A importância da cuíca na orquestra de câmara

 

DEDICADO AOS PRESIDENTES DA SÍRIA, RÚSSIA E CHINA

(nota prévia: este texto foi escrito no final de 1999 mas remete para memórias que na altura já tinham mais de duas décadas; tudo o que aqui reproduzo aconteceu de facto, sendo que reencontrei agora a personagem principal desta história no insuspeito Google, onde fui informado que o brasileiro Ezio Hélio Bovino – tal era o seu majestoso nome – foi, entre 1971 e 1973, vogal da Fundação  das Ciências Aplicadas)

Adormeci no meio do smog de Blade Runner e acordei com o obsessivo bailado de areia no ecrã da velha Sony, que me apareceu por entre as lágrimas do acordar como uma enorme colmeia cheia de abelhas tontas, bêbadas do próprio mel. A zumbir como um milhão de berbequins microscópicos, cheios de mensagens geométricas, histéricas, milimétricas.
A cambalear ainda, desliguei a TV e recuperei gravidade aparente no assento da minha velha cadeira florentina (uma réplica razoável, pelo menos) em frente do outro ecrã da sala: o do computador. Diz-se para aí que é a janela do futuro, mas eu sei que de facto isso não é bem verdade – porque já vi o futuro e ele não existe num ecrã. E a tal ‘janela’ não reside num aparelho mas sim na elasticidade da mente. Não na velocidade e diversidade dos programas. Porque há uma guerra latente baseada numa questão estúpida, muito difícil, mas também estimulante e inteligente, resumível numa simples pergunta que cada um pode fazer a si próprio: – E se eu não quiser, se não estiver para aí virado?!…
Há-de se chegar a um entendimento qualquer, suponho. A não ser que esteja enganado – o que também é possível. acontece-me muitas vezes.
Entretanto a madrugada madrugou: são duas e meia da manhã e vejo pela janela uma espécie de dia que se inicia de repente sem o anúncio dos pássaros. A noite foi inundada por uma luz súbita, turquesa brilhante, rapidamente absorvida pelo negrume da hora vindo do oeste, consumida no horizonte evidente do mar. Uma beldade vestida como uma aurora boreal, mas rápida de segundos – como uma mulher que ainda não sabe que o é.
O bug do ano 2000 estava atrasado – se era isso que a anormalidade do momento pretendia. Ainda pensei num ICBM* desgarrado, o que me assustou deveras no pouco tempo que o fenómeno durou. Não consegui perceber o que provocara o belo clarão, mas vira a minha sombra demarcada a leste num mar de luz celestial.
Estamos a 21 de Fevereiro de 2000 e todos os mainframes estão actualizados – como laicos e agnósticos profetas da desgraça não confirmada, subitamente seguidores da matriz ecuménica de um mundo a caminho da perfeição através dos ritos gerais da matemática aplicada à electrónica. E ao negócio da chulice do homem pelo homem, como de costume.
Apesar do vírus do amor, nada de erros: as datas batem certas como relógios de cuco.

Depois de confirmar que o mundo mais uma vez não tinha acabado, Lamas desistiu do trabalho que pensara iniciar, desligou o computador e foi dormir.
Sonhou com a decrepitude da publicidade, essa rata ditatorial que começou como mediadora entre o comércio e a indústria mas que agora substitui os dois anteriores parceiros por um único administrador-geral da sua confiança. E com a descredibilização das sondagens devido à emancipação do ser. E com outras catástrofes socio-económicas paradoxalmente positivas, o empobrecimento dos subitamente ricos e novos e caudalosos rios na vida das pessoas. Sonhou também com um estranho diálogo surdo, velho de muitos anos, que tivera com um verdadeiro fabricante de armas.
O homem, brasileiro, já bem passado dos cinquenta, tentava uma forte operação de charme junto dos parentes portugueses da sua namorada. Contraparente da futura mãe de Luísa, Palmira jogava a sua apenas bela cave pessoal num futuro confortável e seguro ao lado do animalejo com polvorinho.
Lamas acabara de chegar de Angola. E ali, naquela circunstância especial, houve lugar a luta verbal mais ou menos aberta:
– Você fabrica e vende balas e armas, minas?…, daquelas que imitam brinquedos, que as crianças pegam logo? E gosta do negócio?, perguntou Lamas, desafiando o polvorinho – que se gabara minutos antes de ter emagrecido setenta quilos em três meses, como se isso fosse fundamental para o bem estar da Humanidade.
– E dorme bem?, insistia o futuro ex-bibliotecário.
O indivíduo escondeu de forma desengonçada a sua irritação, explicando que a sua indústria era lícita, «que outros o fariam se nós não o fizéssemos». E considerava a questão como mera picardia entre as fraquezas e as forças emergentes do pacifismo suicida da civilização ocidental.
Lamas achava que não – de todo!
Mas sem saber muito bem como montar a sua teoria – que se baseava na prática e não na benevolência hipócrita e distante do incendiário que alimenta o fogo sem sequer lhe conhecer as faúlhas. Argumentava em contínuo com exemplos práticos, sem mesmo reparar no desagradável da situação que criara em termos sociais. Especialmente do ponto de vista do brasileiro.

No dia seguinte, logo ao acordar, lembrei-me imediatamente do resto desse encontro real nunca repetido.
No final do jantar e do serão, encurtado pela minha irredutibilidade, já de saída, o pequeno armeiro mundial confessara-me – só a mim – uma actividade pessoal mais do que improvável numa pessoa do seu calibre:
– Escrevi um livro que lhe vou mandar mal saiba sua morada. Chama-se A importância da cuíca no contexto da orquestra de câmara… Sei que ocê vai gôstar!, frisou no seu pórtuguêss mêlado.
Na altura não percebi nada daquilo, e até cheguei ao ridículo de agradecer a gentileza da pretensa oferta.
Mais tarde soube que o animalejo largara da noiva – ou o contrário, o que é muito mais bonito. E mais tarde ainda percebi finalmente que o livro nunca existira.
E que a cuíca era eu.

* (ICBM: intercontinental balistic missile)

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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3 respostas a A importância da cuíca na orquestra de câmara

  1. António Eça de Queiroz diz:

    É verdade, Eugénia, também eu tinha 24 aninhos e o tipo era um animalejo com polvorinho.
    Mas não levou a garina, ficou a chuchar no dedo!
    Sempre foi uma vitória moral, conceda…

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Eu acho, António, que nunca dormem bem. Gostava é que não fosse apenas o meu lado sacrista a fazer-me pensar assim e que a treta da realidade me fosse, de vez em quando, dando alguma razão.

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