A Terceira Morte de Clint Eastwood

"J. Edgar", de Clint Eastwood

A morte artística de Clint Eastwood já foi anunciada duas vezes. Não me apraz anunciar a terceira: Eastwood, um dos raríssimos realizadores contemporâneos capaz de ombrear com os gigantes da “idade de ouro”, está outra vez num beco sem saída. A primeira vez foi no final da década de 70. Após uma estreia prometedora (“Play Misty For Me”, em 1971), parecia condenado a alternar thrillers soporíferos com westerns brilhantes, assombrados pelos fantasmas de Anthony Mann e Sergio Leone (à mistura, ia protagonizando arraiais de pancadaria em matadouros, onde a personagem mais inteligente era um orangotango chamado Clyde). Depois, em 1985, chegou “Pale Rider”, outro western, tão bom que faz empalidecer “Imperdoável”, e logo a seguir “Bird”, o “biopic” de Charlie Parker – a crítica europeia descobre-o, e nasce um novo Eastwood. Durou 9 anos, até “Poder Absoluto” levantar novamente dúvidas: será que é justo invocar o estatuto de génio a propósito do realizador de “Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal” ou de “Cowboys do Espaço”? Em 2004, “Million Dollar Baby” – um filme tão comovente que parece o fim do Cinema – voltou a dissipar a incerteza: Eastwood é o último dos humanistas.
Pois bem, “J. Edgar” relança a pergunta: o rei está morto? Depois de “Invictus”, essa espécie de telefilme geriátrico, e de “Hereafter” (uma obra sobre o Além que parece saída do cérebro de Nicholas Sparks para as mãos de Claude Lelouch), “J. Edgar” é hesitante, frouxo, académico – o oposto do classicismo eastwoodiano – e, pior, desonesto. Relatando meio século na vida de John Edgar Hoover (DiCaprio), director do FBI entre 1935 e 1972, Eastwood, no seu saudável desejo de equilíbrio quanto às ambivalências humanas, traça o retrato de um mitómano,  um homem cheio de falhas, sim, mas não menos do que um visionário – precursor das impressões digitais na investigação criminal, inovador das ciências forenses, gestor brilhante, a lista é longa. Acontece que Hoover era um catálogo ambulante do Inferno, postal vivo de reaccionarismo, trafulhice, mentiras e ilegalidades. Escutas não autorizadas, perseguições “ad hominem”, prisões e deportações sem provas, Hoover era o inimigo nº 1 dos direitos civis, o obsessivo-mor da histeria anti-comunista, o paladino dos “bons costumes” (perseguiu Eleanor Roosevelt por inclinações lésbicas apesar de ele próprio gostar de usar saias e soutien). Nada disto é ocultado em “J. Edgar”, mas tudo parece a face acidental de um homem que se dedica ao serviço público e a uma certa grandeza de destino. Há um mecanismo narrativo, tão antigo como o cinema sonoro, que visa contornar este problema estrutural: a “voz-off” do protagonista, numa ironia auto-laudatória em que todas intenções são bravas e nobres, e todos os actos o oposto dessa nobreza e dessa bravura. Mas são 137 minutos deste esquema, e Eastwood deveria saber que, no cinema, as imagens engolem as palavras como ondas iradas de um oceano. Surge mesmo a explicação freudiana: que dizer quando a cena mais forte de “J. Edgar” é a mamã (Judi Dench) a dizer a um Hoover de 35 anos que prefere “um filho morto a um filho larilas”?  O grande Clint Eastwood sempre ressuscitou. Esperemos que seja já no próximo filme.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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8 respostas a A Terceira Morte de Clint Eastwood

  1. João Almeida Amaral diz:

    Com o respeito que devo ter por outras opiniões, diria que Clint como todos nós, tem momentos bons, médios e mediocres. O difícil é aceitar que os momentos bons , os momentos altos, são os mais raros em todos nós.
    Clint é e será sempre um grande da 7ª Arte.

  2. Pedro Norton diz:

    Pedro,
    Como acho que já te tinha dito num comentário abaixo, estou totalmente de acordo. Medíocre. Tal como o Invisctus e o Hereafter. Só não concordamos numa coisa. Hereafter parece saídinho da cabeça do teu Shyamalan…

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    E ainda dizem que as críticas a malhar não levam gente ao cinema. Hm, hmm, hmmm, e não é que me vais obrigar a ir ver.

  4. Fausto L. C diz:

    Caro Pedro,

    Infelizmente concordo consigo. Ainda assim vou ver (obviamente) o j.edgar. No entanto, depois de Million Dollar Baby ainda tivemos as Cartas de Hiroshima e o fantástico Gran Torino (que obra prima). Depois sim, a meu ver, começou a descer. Alguns falam na idade como um dos factores para a quebra do olhar “sharp”. Talvez concorde.

    abr

  5. Pedro Marta Santos diz:

    João Almeida, tem toda a razão. Mas aos grandes perdoam-se sempre um bocadinho menos os momentos infelizes (ainda hoje se malha no Hawks a propósito de “Rio Lobo” e “Red Line 7000”, ou em Preminger a propósito de “Rosebud” e “The Human Factor”. Acontece aos melhores. Caríssimo Pedro, o pobre do Shyamalan anda muito calado ultimamente (mas olha que o rapaz nunca faria aquele final na esplanada da Rive Gauche com os violinos a puxar à lágrima). Doutor, é sempre um prazer levá-lo para o escurinho do cinema… Rita, espero que não venha muito desiludida. Fausto, não há dúvidas de que o “Gran Torino” é um filmaço. Cumprimentos.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Caro Pedro, Torino ofusca os últimos sem qualquer dúvida…com tão prolífera produção há-de haver uns fracos…”Letters from Iwo Jima” é também um filme muito bem conseguido na minha opinião. E agora também tenho do ir ver…obrigado pelo desafio…

  7. Paula Ferreira diz:

    Pois, e com este post, mais os comentários que faremos com os amigos, quase enchemos uma sala de cinema. (“juegos de manos, a la sombra de un cine de verano, juegos de manos, siempre daban una de romanos”).

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