Textos imprestáveis #3 (bizantinices)

 

Pormenor da capa de Baudolino, de Umberto Eco (Difel)

Confesso que me senti espicaçado pelo statement minimal da nossa querida Eugénia, embora, realmente, tenha andado ocupadíssimo com coisas de substância e travo diverso, como poderão constatar aqui os eventuais interessados.
Seja como for, andava há dias a matutar numa explicação para o fim dos tempos que notoriamente se aproxima.
Calma! Quando digo fim dos tempos é, fundamentalmente, dos tempos que todos nós temos vindo a conhecer com maior ou menor intensidade: a parvoeira política mundial, a (desculpem) caganeira verbal e actuante de gente supostamente responsável, o negócio que já nem mesmo o ócio nega, e até umas certas artes que se dizem Arte sem o serem realmente.
Para me facilitar a vida optei por concentrar todos os males do mundo contemporâneo numa única palavra/actividade: o publicismo.
Porque o grosso dos nossos males vem todo daí.
Se não, veja-se: há publicismo na tentativa de assegurar às mentes bem pensantes que justiça não é essencialmente uma forma de vingança – quando na prática o é na maioria dos casos; há publicismo, e do mais abjecto, na actividade das agências de rating – que no essencial é a de inside trading (e que, portanto, deveria ser criminalizável); há publicismo, para o bem e para o mal, em todo o jornalismo do planeta…
Política, indústria, comércio em massa, religiões, cultura, desporto – tudo o que tem algum peso na nossa existência é publicísticodependente.
Exemplifico a natureza do mal.
Há dias li uma notícia que me irritou em todas as direcções: dizia não sei quem (nem tal me interessa) que todo o dinheiro gasto até agora a salvar a banca e o sistema financeiro europeu e americano dava para matar a fome mundial por um período de 600 anos!…
Porque me irritou isto tanto?
Bem, primeiro porque cedi ao populismo da frase/estudo – irritando-me então com a possibilidade de tal poder ser, um pouco que fosse, verdade. Depois fui-me irritando sucessivamente com várias coisas, a saber: este dinheiro realmente não existe em espécie, é como as dívidas do Sócrates, não serve para nada a não ser para preencher balanços de contabilidade criativa e encher uns quantos bolsos que nunca, em parte alguma, poderão corresponder ao peso de seis séculos da fome mundial (muito embora os seus virtuais utentes pudessem e devessem objectivamente ser lançados às feras mais famintas, a bem destas e de todos nós).
Por fim teríamos as consequências tremendas do tal ‘milagre’ de panificação e pescaria crística, se este alguma vez se verificasse: a população mundial em vez de crescer na proporção mais ou menos aritmética que conhecemos dispararia para valores exponenciais muito mais catastróficos do que a fome propriamente dita.

Cinismo?
Nem por isso.

Acho que algum realismo comportamental irá forçosamente arrefecer as nossas manias das grandezas, fazendo-nos perceber coisas simples como a parvoíce de falar com Ronaldo «por cartaz», ou de juntar umas poupançazitas no depósito «X» quando a guita não chega sequer ao dia 20, ou do pague aqui, desconte acolá e lixe-se lá mais adiante!, ou, simplesmente, de considerar uma mera estatística digna de representação democrática e indiscutível valor operacional (como se todos fôssemos iguais!…).
Porque do que se está a falar, num, noutro e em muitos outros casos, em Portugal, em Andorra ou atrás do sol-posto, é apenas de simples e pura ganância – essa sim, absolutamente cínica.

O filme aí em baixo explica o título que usei neste texto irremediavelmente imprestável.
Apetecia-me ir para a Gorongosa, raios!
Nem que fosse montado num grifo, como o excelente Baudolino do meu querido amigo Eco…

 

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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13 respostas a Textos imprestáveis #3 (bizantinices)

  1. Ruy Vasconcelos diz:

    um pouquinho de ira não faz mal a ninguém. e até põe mais malagueta e calibre no seu texto já explosivo, antónio. espero vê-lo zangado mais vezes por aqui. quanto a essas estatísticas do tipo isto daria para pagar aquilo, perfeitamente fantasiosas e inúteis de resto, já desenvolvi vacina do tipo edaítica contra elas. e que se resume a pôr ao final da leitura: “e daí”?

    • António Eça de Queiroz diz:

      É mesmo Ruy: e daí?… Mas irrita-me o permanente jogo com os sentimentos porque, em muitos casos, é professoral e intrinsecamente idiota – mas as pessoas caem nele…
      Ainda bem que gosta de me ver irritado, vai acontecer mais vezes
      (já disse que o Braga é 3º?…)

  2. Pedro Norton diz:

    António, como eu o percebo. Não posso é sonhar com a Gorogonsa que não conheço. O meu santuário para o dia a seguir ao fim do Mundo há de ser a Ilha do Pico. Temos e de arranjar maneira é de continuar a comunicar. Lá de cima devo conseguir ver os seus sinais de fumo.

  3. Rita V diz:

    … e eu a pensar que gostava mais dum ‘Dragão’ …
    já estou como o Ruy, zangue-se mais vezes

    • António Eça de Queiroz diz:

      Rita, também me parece que vou ter oportunidades várias…
      Ainda bem que gostou!

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Mas, Eugénia, estamos pertíssimos! S. Tomé está para a Gorongosa como as Berlengas para o Fundão!
    (eu também só conheço a Gorongosa por cliques e fotos, mas tenho lá raízes bem profundas, como deve ter reparado…)

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Grande António, é engraçado – o dinheiro que não existe porque é só “criativo” e de balanços ou estatístico – como o que “não existe” pode gerar tanto mal. O que não existe pode ferir mais do que o que existe…

    Eu vou de viagem, na minha águia, até ao Mussulo. A minha águia viaja no tempo…

    • António Eça de Queiroz diz:

      É mesmo, meu irmão, o dinheiro fantasma é voodoo do pioirio!
      Mussulo? Para mim é logo ali: Mapa Côr-de-Rosa e uma canoa!
      Prepara as lagostas e as Cucas a estalar!

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Pior do que tudo António é mesmo a facilidade de resolver os problemas do mundo escondido e protegido por detrás de grandes clichés que apontam para o nada…difícil é mudarmo-nos a nós mesmos, e conseguir com esse exemplo mudar um pouco à nossa volta. E apetece mandar muita boa gente para aquele sítio, mas que não seja para a Gorongosa que iriam estragar tudo entre feras e natureza….

    • António Eça de Queiroz diz:

      Exacto, Bernardo…
      (não sei porquê lembrei-me da Ana Drago e do seu carro com motorista…)

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