Um bocadinho dejá vu

Por sobreposição de pessoas e tempos, os que viveram a última Grande Guerra olharão para os dias que agora correm com a angústia lenta e silenciosa daquilo que ainda lhes poderá chegar em vida. A minha escala pessoal é bem menor: no fim da guerra colonial – e início da guerra civil angolana – senti que o Mundo mudava não só geograficamente mas também em termos de essência ideológica. Só não sabia para onde.
O tempo teve de passar para que o tal novo ‘visual’ se mostrasse com o contraste necessário: o império soviético desmembrou-se e, tal como previra anos antes, os conflitos regionais generalizaram-se em progressão cada vez menos espaçada.
Agora sinto a presença de um totalitarismo mais cínico, porque anónimo, e, risco dos mais altos, muito mais habilitado a sobreviver às ditas ideologias (há muito moribundas).
Tanto gostava de enterrar este sentir.

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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10 respostas a Um bocadinho dejá vu

  1. Bernardo Vaz Pinto diz:

    António, a ignorância da história torna-nos autoritários e perigosos, e como referido cínicos… o Joseph Beuys dizia que o Hitler revelava da historia só aquilo que lhe dava jeito …O mundo está sempre a mudar, mas o pior de tudo é acharmos quepodemos ser o centro dessa mudança exterior sem nos mudarmos por dentro…
    Isto é também um desabafo, mas que bonito final “enterrar esse sentir”…

    • Rita V diz:

      António repito as palavras do Bernardo sem tirar uma vírgula e Bernardo … que bonito final «…sem nos mudar­mos por den­tro…»

    • António Eça de Queiroz diz:

      A ignorância é perigosa…, e mais perigoso ainda não ter dentro…
      Sintetizando o teu desabafo, que diz tudo.
      Bernardo, um grande abraço

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      É bem verdade Eugenia. Referia-me mais à ausência de historia no sentido de não conseguirmos ter referências de nada. É claro que os totalitarismos têem as suas, deturpadas e demagogas.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Como para ti, Angola foi para mim uma experiência de “mudança de paradigma”: um mundo a morrer e outro a chegar sem se saber o que seja. Foi um enterro e peras. Espero que o próximo seja mais rápido (mas será que vai doer menos?)

    • António Eça de Queiroz diz:

      É, Manuel, foi isso mesmo.
      E não sei se vai ser mais rápido, mas mais confuso, caótico e perigoso é quase certo.
      Infelizmente, pois o outro já foi uma barra alta…

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Claro que sim, Eugénia, a Corporação – ou o «Arquipélago de Potere», como já lhe chamei eu…

  4. ~CC~ diz:

    Não tem nada a ver com o conteúdo…mas sim com a forma, não apenas neste texto, os vossos fundos a vermelho e amarelo prejudicam a leitura, sobretudo o vermelho…como o contéudo é sempre superlativo, ficam as sugestões em relação à forma…de uma leitora atenta e fiel 🙂
    ~CC~

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