Uma noite no sótão: Barbara Stanwyck

 

É raro dormir no sótão. Mas quando durmo, é a fotografia dela que ponho na mesinha de cabeceira. Já a 27 de Janeiro de 1990 lhe tinha escrito, nas costas do retrato (e também no “Expresso”), este lembrete de gosto mesmo muito de ti!

 Roubaram a Rainha

Na morte de uma actriz é que se diz todo o bem dela. O bem possível e impossível. O bem merecido e imerecido. No caso de Barbara Stanwyck, morta a 20 de Janeiro de 1990, verifica-se com alguma perplexidade que, em vida, todos lhe disseram todo o bem que dela pensavam.

Frank Capra, com um joelho no chão, disse que a amou em cada filme que fizeram juntos e que só se lembra de ter amado mais (só um bocadinho mais) a mulher com quem vivia; William Holden, a quem ela embalou no primeiro filme dele em Hollywood, mandava-lhe um ramo de rosas todos os anos, para comemorar o início dessas filmagens; Cecil B. DeMille disse que ela trabalhava como um homem, o que, na sua linguagem de gladiador, era o maior dos elogios; mesmo o mau feitio de Fritz Lang fez-se brando e macio no set de Clash by Night, rendendo-se ao profissionalismo de Stanwyck. E a verrinosa Bette Davis correu o risco de desfigurar a imagem viperina, referindo-se-lhe nestes termos: “Concordo certamente com todos os que afirmam que há mais sex-appeal na bracelete que Barbara Stanwyck traz no tornozelo em Double Indemnity do que nesses corpos nus que enchem hoje em dia os ecrãs.

Só Maureen O’Sullivan, a Jane dos filmes de Tarzan, se atreveu um dia a ser mazinha. Contou mágoas que não merecem ser contadas e depois, consciente de que estava a fazer história, rematou: «Já está, esta é a única coisa desagradável que alguma vez foi dita sobre Barbara Stanwyck.»

Stany, como em Hollywood lhe chamavam, parece-nos hoje perfeita para os filmes negros. Além de Double Indemnity, dois filmes, The Strange Love of Martha Ivers ou Crime of Passion, provam que as maçãs altas do rosto, do rosto que melhor respondia à luz, a convertiam na incarnação de uma certa «parte obscura» do sonho americano. Mas a sua célebre «husky voice» cumpriu igualmente em melodramas, em tragédias, nos chamados (e bem chamados) «women’s pictures», nas comédias sofisticadas ou mesmo em «westerns». E foi tão ecléctica nos géneros como nos cineastas: filmou com Capra, Ford, Lang, DeMille, Preston Sturges, Hawks, Wilder, Fuller, para citar os «muitos grandes», ou com artistas como Wellman, Leisen, Mamoulian ou Litvak.

Era actriz. Aprendeu aonde? Estudou com Reinhardt ou com Stanislavsky? Nein, niet! Passou depressa pela Broadway e esqueceu mais depressa ainda, para se lembrar sempre que «os melhores professores são a experiência e a vida». E foi assim que, por quatro vezes, a nomearam para o Oscar da melhor actriz: Stella Dallas de Vidor, Ball of Fire de Hawks, Double Indemnity de Wilder e Sorry Wrong Number de Litvak. Nunca ganhou. Em Hollywood diziam sempre, como poderíamos ter dito na hora da sua morte, “a rainha foi roubada”.


quem é não gostaria de dizer adeus assim!

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a Uma noite no sótão: Barbara Stanwyck

  1. Rita V diz:

    esse seu sotão tem magia
    baús com magas
    alguma nostalgia
    verdadeiras sagas

  2. teresa conceição diz:

    Que sotão maravilhoso.
    Só tão?
    Não agora que o abre para nós.

    • manuel s. fonseca diz:

      E o teu sótão? Podias trazer-nos os teus oldies, logo tu que ainda és tão novinha.

  3. Pedro Marta Santos diz:

    Tenho para mim que a Stanwyck é uma das três ou quatro maiores de sempre, e talvez a mais esquecida: mais versátil que Bette Davis, mais complexa do que Joan Crawford e melhor actriz do que a – apaixonante – Bergman. Quem é que se safa com vida de três filmes tão diferentes (e tão dependentes dela como um junkie de heroína) como “The Lady Eve”(comédia, caviar beluga), “Double Indemnity (‘noir’, bourbon) e “Forty Guns” (western, ácido sulfúrico)? Boa homenagem, dottore.

  4. manuel s. fonseca diz:

    Velha homenagem, devias ter dito, young master! thanks man.

  5. Pedro Norton diz:

    Por estas e por outras é que eu não faço seguros de vida. Belo texto.

  6. Diogo Leote diz:

    E eu, que até tenho o Double Indemnity em casa, nunca lá vi a bracelete no tornozelo. Lá vou eu vê-lo outra vez. Ah, e se os membros da Academia tivessem lido o teu texto a tempo, tenho a certeza que a Stanwick ganhava o Oscar.

    • manuel s. fonseca diz:

      Diogo, já se viu que não és fetichista: há que olhar logo para os pés. Thanks man.

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