A História é uma rameira

Retrato de Santa Verónica (detalhe). Robert Campin

Já vos disse, um dia destes, que sem Giotto a pintura a pin­tura teria ficado plana para sem­pre, a ilu­são do espaço nunca teria sido, Bizân­cio não teria lar­gado mão da arte oci­den­tal e o mais certo é que o Renas­ci­mento não viesse a nas­cer. (*)

Mas a história da ilusão do espaço na pintura ocidental não acaba com Giotto. Até ao século XV a pintura fazia-se de painéis de madeira e de pigmentos moídos e temperados com clara de ovo. Por muito que Giotto apontasse o caminho para a afastar das bizantinices passadas, até ao século XV a pintura fazia-se, continuava a fazer-se, de estridencias bidimensionais.

É só com as experiências a óleo que a pintura liberta todo o potencial para sugerir perspectivas complexas, para modelar suavemente luz e sombra, para fazer evoluir as cores numa escala continua de matizes. É só com a diminuição drástica dos tempos de secagem, permitida pela viscosidade dos óleos, que a pintura conquista, verdadeiramente, o direito à tridimensionalidade.

A ironia desta história é que a invenção da pintura a óleo ficou, desde muito cedo (O Tratado do Pintor, Karl Van Mander – 1548 – 1606) a crédito do famoso Jan Van Eyck. Ironicamente obscurecido na sombra da fama ficou sempre o misterioso Mestre de Flémalles que, já o século XIX ia longo, não tinha ainda ganho direito a nome. E foi só no nosso século (que ainda não é este mas o passado) que a história se reconciliou com o homem que nos deu todas as velaturas e impastamentos do Mundo.

Robert Campin ia não sendo. A história, também já vos disse, é uma rameira.

(Estas afirmações tonitruantes, além de irritantes, são perigosas. Não sou, nunca serei, nada que se pareça a um especialista na matéria. Limito-me a fazer, no tempo livre, umas ratatouilles com Vasari, Janson, Gombrich e outros ingredientes de que já me esqueci).

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a A História é uma rameira

  1. Pedro Marta Santos diz:

    É bom ler um post bem escrito onde se aprende alguma coisa. Uma história da arte ocidental traçada e matizada na evolução “tecnológica” daria um esplêndido livro (se o conheceres, diz-me). O mesmo aconteceu no cinema: “A Bout de Souffle” e Godard nunca teriam existido sem a invenção de câmaras mais leves e portáteis em meados dos anos 50 – o responsável por essas descobertas técnicas foi um Saturno chamado televisão…

  2. Pedro Norton diz:

    Tks Pedro. E agora que falas nisso, porque não escreves tu um livro sobre a história do cinema traçada na evolução tecnológica? Toma aí nota de uma pré-encomenda.

  3. Teresa Conceição diz:

    Pedro, esta é uma História da Arte que falta ser feita. Até para descobrir outros secretos Campin. Desgustei com prazer.

  4. manuel s. fonseca diz:

    Gostei muito PN. A do cinema já existe. Levei dois a lê-lo e mastigá-lo na Cinemateca: Film Style and Technology: History and Analysis by Barry Salt. Tem coisas geniais.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    A historia é mesmo uma rameira, lembra-se apenas daqueles que a escrevem, outros afundam-se na escuridão do tempo. Alguns ainda são resgatados como o teu Campin, e outros mal entendidos como Masaccio que entendeu melhor que todos o passo gigante de Giotto.

  6. Rita V diz:

    uma rata­touil­le bem temperada

Os comentários estão fechados.