Uma Voz que Chama

 

Leopoldo sentiu um estranho peso sobre a sua cabeça, como se estivesse a afundar num oceano de água espessa e escura. Escorregou na calçada molhada e estatelou-se no chão viscoso e escorregadio. Perdeu de imediato a consciência.

Quando recuperou os sentidos viu-se deitado numa enorme cama, submergido ainda com a roupa no corpo num colchão espesso, mas macio. Ouviam-se brados e gritos vindos da rua, através da alta janela do quarto envolto ainda numa meia escuridão, onde um candeeiro a óleo deitava um fumo cinzento de aroma adocicado.  O dia tinha nascido,  assim lhe dizia a luz do sol que aquecia e alumiava o quarto, deixando a revelar uma porta escura ao fundo, trabalhada em frondosos baixos relevos, a janela que se abria para uma varanda, e os tectos altos de madeira pintada. Apoiando o corpo numa bengala avançou até à janela. Olhou as casas em frente, superfícies escuras coroadas em telhados cinzentos, inclinados e luzidios. O largo com uma igreja de enorme torre sineira, as ruas numa azáfama de pessoas que se cruzam, atarefadas, com as carroças puxadas por bois.

Fechando os olhos ainda doridos tentou vencer o esquecimento e recordar o que se tinha passado, ou teria tudo sido um sonho? Alguém que o chamava, no bulício do largo da vila num dia de mercado. Era uma voz suave, contínua, que repetia o seu nome, e parecia vir de um dos lados da praceta, onde alguns vendedores se amontoavam em frente de uma casa avermelhada.

” Anda, tens de o vir conhecer, tens de o ver com os teus próprios olhos…”

E tu sem saberes o que se estava a passar.  O largo  numa sinfonia de vozes estridentes, o aroma a salsa e cominhos, o odor da carne seca e salgada, o peixe que de fresco tresandava a mar…

Sentia a cabeça como num sonho, turva de um nevoeiro matinal. Olhava a rua estreita ladeada de pequenas casas revestidas num tijolo escuro quase negro, vozes que gritavam, bocas que se abriam e braços a gesticular. Por um momento uma senhora de cara rugada e corpo avantajado,vestindo uma camisola com decote negro em forma de “v”, e um chapéu redondo vermelho, olhou-o nos olhos. Parecia falar directamente para si, mas Leopoldo não ouviu um único som. Apenas a voz que entoava no seu cérebro.

Foi-se aproximando, alguém que acenava, por detrás daquela parede de gente que vendia o peixe em cestos de vime e mesas rústicas de madeira. Mais gritos e mãos que se carregam de formas resvaladiças, cantorias afinadas ao som das vozes dissonantes.

Percebeu que era o centro das atenções, e das pessoas à sua frente. Assustou-se com a perspicácia do olhar de um homem de cara rude, uma barba rala na face escurecida pelo trabalho árduo, as manápulas gordas a sair de uns braços envoltos em mangas amareladas do tempo. Estaria assim com tão mau aspecto?

Alguém lá ao longe, uma silhueta que mais lhe parecia uma visão. Vinha dali a voz, que continuava a ouvir, metódica e controlada, na sua cabeça? A vista tombava-se-lhe, sentia uma enorme dor de cabeça, e não era costume ficar de dores pela bebida. Avançou aos tropeções, atravessando os cestos de arenques, cavalas  e imperadores, até se encostar a uma parede de tijolo escuro, sob um arco ogival bordado a pedra rústica.

A voz , a voz… Sentia-a mais forte, mais perto, longe da confusão que deixara para trás. Uma necessidade absoluta de atravessar o arco e continuar o caminho até aos arredores da vila.  Enquanto o atravessava, na sombra que manchava as parede húmidas,  Leopoldo sentiu outra vez uma estranha névoa que o envolvia. Sem esforço afundou nela o seu espírito.

O sonho recomeçou com um sabor salgado por baixo da língua.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

3 respostas a Uma Voz que Chama

  1. manuel s. fonseca diz:

    Há sempre (ou só em sonhos?) uma voz que chama, não há?

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Manuel acho que elas existem ( como as bruxas…) não só em sonhos, e às vezes são muitas que chamam cada uma para seu lado…

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Morte igual para a vida que se tem…só nos resta o silêncio ?

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