A última valsa

F. não podia saber. Todo ele era ele­gân­cia, boas manei­ras. Car­tola, luvas, colete. Uma impe­cá­vel edu­ca­ção de cetim. Mili­mé­tri­cas sui­ças, bigode finís­simo, um ar de graça per­fu­mado. Uma silhu­eta negra arque­ada em ben­gala, uma pureza alva a voar-lhe do lenço. Masculina beleza em plas­tron engo­mado. O valha-me Deus de todas as meni­nas que se que­rem meni­nas. Paris em Lis­boa. A insus­ten­tá­vel leveza de uma Viena ape­nas sonhada.

E depois o con­vite. Segun­dos que pare­ce­ram horas, um ritual mil vezes ante­ci­pado, uma sobran­ce­lha cur­vada e o assen­ti­mento nervoso. A valsa. Lenta. Um des­li­zar leve, uma volta suave, um con­tra­volta severa, uma con­du­ção segu­rís­sima. O tempo e o espaço a fazerem-se só um. Luvas e pedra­rias per­di­das no calor de uma mão de cava­lheiro. Um passo em qua­tro movi­men­tos ape­nas. O arque­jar do decote, o salão sus­penso, os olhos do mundo pre­ga­dos na pro­messa que eram os dois e, num fugi­dio repente, o voo tão ansi­ado. Pla­nado, rasante, noc­turno, enla­çado, imen­sa­mente livre. A vida a trote, a mar­ca­ção intensa, um olhar de fugida, o corpo tenso, a alma a fugir de coupé. E logo um passo de espera, a terra a sus­pen­der o cir­cu­lar movi­mento, o tempo core­o­gra­fando, por um ins­tante, o silên­cio. Um nada bre­vís­simo. Para logo regres­sar aos ares numa flui­dez de garça. Quarto de volta à direita, quarto de volta à esquerda, o soa­lho desa­bando, a noite a entrar fresca pelas jane­las imen­sas, o ar espesso de camé­lias, o olhar cha­me­jante. A vida a fazer-se pro­messa, o futuro ganhando con­tor­nos de hoje, a feli­ci­dade feita valsa a dois tempos.

M. não podia ima­gi­nar. Ainda a noite era noite, ainda a valsa lhe emba­lava o sono de mar­ro­quim e já F. era nada. Um regresso que nunca seria, um roubo de três vin­téns que era um assalto a toda uma vida. Um assomo de incon­se­quente galhardia. O fais­car de uma lâmina, o espaço branco de um tro­vão de pól­vora numa esquina de Lisboa. Um cadá­ver adi­ado, corpo trans­pa­rente de uma fri­eza azul. Os olhos baços e a boca entre­a­berta a escor­rer de abelhas.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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18 Respostas a A última valsa

  1. Carla L. diz:

    Então foi ele que vi dan­çando sobre as covas de um antigo e muito que­rido cemitério!!!

  2. MJC diz:

    Levan­tou voo e foi vadiar em busca de todas as pedra­rias em dedos trémulos …

  3. manuel s. fonseca diz:

    Bem dan­çada a enla­çada valsa e, de repente, num rufo de Max Ophuls, o clí­max cir­cense: um tro­vão, um corpo que já nem Lola Mon­tés resgata.

    • Pedro Norton diz:

      Ora bolas! Pois claro que é Ophuls e eu não tinha repa­rado. O baile, Viena e essa morte que em Ophuls se adi­vi­nha no duelo que há de ser e que aqui se faz mais vadia e lisboeta.

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    A alma a fugir de coupé? Que bem regressado.

  5. Isto é la valse à qua­tre temps mis­tu­rada com a grande arte, a da da faca, entenda-se. Muito bom, PN.

  6. Rita V diz:

    há altu­ras … não há Pedro, em que pode ser a última e uma pes­soa nem se importa!

  7. Pedro Norton diz:

    impor­tar para quê? A valsa con­ti­nuou para sem­pre na memó­ria daquela noite.

  8. Diogo Leote diz:

    E é isto que faz a eter­ni­dade do amor, como o mes­tre Clint tão bem nos con­tou nas Pon­tes de Madi­son County. Uma só noite, uma só valsa sem regresso, tanto basta para o amor ficar para sempre.

  9. pedro marta santos diz:

    Trans­por­tado em três pará­gra­fos. Há tex­tos muito menos inte­res­san­tes na “Anto­lo­gia do Conto Por­tu­guês” orga­ni­zada pelo João de Melo para a D. Quixote.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Este seria um tema inte­res­sante, caro Pedro, se o discutíssemos.

      A anto­lo­gia do João de Melo assenta em cri­té­rios de selec­ção con­ser­va­do­res: a obra que tempo con­fir­mou, ou, se con­tem­po­râ­nea, a que a crí­tica do tempo con­fir­mou. Parece-me que ambos cum­prem no que essa anto­lo­gia pre­ten­dia. A esse tra­ba­lho do João de Melo cabia a divul­ga­ção do conto. Não cabia a intro­du­ção do que quer que fosse de novo: autor ou expres­são. Ou cabia?

      Não sei a quem cabe esse outro tra­ba­lho. Se calhar a nin­guém. Basta ver, ao longo do tempo, a sorte que tive­mos, imensa, e tão sem mere­ci­mento, é quase da natu­reza do mila­gre que não tenha­mos morto, no tempo de vida que vive­ram, Sena ou Ruy Belo. Pes­soa — para falar ape­nas em nomes muito visí­veis. Creio que em vida foram sal­vos pelos seus pou­cos pares, o resto… não pode ser só medo da som­bra das árvo­res altas, ou pode? Mila­gre maior só o de Camões a quem nem os pares vale­ram para consolo.

  10. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Que belo texto Sr. Doutor!!…a aca­bar com a vida a sair da boca do morto, rein­car­nada em mil abe­lhas. Uma ver­da­deira valsa de morte!

  11. pedro marta santos diz:

    Se calhar tem razão, Eugé­nia. Con­fesso que não li aten­ta­mente outras anto­lo­gias, só essa.

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