Uma noite no sótão: Ava Gardner

Tenho um sótão. Uma teia de aranha cobre uma pesada bola de cautchú. Há um par de patins a que faltam rodas. Resmas e resmas de folhas guardam os poeirentos textos que escrevi na Cinemateca, nos jornais, sobretudo no Expresso a que nem sempre fui fiel. De vez em quando vou fechar-me no sótão. Hoje, fecho-me com Ava Gardner que lembrei assim quando ela morreu a 25 de Janeiro de 1990.

Quando Ava Gardner chegou a Hollywood, em 1940, Louis B. Mayer podia mais na MGM do que Deus-todo-poderoso no reino dos céus. Aliás, a Criação, a Natureza, era imperfeita e a MGM não ti­nha outro remédio senão corrigir-lhe em estúdio os defeitos. Ava Gar­dner foi um desses defeitos.
Agarraram nela, levaram-na para o Stage 15, o maior set do mundo, e fizeram-lhe o primeiro teste. Lee Garmes, um dos maiores directores de fotografia de Hollywood — que o digam Sternberg, Hawks, Mamoulian, King Vidor ou Nick Ray —, fotogra­fou-a e, como Mayer não tinha tempo a perder, sintetizou-lhe assim os resultados: “Não sabe representar, não sabe falar. Mas é espantosa.
Garmes era bruxo. Durante dez anos, até à “Pandora” de Albert Lewin, cada filme dela era recebido com reticências, muitas reticências e, a seguir como remate, a constatação de Garmes “… but she’s terrific”.
No meio desse teste Ava dizia o nome: “Ahvuh Gahdnah”. Ninguém percebeu. “Depois muda-se”, declarou Louis B. Mayer. Depois muda-se, era para todos os efeitos o lema de qualquer estúdio. Mudava-se tudo. Chamavam o guarda-roupa, a caracterização e entregava-se-lhes a candidata. Ava Gardner não foi excepção. Fizeram-lhe tudo isso, mais uma ida ao dentista, abriram-lhe conta, desenharam-lhe um currí­culo, deram-lhe aulas de dicção e de represen­tação. E Mayer preparava-se para lhe mudar o nome quando reparou que Ava Gardner era bom, perfeito até. Só que o estúdio não podia correr o risco de dar o braço a torcer — uma vez que fosse — no seu confronto com a «nature­za». E se Ava conservou a sua graça foi porque Mayer criou a ficção de que o nome de baptismo da rapariga era Lucy Ann Johnson, nome impossível que o estúdio corrigira para a sonoridade harmónica de Ava Gardner.

Femme fatale

Depois de tudo corrigido, dentição, cabelos, pronúncia, o estúdio deu-lhe uma carreira. Ou roubou-lha. Fê-la fracassar de filme em fil­me, mantendo-a em banho-maria durante dez anos. Foi premeditado? Ou foi a prova clamo­rosa dos vícios do sistema?
Godard, no seu estilo aforístico, disse um dia: “O cinema não se interroga sobre a beleza de uma mulher; o que faz é pôr em dúvida o seu coração, registar a sua perfídia.” A MGM e Louis B. Mayer, ofusca­dos pelo magnetismo de Ava, procederam in­versamente. Fizeram filmes para a imagem dela, querendo que ela fosse refém de uma única imagem: sex goddess, como é óbvio. A pouco e pouco foi-se consagrando o mito frívolo de femme fatale, consubstanciado em casamen­tos e aventuras que envolveram Mickey Rooney, o músico Artie Shaw, Frank Sinatra e, quando Ava se pôs a incarnar a mulher segundo Hemingway, alguns «matadores» es­panhóis.
O preconceito prevaleceu reforçado por filmes medíocres. Firmou-se a ideia, alimentada com insistência pela própria, de que não sabia representar. Assegurava-se, por isso, que os filmes não perturbassem as caracte­rísticas do produto já identificado: uma be­leza felina, uma mulher inacessível, um «mito que se recusa aos homens». Era para a ver assim que o público pagava, foi assim que a MGM a conservou.
Ava sobreviveu, mas esteve longe de sair incólume. Bebia tudo o que lhe aparecia pela frente, gin, vodka, tequila, rum, scotch, bourbon, cerveja e champagne. Para não ferir susceptibilidades, a tudo o que enchia um co
po pôs o nome macio de shampoo. Robert Mitchum, quando contracenavam em “My Forbidden Past,” compadeceu-se e procurou lavá-la do vício. Mas Ava nunca se conseguiu habituar à marijuana e Mitchum não teve outro remédio senão continuar a fumar sozinho.

Figura de redenção  

“Se eu soubesse representar tudo teria sido diferente… Mas tive o azar de ter esta cara fotogénica.” Foi o que Ava disse a Henry King durante as filmagens de “Snows of Kilimanjaro”.
Deixara já de ter razão. Em 1950, Albert Lewin filmara-a pela primeira vez a cores, em “Pandora and the Flying Dutchman. À imagem do estúdio, armadilhada por Mayer, Lewin, que tinha fama de esteta e modos de «grande senhor», opôs pela primeira vez a contra-imagem, fazendo-a surgir como uma figura de redenção. E, em 1953, com “Mogambo” de John Ford, ao lado de Clark Gable, Ava Gardner provou, mais do que em qualquer outro filme, que poderia ter sido tanto mais actriz quanto tivesse sido muito menos star. “Ford foi maravilhoso a diri­gir-me, a falar comigo, a fa­zer-me compreender. Acho que é assim que ele traba­lha”, admirava-se, anos depois, Ava. E quem tenha visto “Mogambo” (e quem não viu pouco viu) re­corda-se da inesperada «pre­sença masculina» de Ava, contrariando a imagem do «eterno feminino» de quase todos os filmes anteriores. Richard Lippe, um crítico americano, notou e bem que Mogambo parece um filme de Howard Hawks e Ava Gardner uma heroína hawksiana. Uma rapariga viril, despachadíssima nos diálogos, com o estofo de quem viveu muito e guarda do passado algumas cicatrizes. Quando o filme foi exibido, houve quem a achasse tão dotada para a comédia como Carole Lombard e Hollywood nomeou-a para o Oscar de melhor actriz, que perderia para a Audrey Hepburn de “Roman Holiday”. 

A Carreira Numa Réplica

Estabelecida a contra-imagem e auto-exilada em Espanha para fugir aos padrões que Hollywood lhe impusera (ou que ela mesma em Hollywood se impusera), Ava podia agora fazer o seu próprio papel e deixar de represen­tar o papel que o estúdio, a «sua» MGM, lhe atribuíra. Mankiewiecz foi buscá-la para ser a “Condessa Descalça”. Também não tinha muito por onde escolher. Ou ela ou Rita Hayworth. Mais ninguém, senão uma destas duas actrizes, poderia fun­dir-se na personagem de Mankiewicz (o cineasta favorito dos snobs, como lhe chamou gentilmente Truffaut). Quando, no filme, Ava olhava para Humphrey Bogart, que tinha o papel de realizador, e lhe dizia: “Acho que sou bonita, mas não quero ser esse género de star”. Se eu fosse capaz de representar só um bocadinho, você ajudar-me-ia a ser uma boa actriz a sério?” ela estava só a converter toda a sua carreira a uma réplica.
Desse drama deu conta Cukor, depois de a dirigir em “Bhowani Junction”: “Era extre­mamente inteligente. Exerce uma grande fascínio, mas está assombrada pelo desespero. É uma mulher dominada pela fatalida­de. Não está de boas relações consigo mesma e, entre outras coisas, considera-se uma má actriz. No meu filme ela tinha algumas ma­ravilhosas cenas eróticas… Lavava os dentes com whisky, de uma maneira muito ordiná­ria e muito excitante. Mas foi tudo cortado pelos censores.
Por causa de Ava Gardner a crítica francesa produziu toneladas de prosa maiúscula e metafísica. Desde o Mito, ao Eterno Feminino, passando pelo Mistério, Enigma e Esfinge, sem esquecer o Fantomático e o Fugidio. Edgar Morin, Bertrand Tavernier, Jacques Siclier e Ado Kyrou, entre outros, disseram da sua assombração. Por mim, prefiro a desassombrada declaração de Cukor. Nela se percebe melhor como é que Hollywood tantas vezes se autobloqueou, por inflexibilidade de estratégia, e como é que, por detrás de cada imagem de glamour pode haver a contra-imagem rebelde que, com a cumplicidade de Cukor, Ford e Mankiewicz, Ava Gardner fez, afinal, prevalecer como sua derradeira imagem.

Este artigo foi publicado no Expresso, a 3 de Fevereiro de 1990. Retomo-o aqui com ligeiras alterações.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

13 respostas a Uma noite no sótão: Ava Gardner

  1. Rita V diz:

    era capaz de estar horas no sótão consigo
    – … maaaaaaais !
    ( como as crianças)

  2. manuel s. fonseca diz:

    Rita, é que fechamo-nos lá os dois e nunca mais saímos. E é já para a semana…

  3. Luciana diz:

    Pois bem, antes ficava eu a espiar suas estantes, de longe, na minha espreguiçadeira. Já não basta, o cartão de visitas do sótão é por demais atraente. De resto, tenho dúvidas sobre o quanto de nós os outros realmente querem conhecer. De Ava, bem pouco já era imenso.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      E às vezes é tão pouco o que de nós queremos que os outros conheçam. Talvez, por timidez ou convulsa violência interior, fosse assim a Ava.

  4. Há quem tenha uma arca, o senhor de Fonseca tem um sótão. E prometedor, por sinal. Mais, como diz a menina do Walter.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel é caso para dizer que quem tem sótão tem tudo…às vezes penso que não quero saber das historias que se passam por detrás dos sonhos que trespassam na tela às escuras…porque tudo se perdoa a Ava ( lavar os dentes com whiskey não me pareceu tão mau assim !!!)… Lembro-me do lado selvagem e rude da “deusa” na “Noite da Iguana”, na praia , de noite, enlaçada entre dois jovens, sensualidade viva, em cabelos e corpo molhado…obrigado por nos fazer lembrar.

    • manuel s. fonseca diz:

      Não me parece que o Bernardo tenha precisado de grande ajuda para se lembrar. E nem lembrado…

  6. manuel s. fonseca diz:

    Um bombom no sótão? Embrulha-se o sótão e embrulha-se o bombom.

    • manuel s. fonseca diz:

      Desgostos? Então embrulho-lhe o bombom em papel d’ava e ainda se queixa? E já vê que tudo o que se guardar no sótão é para repartir fraternamente.

  7. Diogo Leote diz:

    Manuel, Ava Gardner, se fosse viva hoje, teria 89 anos. Duvido que haja um homem no planeta que não quisesse passar uma noite com ela, mesmo cheia de bolor e teias de aranhas nas articulações e com um monte de rugas nas peles caídas. Só para contar aos amigos, claro. E, de preferência, roubando-te as palavras, para os fazer babar de inveja.

    • manuel s. fonseca diz:

      Diogo e já viste a foto lá em cima? O desenho firme das narinas, a tensão dos ombros e a cerração dos dedos à volta do cigarro?

Os comentários estão fechados.