A Cabra

"Jovem Adulta", de Jason Reitman

Mavis Gary é uma escritora de 37 anos que qualquer homem cobiçaria – afinal, ela tem a cara e o corpo de Charlize Theron. Mavis é também uma sociopata. Recém-saída de um divórcio, Mavis é uma egoísta imatura que não gosta de ninguém excepto do canídeo minúsculo que a acompanha e de um namorado de adolescência, Buddy Slade (Patrick Wilson). O trabalho como “escritora fantasma” de uma colecção cor de rosa para jovens adultas está pelas ruas da amargura, e ela vive entre caixas de pizza, “reality-shows” e dois engates no bar mais próximo do centro de Minneapolis.

Mavis nunca cresceu – isso daria demasiado trabalho ao seu ego – e ignora a máxima de Cesare Pavese: “Nunca regresses ao lugar onde foste feliz”. Decide assim voltar a Mercury, a terrinha onde conquistou as glórias máximas da sua vida: o “gajo mais giro” (Buddy), o título de “rainha do baile” do liceu e a inveja das colegas por se ter tornado uma autora famosa na “grande cidade”. Como viver no passado é uma experiência singularmente dolorosa, Mavis não percebe que o mundo que preserva na cabeça já desapareceu, e o choque está a chegar.
A aliança entre o realizador Jason Reitman (“Obrigado por Fumar”, Nas Nuvens”) e a argumentista Diablo Cody, uma ex-stripper licenciada em jornalismo (“O Corpo de Jennifer”, “United States of Tara”) já nos dera “Juno”, um dos filmes mais originais da década passada, onde a revelação Ellen Page era uma adolescente grávida com apetites adultos e língua fulminante. Tanto Reitman como Cody gostam de personagens em grandes crises de identidade e crescimento, trabalhando numa espécie de “realismo irónico” que desmonta o “status-quo” e ridiculariza a hipocrisia do “american dream”. Mavis Gary estilhaça o cliché da beleza como instrumento de poder: neste filme, o facto da protagonista ter curvas de manequim e rosto de modelo não só não a ajuda como a prejudica (há 50 anos, em  “Bonjour Tristesse” de Otto Preminger, Jean Seberg, uma nobre antepassada de Theron, já demonstrava o imenso poder destrutivo da beleza oca, tão assombrada como uma caverna grega). Pelo caminho, “Jovem Adulta” corrompe também o paradigma da juventude como templo sagrado de prazer – é como se as personagens dos filmes de John Hughes nos anos 80 tivessem todas crescido e aprendido a lição, excepto Mavis. Esta “prom-queen psycho bitch” que Charlize Theron, a trabalhar outra vez contra a sua imagem, torna inesquecível (a falta de uma nomeação aos Óscares tornou-se enigmática) é uma das figuras mais patéticas do cinema americano contemporâneo, e já sentimos falta dela. Um filme muito cómico, muito cruel e muito aconselhável.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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10 respostas a A Cabra

  1. Margarida diz:

    Estava a começar a leitura e acode-me um pensamento: mas já li isto em qualquer lado!
    – hmmm, pois é, foi na…’Tentações’, essa mana fofa da ‘Sábado’, que colecciono com gosto.
    Aproveito o ensejo para lhe transmitir que aprecio muitíssimo as suas análises cinematográficas.
    🙂

  2. Pedro Norton diz:

    Anotado Mestre. Lá vou à procura.

  3. Diogo Leote diz:

    Pedro, tenho a impressão que é já hoje que vou seguir o teu conselho. Até porque nunca se pode dizer não à Charlize Theron.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    ah, charlize. que pena charlize não fazer logo uma stripper. já pensou, uma stripper sociopata? seria o máximo. e, de resto, ela já fez umas fotos de cair o queixo. esse negócio de escritora não enche barriga de ninguém. e logo a charlize theron de escritora: cola muito, não. agora, você se distancia escrevendo, pedro. é o menos especificamente português na escrita. e a escrita oscila entre algumas construções do inglês, algum brasileirismo. por que será?

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Os ingredientes são fortes e a antecipação também…vamos procurar …

  6. Teresa Conceição diz:

    Pedro, a releitura ainda soube melhor. Gosto que duplique os textos aqui. Uma moldura diferente dá outro ar ao discurso.
    Será que agora tenho de ir ver o filme duas vezes?

  7. manuel s. fonseca diz:

    A Charlize com promessas de Seberg? Vou ver, claro.

  8. Pedro Marta Santos diz:

    Espero que se divirtam, companheiros.

  9. Ana Rita Seabra diz:

    Obrigado pela dica!
    Vou ver já a seguir

  10. Pedro Marta Santos diz:

    Desculpe, Margarida! Esqueci-me de si. Obrigado pelos seus comentários. É sempre bom saber que há alguém do outro lado, a falar alto com os textos. Ana Rita, espero que ache entretido.

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