A valsa de Pedro

Diogo já lhe tinha dito e Rita confiava na calva e resplandecente cabeça de Diogo. Mesmo assim, estremeceu. Estremeceu quando Pedro N se inclinou para ela e com vénia silenciosa a convidou para dançar. Atrás de si, os olhos de Diogo fecharam-se como os de um gato satisfeito: Pedro N era, na sua opinião,  o mais intrigante bailarino de Lisboa. Valsava com agilidade e mistério. Não dançava com paixão, dançava com minúcia.  Era o mais que Diogo se autorizava a analisar os dotes e o estilo de Pedro. Considerava inúteis e cansativas outras considerações

Quase mecânica, a mão direita de Rita segurou a roda do vestido, o corpo oferecendo-se, oblíquo, ao abraço do bailarino. Eugénia, a prima de Rita, escondeu um riso trocista atrás dum movimento rápido do leque vermelho. Era um gesto muito dela. Um gesto com nome: era, dizia, como se limpasse o pó a ideias simples. Pedro era o seu par favorito. Vestira para ele o enredo fértil do vestido branco, a graça dos folhos, o falso peso da arrastada cauda. Agora, era quase com orgulho que o via convidar Rita. Quantas vezes lhe dissera: tens de dançar com ele, os pés não seguem a lira, parece que respiram.

A orquestra atacou a valsa e Pedro, com um imperceptível atraso, fê-la rodar. Rita ia entregar-se à música e hesitou. Sentiu nos pés de Pedro a mais funda solidão. Percebeu que os pés dele não dançavam com a música, mas a partir de outra vibração. Primeiro pensou que talvez fosse a vibração da sala, de um chão pelo qual corressem fios de som que puxassem e dirigissem os pés de Pedro. Ela deixou-se ir. Leve, com a alegria ausente de uma pétala que o vento transporta. Os pés dele não dançavam com a música: era a música que parecia vir atrás deles. Não sabia se era uma obediência resignada ou uma aceitação complacente, mas a valsa reescrevia-se subtilmente ao ritmo que Pedro lhe dava.  Ele levava-a agora com uma sofreguidão muda. Se fosse com outro talvez lhe sentisse o corpo, o murmúrio de um compasso. Com Pedro, Rita dançava com a desastrada beleza do mundo. Dançava através de Pedro, do silêncio estóico de Pedro.  Dançava, pensou, como dançaria uma órfã.

Quando se sentou, a cabeça encostada ao ombro de Diogo, os olhos eléctricos virados para o branco esplendor de Eugénia, não resistiu e deixou escapar: é terrível dançar com um surdo. E logo, detrás do leque vermelho, Eugénia correu a emendá-la: terrível não, é assimétrico.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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14 respostas a A valsa de Pedro

  1. Pedro Norton diz:

    Então a mim cheira-me que esse Pedro, a dançar, é cego, surdo e mudo. Um pé, como costumava dizer-se. Já o texto, esse sim, parece dançar.

  2. Diogo Leote diz:

    O calvo Diogo sabia era muito: punha-as de cabeça à roda com os passos do Pedro N para depois elas irem pousar a cabecinha no seu ombro. Não fosse ele tão calvo e eu seria rapaz para o invejar. Certo é que me fartei de dançar ao ritmo elegante do texto.

  3. manuel s. fonseca diz:

    Sábia cabeça, macio ombro. Grande Diogo!

  4. Bem bonito, mas o senhor de Fonseca não dança, descansa. Isto de ser narrador em valsa alheia tem muito que se lhe diga 🙂

  5. pedro marta santos diz:

    O mestre de cerimónias de tanto bailarico era um tal de Manuel S. (Sófocles), dedos de pianista, que operava o pequeno teatro de marionetas movendo os fios de Rita, Eugénia, Diogo e Pedro N. como um mestre chinês, para gáudio das crianças na plateia, atentas às peças de madeira que desenhavam os gestos no palco de 1,5m por 3m. Sempre fora a vocação de Manuel S.: gerir o tempo e o modo das marionetas. E que bem rodopiava os fios! Estava pronta a sua maior criação: P. Marta Santos, um cossaco, herói das escaramuças em Linz, que dançava como Pedro o Grande. Diziam que não dançava: flutuava, reluzindo a cabeça calva de fazer inveja ao cucuruto de Diogo, o Subtil.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Pedro, bem sei que te roubei desavergonhadamente a cabeça resplandecente e luminosa para a dar ao Diogo. Tétricas liberdades poéticas.
      ah, já lançaste aqui as bases para o Baile, part II. Força com esse pas de deux.

  6. drogada
    levada
    embaraçada
    encantada
    perdida
    embeiçada
    com o texto

  7. António Eça de Queiroz diz:

    Pois é claro, o surdo Pedro N. dança ao retardador! Faz todo o sentido.
    E a Eugénia cheia de folhos atrás do leque?
    Uma delícia.

  8. manuel s. fonseca diz:

    Até prova em contrário a menina é loura e morena, morena e loura, à livre vontade da nossa imaginação…

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