A primeira hora

 

 

– Falar… De qualquer coisa?…
– Sim, daquilo que lhe apetecer. Deixe correr.
– Bem…, assim de repente só me vem à cabeça um filme que vi ontem, Driving Miss Daisy…, gostei muito do texto…, eles dois são óptimos, percebe-se bem que o filme tenha ganho uma data de prémios…
Uma coisa que me divertiu e que só ontem me apercebi  da sua realidade, digamos… , o ar bem arranjado, com as coisas todas nos devidos lugares, a organização quase ingénua da classe média americana do pós-guerra, de meninos bem comportados. Neste caso judeus, o que também ajuda…
– Como assim?
– Ah…, sei lá!, uma mistura de formalidades, por exemplo a religiosa, e a inevitável tentativa de copiar um certo classicismo britânico… Embora o Sul não seja um exemplo… História óptima, sem dúvida, e um retrato de época magnífico.
– A imagem… É cinéfilo?…
– De todo…, gosto de ver aquilo que acho que é um bom filme, mas não vou a uma estreia, e de nome só conheço meia-dúzia de realizadores. Sou mau a decorar nomes… Gosto muito é de pintura.
– Isso é bom. Algum género em especial, ou um quadro em particular, ou pintor?…
– Uma infinidade de todos. Mas porque pergunta isso?
– Porque sim. Portugueses, por exemplo…
– Dos portugueses?… Há vários. Mas tenho um amor quase secreto, uma queda especial, por uma época da pintura portuguesa, a da transição do século, último quarto de XIX e primeiro do século XX…
– Porquê?
– Essencialmente porque há quadros muito bons, belos quadros, com temas bem portugueses, o Pousão, Sousa Pinto, a Aurélia, o Malhoa…, olhe!, o rei D. Carlos…, Carlos Reis… São uma data deles… E depois, mais à frente, numa versão mais impressionista, o Fausto Sampaio, Falcão Trigoso… Gosto muito, aliás tenho uma pequena colecção de pintura portuguesa.
– Interessante… Gostava de o ouvir falar dum quadro dessa época, do Columbano. Gosta, suponho…
– Mestre Columbano, claro, era uma família e tanto, esses Bordallo Pinheiro. Qual é o quadro?…
O dr. Telo Alves Marrano levantou-se do seu trono de especialista e procurou, junto a uma estante não muito carregada onde imperava ao centro, num desnível próprio para o aparelho de televisão, uma pormenorizada miniatura de escuna, muito branca, e escolheu de um lote encostado à parede uma cartolina dura onde se encontrava reproduzida a imagem do quadro Convite à Valsa, que colocou num cavalete estrategicamente orientado.
Depois voltou à poltrona.
E aguardou.
– Francesismo natural, bom, gosto muito… O Naturalismo em Portugal, e talvez até noutros lugares, é um Realismo do Romantismo, uma espécie de antecipação trágica da imobilidade de certas coisas, talvez tenha algo de fado… É suave. Gosto muito mas não o queria para mim…, quer dizer, não o comprava. Outros dele, certamente…
– Muito bem… E então qual é o incidente?…
– Incidente?!…
– Sim, a razão porque está aqui. Não foi para falar de pintura, embora eu também goste muito. Só que por isso não posso passar recibo…
– Ok, percebi… Incidente… Olhe, aconteceu-me uma vez uma coisa, em miúdo… uma zanga parva… Enfim, irritei-me imenso com uma pessoa de quem gostava muito, tanto que por momentos  quis…, olhe, que desaparecesse!…
Acho que horas depois já nem me lembrava desse disparate, mas no dia seguinte ele tinha morrido.
– Ele…, estou a perceber. Mas isso não é um incidente real, é apenas o cenário. Do seu incidente…
O psiquiatra aguardou calmamente que o seu novo cliente carburasse de forma conveniente na nova descida.
Aguardou.
Por fim:
– Não acredito em nada!…
– Niilista?…
– Também não… Acho que algo me obriga a sentir que aquela realidade que vejo, que conheço, que sinto, que apalpo, não é a minha realidade…
– Como assim?
– Como se estivesse dentro duma espécie de escafandro, flutuando numa espécie de realidade virtual…
– E nisso o senhor acredita, portanto…
– Nisso acredito.
– Então já acredita em alguma coisa, é uma consciência viva de um determinado tipo de realidade.
Pausa.
O dr. Telo Alves Marrano:
– Se reparar, se olhar bem para os seus quadros, um de cada vez, durante um bom bocado, talvez consiga compreender que todos aqueles pintores de que o senhor tanto gosta se limitavam a reproduzir uma situação em tudo semelhante à sua…
– Mas eu não sou pintor…
– Quem lhe disse isso?

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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24 respostas a A primeira hora

  1. querido António que divã tão rico e preenchido, um Béla Bartók perfeito para acompanhar um texto que apetece ir esmiuçar no pormenor.

  2. Luciana diz:

    Antonio, querido, o suceder de pensamentos ao ler seu texto foi de montanha-russa: “mas, ó lá, como ele vai fazer dois velhinhos americanos chegarem ao quadro?”, “ih, pintores, foi bem, que aula, já estou a aprender tanto”, “ah, psiquiatra, agora que esquenta mesmo” “e que pergunta final bem arranjada!”.

    Uma bela de uma viagem, como se diz por aqui, e que porto melódico esse a que se chega

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Luciana, eu estive a ver o filme mesmo antes de me sentar para escrever…
    Depois tentei atrasar ao máximo a definição do cenário.
    Ainda bem que gostou da pergunta – acho que se pode fazê-la a muita gente e em muitas situações.
    Esse Bartók específico foi um achado feliz.

  4. Panurgo diz:

    “– Isso é bom. Algum género em espe­cial, ou um qua­dro em par­ti­cu­lar, ou pin­tor?…
    – Uma infi­ni­dade de todos.”

    Esta é de livro.

    “Realismo do Romantismo” ahaha

  5. teresa conceição diz:

    António, que saudades já tinha dos seus diálogos.
    É mesmo conversando que se chega a algum lado.
    Gosto sempre de deambular nas suas linhas.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Uma viagem , pela América de miss daisy ( apanhei também ontem na televisão, mas só parte, pela primeira vez…), pela pintura, psicanálise, e terminando outra vez na pintura. Parece fácil, e dá grande gozo a ler!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Bernardo, às vezes até é fácil, mas só vale quando dá gozo a nós e aos outros (mas isso já sabe, claro)

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Sempre me palpitou que os pintores tinham de pagar uma nota preta em divãs… E tu saíste-me um impecável motorista, com maneiras de Morgan Freeman. Muito bem conduzido.

  8. Concordo consigo António, “só vale quando dá gozo”. E você não imagina como foi bom ler essa delícia de texto numa tarde que parecia estar destinada a ser apenas fria e desinteressante. Portanto, obrigado! Parabéns! Melhorou muito a “realidade virtual” do lado de cá…rs!
    Fico a aguardar novos textos.
    Abraço!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Amigo Renato!, há que tempos que não lhe faço uma visita aí em Braga…
      Ainda bem… que lhe deu gozo, fico muito contente.
      Grande abraço!

  9. Caro António, não me leve a mal o estilo quasi-burocrático com que vou comentar o seu texto, mas assim dá-me mais jeito par lhe dizer o que quero dizer:
    As horas da psicologia clínica, da psicoterapia, são tradicionalmente horas de 50 minutos; quer dizer são horas incompletas, que deixam implícito que alguma coisa fica por acabar, que, dedutivamente, incitam o paciente a ser capaz de viver com o sentimento de falta de alguma coisa, de incompletude, sem que isso lhe impeça, quase paradoxalmente, de experimentar o sentimento de plenitude.
    Acusarão a psicologia clínica e a “psiquiatria de conversa” de que “Aqui está o discurso de volteio – quase me apetecia acentuar, de “volteio rabujador” – de quem se vale das palavras para justificar o que não se consegue explicar com (mais) objetividade. Por mim, defendo-me dizendo que a falta de lógica aristotélica ou cartesiana não é fraqueza do clínico; isso sim, é natureza irracional do ser humano que somos todos; antes de mais, os pacientes que procuram ajuda.
    O enredo que o António faz desfiar na forma de uma consulta, a primeira consulta, a primeira hora – a tal, incompleta! – faz-me lembrar o que, antes de todos, Winnicott disse sobre as horas dos encontros clínicos: a estrutura desses momentos cria um espaço (virtual) em que o fluir mental de ambos – o paciente e o clínico – se encontram num processo que tem muito de satisfação narcísica para ambos, e esse narcisismo partilhado – ou melhor, construído a dois – tem valor curador, reconstrutor, de personalidades fragilizadas.
    Este espaço “transicional” (era assim que Winnicott o designava) é muito evidente no seu texto, tornando a “consulta” verosímil e no vai-vem dos afetos implicados nas trocas verbais, que refletem muito “corretamente” a censura e a compreensão que a liderança do diálogo pelo personagem psiquiatra manifesta aqui e ali, com a autoridade que o seu número de associado da Ordem lhe confere. Por exemplo, parece-me magistral a reação do paciente ao dizer que não comprava aquele quadro. Repare-se: ele, a pedido do psiquiatra, fala dos “seus” pintores portugueses. A seguir, o psiquiatra continua o diálogo como que dizendo: “Esses não interessam, este é que interessa, o Columbano…” Há uma censura ou desvalorização implícita do psiquiatra sobre o paciente, precisamente depois de ter ter sido ele a pedir a opinião ao paciente!… É, isto não se faz!… Mas, ao fazê-lo, mais não faz do que confirmar a sua parte de narcisismo partilhado naquela hora de 50 minutos. E o que “devolve” o paciente?… É como se dissesse: “Sim, é interessante, mas não para mim, eu não o comprava… comprava outros”, ou seja, “ficas na tua, eu fico na minha, está descansado, eu não gosto desse, mas gosto de outros columbanos, vamos continuar a “narcisar-nos” um com o outro.
    Notável é também a sequência do “recibo”! Ora veja-se: o psiquiatra começa por dizer: “Vá, fale de qualquer coisa…” “OK, vamos falar de pintura…” Mais tarde: “Bem, você não veio para aqui falar de pintura, porque veio cá?…” E o paciente responde que se lembra que se irritou e que queria que o outro desaparecesse. Por mim, aposto singelo contra dobrado que era isso que ele estaria precisamente a sentir sobre aquele psiquiatra! “Então, pus-me a falar de pintura porque me disseste para falar de qualquer coisa… não quiseste saber porque vim cá… e agora censuras-me por estar a falar de pintura e perguntas-me de forma bruta porque vim cá eu?… Bem!… Já me estou a passar contigo! Começa-me a apetecer desaparecer daqui!…” E que responde o psiquiatra? “Estou a perceber.” (!!!) Não é notável isto? Claro que é!… “Isso é só cenário.” (!!!) Quer dizer, é só reação a qualquer coisa que está a acontecer aqui entre nós.” E que diz o paciente?… Que não acredita em nada! Bem, que melhor resposta poderia o paciente dar, podendo ser ligada diretamente ao problema que o levou ali e, ao mesmo tempo, ao envolvimento narcísico de compreensão e censura em que o psiquiatra o tinha enleado?…
    Finalmente, a última expressão do narcisismo contagiante de que fui tomado pela leitura do texto: “Mas eu não sou pintor… (tradução para “psicoterapês”: Mas o meu sofrimento é real, sinto-o; não é uma invenção.) “Quem lhe disse isso?” (tradução para “psicoterapês”: Não, o sofrimento neurótico é uma construção pessoal.)
    Só mais uma pequena nota, sobre os nomes do filme e do quadro: “Driving Miss Daizy” não tem muito de narcisismo partilhado?… “Convite à Valsa”, a mesma pergunta.
    Caro António, a hora do serão no final da semana de trabalho, de roupão bem aconchegado e chinelos forradinhos para parecerem quentes não dá senão para isto: pensamento a fluir quase sem esforço crítico e exigente de uma melhor forma. Gostei muito do seu texto, António! Gostei muito de brincar com ele. De brincar como brincam as crianças as suas brincadeiras: fazem-no como coisas que são as mais dedicadas das suas vidas, cheias de empenho e de prazer.
    Abraço rijo, com calor bastante a desafiar o frio que se sente chegar aos ossos!

  10. António Eça de Queiroz diz:

    Caro Fernando, depois desta sua cuidada descodificação, desta vivissecção do meu pequeno jogo de espelhos, só me resta dizer que a fantasia por vezes tem mais mistério que muita e vasta ciência (mistério é palavra fácil demais, como diria o meu ‘amigo’ Patrice du Pin…).
    (e agora o truque literário…)
    A verdade completa, Fernando, é que além de Narciso também já fui Goldemundo…
    Grande abraço, o seu comentário é uma delícia!

  11. Belo texto, monsieur Antoine: isto de trabalhar diálogos numa quase ausência de narrador é obra de mestre. É coisa de discreto motorista a conduzir velha beldade do sul ou de par solícito em valsa rodopiante. Sente-se o leitor conduzido e muito bem conduzido.

  12. António Eça de Queiroz diz:

    Para mim a quase ausência de narrador confere ritmo (e espaço/tempo) ao diálogo, onde se expõem os ambientes.
    O narrador murmura uma frase, a dar um tom real ao cenário.
    Chega perfeitamente.
    Ainda bem que gostou, isso faz-me bem.

  13. ana maria azevedo diz:

    Não podendo igualar, nem na forma nem na riqueza do conteúdo, os comentários anteriores, só me resta dizer que o seu texto me maravilhou. Muito obrigada por o ter partilhado!

  14. maria leao diz:

    Escreve tão bem!

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