A virgindade de uns não é melhor do que a primeira vez de outros

O retrato de Jane Austen

Uns terão morrido virgens por serem feios demais. Outros, como o escritor Giacomo Leopardi, por deformidade física. Emily Dickinson por convicção.
Não se saber se por orgulho ou preconceito, Jane Austen criou virgens as suas melhores heroína: páginas e páginas de virgindade. Sabia do que falava: morreu incólume e intacta. Talvez acreditasse que revoltos e manchados lençóis sempre se converteriam no fatídico cemitério do romantismo.
George Bernard Shaw era vegetariano. Não tocava em carne. É verdade que casou, mas diz-se que era misteriosa por inexistente a sua sexualidade. Houve mesmo quem tenha dito. “Se Shaw algum dia tivesse comido um bom bife, o que teria sido das mulheres de Londres.”
E.M. Forster, o autor de “Howard’s End” e de “Passagem para a Índia”, foi virgem até aos 30 e até aos 30 escreveu a sua obra. Logo que descobriu o humpy rump nunca mais escreveu nada de jeito. O sexo pode, bem vêem, ser muito entertainer e distractivo.
Mas é mesmo preciso estar muito distraído para estabelecer entre sexo, em particular a ausência dele, e escrita um relação de causa a efeito. James Joyce, que o seu “Ulisses” imortalizou, tinha uns pouco mais do que infantis 14 anos quando uma rapariga da noite o apanhou numa noite fria de Dublin e, por módica quantia, o guiou nuns consoladores dois ou três minutos de vai-vem entre a imanência e a transcendência.
De Camões quase nada biograficamente se sabe, mas atrevo-me a especular que, quatro séculos antes, conheceu o amor pelo mesmo preço de Joyce num sujo prostíbulo de Lisboa.
Tolstoi, muito antes de sonhar a “Guerra e Paz”, teve a primeira suada batalha aos 16 anos. Quando acabou, meio vestido a outra metade de si ainda nua, sentou-se ao fundo da cama da mulher a quem pagara e chorou copiosamente.
Stendahl, o infeliz Stendahl, pagou a dobrar o primeiro uso do gládio: pela iniciação nos mistérios da carne, claro; depois, sofrendo pela vida fora a sífilis que ganhou nessa noite. O que só prova que todo o homem, mesmo o escritor, é uma vítima da natureza.

O retrato de James Joyce

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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7 respostas a A virgindade de uns não é melhor do que a primeira vez de outros

  1. querido Manel
    O tema dá pano para mangas. Em casa já não se fala destas coisas e na escola muito menos.
    Continuo a achar que o nosso programa de educação está mal estruturado.
    (A nossa ‘Religião e Moral’ também estava…)
    As matérias são importantes, nem todas as pessoas estão preparadas para ser ou se tornarem professores. A música ( leia-se arte em geral) , o desporto. a sexualidade são temas tão importantes como a aritmética, geografia … ‘and so on’ na Educação.
    Há adultos que são verdadeiras crianças no que diz respeito à sexualidade. Há outros ( adultos) que por nunca terem partilhado os seus medos se sentem únicos e diferentes, sobrecarrregando a sua vida afectiva com dilemas, problemas e se formos a ver não são únicos nem particulares.
    Desculpe Manel ter usado este seu post para escrever mais do que as 5 palavras do costume.
    A descoberta da sexualidade é muitas vezes violenta e não me refiro apenas aos abusos, mas ao tema que hoje nos trouxe.
    Se escrever é triste, escrever também pode servir para lembrar que
    – ‘não és único’
    – ‘não estás sózinho’
    – ‘há mais como tu’
    … sem parecer pieguice ou lamechice.

    • Dobra diz:

      As “supostas” aulas que obrigam qualquer professor a dar sobre assunto tão sublime, mais não são que espaços informativos sobre saúde sexual. Uma pena! Pena que a sexualidade não possa ser assunto de conversa familiar, com um bom livro à mesa do café.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Rita, dá pano para mangas quando dá. Se a coisa for bem feita não me parece que seja matéria em que os alfaiates metam a agulha.
      No mais e a sério, estou de acordo com tudo o que diz.

  2. Dobra diz:

    “vai-vem entre a ima­nên­cia e a trans­cen­dên­cia.” é muito, muito bom… Eu bem digo que quero escrever assim quando for grande 🙂 Novidades vão acontecer? Curiosa :))

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Hello Dobra, thanks pelos seus mimos. Há umas coisas que me ficaram da catequese, outras dos sermões de apocalípticos dominicanos.

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