Uma noite no sótão: Luis Buñuel

Pormenores buñuelianos

Voltei ao sótão. Abri uma caixa de segredos inconfessáveis: pés nus, pés calçados, sapatos sem pés, uma gema de ovo, uma saia manchada. É a mais fetichista das caixas do meu sótão. Não é minha. Com uma vara ao lado, deixou-a Luis Buñuel, o menos espanhol dos cineastas espanhóis. Se bem me lembro a RTP 2 exibia, em Fevereiro de 1990, alguns filmes mexicanos de Buñuel. Eu tinha-os visto no ciclo que a Cinemateca e a Gulbenkian lhe dedicaram em Outubro / Novembro de 82 e escrevi um interminável lençol no meu honorável “Expresso”. Atrevo-me, com ligeiríssimas alterações, a republicá-lo.

 No México, a amarinhar pelas paredes

De 1946, com Gran Casino, a 1965, o ano de Simon del Deserto, Luis Buñuel, avatar do cinema surrealista (por mais que sacudisse, Un Chien Andalou e L’Âge d’Or agar­ravam-se-lhe às mãos), filmou no México a parte mais abun­dante da sua obra. Com a derrota das suas rubras cores na Guerra Civil de Espanha, Buñuel passou por frustrada tentativa de integração em Hollywood. Depois, desmentindo a sua repulsa pela América Latina — dizia sempre aos amigos: “Se um dia desaparecer, procurem-me em todo o lado, menos aí” —, instalou-se no México a convite de Oscar Dancigers, produtor a quem ficaria ligado, durante uma década, por filmes que causam, atendendo ao estatuto «artís­tico» de Buñuel, a maior perplexidade.
A fase mexicana de Buñuel é a mais importante da sua carreira e só foi interrompida por três incursões europeias: em 1953, quando, pela primeira vez desde os anos 30, regressou para filmar Cela s’Appele l’Aurore; em 1961, autorizado enfim a filmar Viridiana, em Espanha; em 1963, para inaugurar o «período francês» com Journal d’Une Femme de Chambre, início da sua ligação a Serge Silberman, outro produ­tor fundamental para o desen­volvimento da sua obra.
Sem a loucura surrealista dos seus filmes de Paris (Chien Andalou e L’Âge d’Or) e produzidos no contexto de uma indústria cuja «vocação» popu­lar, ou mesmo populista, era indesmentível, os filmes latinos, sobretudo os «mais mexi­canos» — porque num segundo tempo, e em particular a partir dos finais dos anos 50, Buñuel voltará a ter condições para ser «buñueliano» —, foram olhados desdenhosamente por quase toda a gente, atitude de resto encorajada, não sem alguma ambígua ironia, pelo próprio cineasta.

A saia de Susana não tem um lagarto pintado

Filmes alimentares, «comédias rancheras», melodramas ba­ratos, tudo se chamou a filmes como Susana, Demónio Y Carne, Subida al Cielo, Una Mujer Sin Amor ou La Ilusion Viaja de Tranvia. Os títulos, que títulos! são de amarinhar pelas paredes. Mas, fixando bem o olhar, houve quem detectasse «pequenas anomalias», nessas obras convencionalíssimas.
Por exemplo, em Gran Casino, um musical com duas estrelas da canção latina da época, Libertad Lamarque e Jorge Negrete, sem deixar de filmar essa espécie de “torneio a ver quem cantava mais tangos” em que os protagonistas se envolviam, Buñuel pontua os números musicais com, diz ele, “pormenores que me divertissem” – o que «diverte» Buñuel são quase sempre coisas simples como as pernas de cantoras, ou pequeninos acessórios, nada fetichistas, como pezinhos descal­ços ou calçados. No momento crucial do filme, quando Libertad e Negrete, que estão um para o outro como Maomé para o toucinho, se percebem apaixonados e vão cair nos braços e na boca um do outro, o cineasta, em vez do beijo, dá-nos um grande plano de uma vara com a qual Negrete remexe numa poça de lama. Buñuel fez-nos o favor de tudo explicar: “Não há um único beijo em todo o filme. Tratei a cena assim para evitar o momento de amor convencional e medíocre, o melodrama. ‘O senhor quer matar o meu irmão e por isso eu quero matá-lo a si. Odiamo-nos, mas no fundo amamo-nos… Meu amor!’ …e um beijo. Não podia ser. Dei uma vara a Negrete e disse-lhe que brincasse distraidamente com ela. Depois filmei um grande plano com uma mão que remexe a lama com a vara e intercalei-o na cena de amor para a depurar do mau gosto.” De certeza que a ideia de bom gosto de Negrete não era a mesma. Se tivesse percebido — não percebeu! — o que estava para ali a fazer, de varinha na lama, no mínimo, confes­sava Buñuel, «tinha-me dado um tiro».
Foi assim que Buñuel se estreou no México e, num crescendo, sem nunca perturbar o estatuto de produções industriais e populares, foi cada vez mais enchendo esses filmes do que queria e gostava. Um fetichismo exacerbado de pés, sapatos, espingardas, plumas, tudo servindo para produzir sentidos inespe­rados, ao ponto de ser duvidoso que uma gravata seja só uma gravata, e ao ponto de termos a certeza que um crucifixo não obriga ninguém a rezar de mãos postas. Um bestiário em que são centrais as galinhas, mas onde eventualmente avultam aranhas, porcos, éguas, vacas, pombas e ovelhas, para não falar de algumas monstruosidades humanas de que o cego de Los Olvidados surge como o mais terrível representante. E, final­mente, um erotismo e uma carnalidade omnipresentes, quer nas mulheres pulposas que escolheu para protagonizar Susana (Rosita Quintano), Subida ai Cielo (Lilia Prado “que fez estremecer a nossa adolescência”, confessam os críticos mexicanos) e El Bruto (Katy Jurado), quer nalguns dos mais escandalosos sub­entendidos sexuais que a história do cinema regista, da famosa cena dos ovos esmagados contra as coxas de Susana, a gema e a clara a abrirem uma grande rosa húmida no vestido, até ao leite de burra a correr pelas pernas da menina que o cego de Los Olvidados adorava sentar ao colo.

ao colinho ou seja ceguinho

Não vale a pena ignorá-lo — seria até contraprodu­cente — as condições em que Buñuel trabalhou no México nada têm a ver com as que tinham enquadrado o seu período surrealista, nem mesmo com as que depois, tendo voltado a ser um valor estabelecido, lhe foram dadas no seu «período francês». No México, e sobretudo nos dez primeiros anos, não filmou o que quis e muito menos como quis. Os apertadíssimos orçamentos, os tempos muito estreitos de roda­gem e a incipiência dos actores foram limitações reais que pesam no estatuto desses filmes. Mas, por outro lado, a menoridade implícita desses melodramas provocou no cineasta uma des­compressão que — e estou a correr por minha conta e risco — o fazem pela primeira vez apaixonar-se pelo cinema, convertido agora num fim, enquanto em Chien ou L’Âge d’Or fora sobretudo um meio.
Num quadro de convenções melodramáticas, Buñuel aprendeu a transgredir usando o próprio cinema, e fê-lo passando por cima das regras do campo-contracampo, explorando as possibi­lidades do plano-sequência, ou experimentando recursos como a câmara lenta que abandonaria na sua «obra séria» posterior. O próprio Buñuel confessaria, muito mais tarde, que “naquela altura a técnica me interessava muito e queria pô-la ao serviço do que contava, evitando sempre que um espectador se lembre que existe uma câmara.” Também escreveu, nas suas memórias, com o título Mi Último Suspiro, que, apesar de tudo, nesses filmes desigualmente apreciados, “nunca filmei uma só cena que fosse contrária às minhas convicções ou à minha moral pessoal.” Não lhe cabe a ele dizer, mas compete ao espectador verificar que, se finalmente o cinema de Buñuel é o cinema de um estilista, se afinal ele é muito menos um «poeta onírico» e muito mais um cineasta com grande controlo da construção dramática, é porque estes filmes mexicanos lhe fizeram a «mão», ensinando-lhe o valor de um olhar, ensinando-o a produzir inversões de sentido só pelo recurso a procedimentos técnicos, tornando-o enfim consciente do próprio cinema. Desobrigado pelas circunstâncias do pendor simbólico que dominara os filmes anteriores, dispensado ainda de fazer de cada filme a alegoria a que se forçaria nos «filmes pessoais» a partir de meados dos anos 50, o universo «buñueliano» surge talvez por isso mesmo ainda mais perversamente (porque é mais inesperada e irregular a sua aparição) nos filmes mexicanos. Se o mundo de Buñuel é sobretudo um mundo de sexo e culpa, um mundo cuja grande figura é a da frustração sexual, frustração que equivale ao seu profundo cepticismo moral, Los Olvidados, Susana, Subida al Cielo, El Bruto e El são os filmes onde esse universo se inscreve de forma mais espontânea, enquadrado por um realismo convencional. Porque é que aparecem tantas galinhas em Los Olvidados? perguntaram-lhe. A resposta, prosaica, é desarmante: “Há uma justificação realista. Pedrito tem aves de capoeira e trata delas.”

Não são aves de capoeira

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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13 respostas a Uma noite no sótão: Luis Buñuel

  1. Pedro Norton diz:

    ceguinho? tá bem tá…

  2. Rita V diz:

    pézinhos, coxinhas, colinho … uhm! que cozinhado
    salva-nos a vara a remexer a lama
    e afinal … nem as galinhas se safam
    (belo texto)

  3. Exmo Senhor de Fonseca

    Embora a polícroma Indochina do Senhor PN seja uma beleza, eu sou mais de sentimentos ocidentais que é como quem diz, sou mais de filmes. Face ao que precede, rogo a V.Exa se digne considerar a hipótese de franquear as escadas que ascendem a esse sótão, transformando-o num, direi, talvez, turismo de habitação para fins exclusivamente literários. Estou certa de que um fim-de-semana prolongado junto às palavras que V.Exa guarda por lá e traz aos olhos do mundo, quando se digna a compartilhá-las com o mundo, fariam muito pela desdourada escrita de qualquer escriba a quem os deuses não deram os dons que sobre V.Exa derramaram em abundância.
    Pede deferimento.

    Post- Scriptum: é só inveja, Manuel Fonseca, não se zangue comigo.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      eh,ehe,eh… Com os dourados que a Ivone já tem, não precisa mesmo de invejar ninguém..
      Grande ideia a do turismo de habitação para fins literários. Vai ter sucesso. Não diga é nada ao ministro Álvaro que ainda nos enche aquilo de pastéis de nata.

  4. Carla L. diz:

    Uau…nunca li sobre Buñuel assim, e nem perto chegaram outros autores.
    Amei, adorei, compartilhei e não esquecerei jamais.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Hello Carla, venha mais vezes. E ainda bem que gostou deste texto já veterano. tempos de cinemateca, bem vê…

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Claro que a menina gosta dele. E olhe que ele havia de gostar muito de si. Mas já vê pela amostra que a submeteria a alguns tratos, digamos, heterodoxos. Se não acredita, pergunte à Carole Bouquet que é sua vizinha aí na Sardenha…

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    mais um belo capítulo de seu livro. e se o tema ajuda, nem por isso devolve de automático a boa forma em que o argumento está posto. e há essa má vontade com a fase mexicana de buñuel. mas, sendo ele quem é, até se pode esperar as manhosas vendetas aludidas, enquanto o tema acha o autor, a medida.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Mas qual livro, Ruy? Alguma coisa que se compare à flexibilidade de um blog? E sim, dou-lhe toda razão nesses tempos paralelos: o das manhosas vendetas e o do tema achar o autor…

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel de certeza que o sótão está a subir de cotação mesmo nessas maldosas agências em voga… E que luxo este de termos a fabulosa história do cinema tão sabiamente escrita dia após dia…sexo e culpa dizem muito de Bunuel, e também dessa Espanha onde imagino Franco bem mais castrador que Salazar,

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Também acho, Bernardo, que Franco tinha um ferrete mais castigador… A propósito de sótãos, ninguém quer abrir mais nenhum…

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