Um saber que se fecha

Galileo dita ao filho, Tito Lessi

Há poucos dias, em Dezembro de 2011, George Steiner temia que evoluindo cada vez mais, soubéssemos cada vez menos. As ciências contêm no seu extremo desenvolvimento o gérmen do seu encapsulamento: “quem, afirma Steiner, consegue compreender as últimas descobertas da genética, da astrofísica ou da biologia?”

A universalidade do saber – a sua comunicação – restringiu-se fortemente: as ciências tornaram-se inacessíveis, escritores e filósofos são incapazes de as comunicar.

Estou a distorcer o que o conceituado académico disse? Claro que estou. Por isso, talvez seja bom verem com os próprios olhos. Aqui.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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5 respostas a Um saber que se fecha

  1. Rita V diz:

    nunca fui capaz de ter a cabeça dentro de um walkman
    🙂
    não sei bem o que estamos a perder, acho … é que ainda não demos pelo que estamos a ganhar

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    A sua imagem da cabeça dentro do walkman fez-me lembrar que, quando eu era miúdo , havia lá no bairro um rapazito que metia a cabeça no congelador para ficar com dores de cabeça e não ir às aulas…

  3. MJC diz:

    “as ciências tornaram-se inacessíveis, escritores e filósofos são incapazes de as comunicar.”

    Discordo totalmente desta afirmação de G. Steiner. Explicar ciência, aos leigos, usando os termos intrínsecos do próprio conhecimento é o mesmo que falar para uma parede, pois será uma linguagem só entendível inter-pares. Se quisermos ser entendidos pelo grande público é imprescindível o recurso a toda uma linguagem simbólica compreensível por todos. Poucos cientistas serão capazes de o fazer. Há os que tentam, uns conseguem outros não, como tudo na vida. Poucos querem pois dá-lhes distanciamento, estatuto. Um médico diz ao seu paciente que tem uma doença de causa idiopática. O paciente fica a admirá-lo porque descobriu finalmente a origem do seu problema. Sentir-se-á menos ao dizer-lhe que tem um problema de causa desconhecida? Ainda hoje poucos são os que entendem que não existem palavras para explicar alguns comportamentos humanos, as relações humanas, as emoções e a sua génese. Por isso o recurso, por exemplo, na terminologia psicanalítica, à mitologia grega. Foi a única que o pai Freud encontrou para o fazer. Em síntese, um qualquer cientista, se quiser pode fazer passar o conhecimento. Se não tiver recursos internos que lho permitam, explique-o a quem tem essa capacidade. Explicar ciência é tão fácil como vender um detergente ou um carro. Há muito que advogo que devia haver um marketing científico. Assim, os homens e mulheres que dominam o conhecimento nas respectivas áreas o queiram fazer.

  4. manuel s. fonseca diz:

    Dispor do tempo é um privilégio – de deuses, claro.

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