A case of Blake

Acaso houvesse um troféu para a melhor versão musical de 2011, este A Case of You*, que James Blake recriou a partir de um original de Joni Mitchell, seria um sério candidato.

 

E, se ninguém ainda se lembrou deste The Wilhelm Scream, do mesmíssimo James Blake, como candidato a melhor canção original de 2011, é porque andou distraído.

 

Falta dizer que James Blake, sempre ele, faz parte de uma novíssima geração de songwriters que, desde que haja um computador à mão (e, vá lá, um rudimentar piano eléctrico), não precisa de sair do quarto para compor e gravar. E que os seus 23 anos ainda têm muito para lhe oferecer. E ao mundo ainda mais, pois ou muito me engano ou é grande o risco de se vir a transformar no músico mais influente das gerações vindouras. Chamam dubstep ou pós-dubstep ao que o prodígio Blake faz. Parece que desta vez não é mais um rótulo como outros com que o jornalismo musical se tem entretido para iludir o esgotamento das fórmulas. Aqui, tenho de dar o braço a torcer: afinal, ainda há quem crie sons verdadeiramente novos e originais. Música do futuro? Talvez. Não se deixem levar  pelo aparente classicismo de A Case of You, vão mais pela experiência sensorial que é The Wilhelm Scream. Vão lá ouvir o álbum homónimo (sim, também um seríssimo candidato a melhor álbum de 2011) e não se espantem que não gostem à primeira. Aquilo estranha-se mas depois entranha-se. Eu já estou todo entranhado.

 

* Para os curiosos, a menina do video é a mui promissora actriz britânica Rebecca Hall, que já pudemos ver, entre outros, em Vicky Cristina Barcelona de Woody Allen.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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10 respostas a A case of Blake

  1. Pedro Marta Santos diz:

    Diogo, confesso que um amigo meu, que é dj e anda sempre montado no turf musical, me ofereceu o disco, mas ainda ando estranhado. Estou à espera desses efeitos auspiciosos que pressagias. Também não sou muito de confiar: a versão que prefiro do “Case of You” é a da Diana Krall… eu sei.

    • Diogo Leote diz:

      Pedro, espero que lá chegues, a esses efeitos auspiciosos. Quanto à Diana Krall, com quem já tive até o prazer de jantar, tem (e estou-me a referir só à música e nunca à sua simpatia pessoal) outro efeito sobre mim: adormece-me (o que nem sempre é mau).

  2. Fausto L. C diz:

    Caro Diogo,

    A ligação imagem/ musica/ rebecca hall é quase perfeita. Conhecia a musica mas não conhecia esta versão. Faz lembrar um pouco o bonnie prince billy. Excelente momento. Obrigado.

    Um abraço,

    Fausto

    • Diogo Leote diz:

      Caro Fausto, ainda bem que gostou. Embora numa linha diferente dos caminhos alternativos de James Blake (dos quais esta versão do A Case of You não constitui exemplo, mas o The Wilhelm Scream, esse sim, já o é) também gosto do Bonnie Prince Billy. E quase que aposto que o Blake também gosta. Quem gosta de Bon Iver (e Blake tem uma bela música em conjunto com Bon Iver) gosta do Bonnie.

  3. MJC diz:

    Foi amor à primeira vista. Vou comprar para poder degustar..

    • Diogo Leote diz:

      Fico contente que tenha contribuído para um seu amor à primeira vista, cara MJC. Eu não fui tão rápido: andei a estranhar e só para aí à terceira ou quarta audição me deixei entranhar.

  4. MJC diz:

    Foi amor à primeira vista. Vou comprar para poder degustar..

  5. Rita V diz:

    Diogo
    1977

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