Uma Arte no Escuro

A atribuição da autoria de Os Quatro Elementos a Joachim Beuckelaer é uma das falácias da história da arte. Semelhante mesmo ao que houve na música com o Adágio em Sol Menor de Albinoni. Recentes estudos indicam que a série foi, em realidade, pintada pela artista portuguesa Theresa Concepção, em 1712. Concepção, que o mais próximo de Flandres que colecionou na vida talvez seja prudente não mencionar, era animada por um intuito: maquiar, para as autoridades, certa perspectiva de ideias. Abraçavam esse novo ideário os retratados, e na razão de quatro por tela. À exceção é justamente Água, onde são enigmaticamente cinco.

Pode-se vê-los, de acordo com as convenções de época, atrás das duas alegorias de primeiro plano – a Fortuna à esquerda e o Engenho à direita. Imediatamente após a Fortuna, vê-se Escrever, libertina que frequentava o Paço e é a única representada com os roliços braços desnudos. Atrás de Escrever, Dom Diego Leote, regente de corais femininos, afigurado com um barrete de músico e um alaúde na cabeça. Segundo cronistas, fino contrabandista de instrumentos e partituras.

Imediatamente atrás da alegoria do Engenho, no grupo da direita, vemos Dona Rita Rochette de Vasconcellos, dama do Paço, famosa por suas gravuras licenciosas. Seu desmedido ego era pasto de chalaças na Baixa. Atrás dela e um pouco à esquerda, inclinada para melhor observar um incidente, como a indicar perene curiosidade e matreirice, vê-se Eugênia de Vasconcelos, prima da anterior e mercurial autora de poemas e libretos. O mais controverso dos quais: ‘O Malcozinhado e Lisboa’. Ex-carmelita descalça, mestra da sutileza e do escrever à clef, Dona Eugênia foi – entre outras pioneirices – a primeira em Portugal a dirigir um cabriolé.

Contrariando a primeira vista, a menina Escrever não porta um tabuleiro sobre a cabeça, mas um vistoso chapéu nortenho, que ela delicadamente apruma com a mão direita. Pesquisas indicam que o chapéu foi presente de Dom Antônio Essa, publicista do Porto. O propósito: evitar que Escrever espalhasse aos quatro ventos sua postura na alcova depois de haver cheirado certo rapé branco, trazido do Vice-Reino do Peru por Dom Sancho Mendia, seu primo.

Por fim, bem ao fundo, furtivo, disfarçado de freira, Emmanuel Sicário Fonseca, livre pensador. Editor e conselheiro do grupo, nome visado pelo Santo Ofício, que nunca conseguiu deitar-lhe as mãos, Fonseca fora corsário na África. Segundo alguns, manteve correspondência com Gregório de Matos. Comandava uma guilda de obscuros apreciadores de uma arte feita no escuro. Uma espécie de bruxaria que implicava em ter visões coletivas a partir de feixes de luz. O mentor dessa novidade, o huguenote converso ao cartesianismo Louis Lumière, comandava, desde Paris, extensa seita gnóstica.

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Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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16 respostas a Uma Arte no Escuro

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Genial! Isto só com uma boa patifaria vai lá, realmente.
    Parabéns, el-Ruy!

    • Ruy Vasconcelos diz:

      grato, antônio. rapaz, resisti à tentação de falar em dragões, sempre muito alegóricos. mas o rapé e o mendia pareceram suficientes. qual mesmo o mascote do braga?

  2. Rita V diz:

    ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
    ai primo!!!!!!!!!!! prepare-se para a VINGANÇA!!!!!! será terrível.
    ah ah ah ah ah ah ah ah
    Genial como diz o António.

    e agora em eco do outro lado do mundo
    ah ah ah ah ah ah ah ah

    • Ruy Vasconcelos diz:

      já a temia antes de postar, rita. agora, nem falar… mas, que posso fazer… olha, sou fã do walter e da beebzz! e gosto também dos seus cartuns com muitos elementos, como o do natal no dia seguinte. e há aquele texto sobre ser muito exigente nos restaurantes… de resto, isto de exigência deve ser coisa de quem era dama do paço.

  3. caruma diz:

    Fantástica perspectiva crítica de um grupo encriptado de acordo com o uso !

  4. manuel s. fonseca diz:

    Quero saber, já, quem deu as informações a este cronista? Quem o autorizou na cidade? Quem lhe entreabriu as portas do paço? Tragam, acaba de lavrar em bula Sua Eminência o Cardeal PN, a cabeça de Gregório de Matos numa bandeja.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      rapaz, a que reparar que leitor das escrituras, o manuel. talvez daí, a irreverência sagaz do disfarce. o constante escapar da inquisição.

      pois não?

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Grande descrição da família dos “tristes amigos”, que mal podiam imaginar vir a ser protagonistas nesta historia do norte. Há no entanto alguns estudiosos que defendem que o conhecido cronista setecentista, Ruy Mendes de Vasconcellos, autor do belo texto referenciado, pode ser visto na retaguarda à esquerda, junto a uma figura versuda de negro.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      hahaha! muita gentileza, bernardo. mas, como você adivinhou que tenho mendes entre antepassados? é verdade. certamente nada a ver com dom luís e o cerco, no entanto.

      um fraterno abraço,

  6. Diogo Leote diz:

    Ao mesmo tempo que aplaude de pé a engenhosa crónica, meu primo Diego clama inocência, excelso Marquês de Fortaleza. As suas meninas nunca puseram um pé fora do coro, mau grado todas as tentativas de Dona Eugênia para as arregimentar para o seu famoso cabriolé. E os instrumentos e partituras, que consigo trazia, não passavam de encomendas do sicário Fonseca.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      olhe, diogo, rapaz, é você que está dando outras conotações para um inocente cabriolé, viu? e vai que a eugénia pega corda. de vocês há ainda alguma chance de perdão, nobre regente, mas da eugénia, no way. de outro modo, já comprei o ‘pornopopeia’.

  7. Ruy Vasconcelos diz:

    no matter whether they are far or straight, eugénia, you always have good shots. yours is an amazing writing, dear cousin. i’d just gave up to write any more comments on your posts, for i ‘d only reapeat myself to the utmost boredom. com ou sem chave, ninguém escreve como você. e tenho curtido bastante sua escrita automática!

  8. teresa conceição diz:

    Caro Dom Ruy Cronista del Reyno de Escrever,
    tendo estado ausente por alguns dias destas Tristes Terras, muy me apraz neste feliz regresso entender que está finalmente reconhecida a autoria da obra da minha tetraquinta avó. Nem calcula o que temos penado por este reconhecimento. Pronto segue carta a pedir a sua presença e testemunho perante as autoridades competentes e, de seguida, uma ida à Christie’s para registar a sua garantia de perito e consequente reavaliação de toda a obra da querida avó mais que tetra e nunca triste. O jeito que o dinheirito extra vai fazer cá em casa, nem imagina!

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