feitas com essa intenção…
    Também acho que o Ecobat ficou bem na foto, digamos que enriquece a ‘peça’…

  9. António Eça de Queiroz diz:

    Eugénia!, não seja assim… «A minha ignorância»!…
    O que direi eu então do que aprendo consigo? No fundo estamos já a enveredar, com a Tia Triste, por um novo mundo de trocas mais justas…
    Já viu como isso é bom?…

Os comentários estão fechados.