Attenberg

Ele: “Gostas de Suicide”. Ela: “Pois gosto”. Ele: “Alan Vega é um deus”. Ela confirmou com a cabeça. Foram as primeiras palavras que trocaram. Ele, dela só sabia que ouvia Suicide a toda a hora. Pelo menos, sempre que passava pelo carro dela estacionado à entrada do prédio onde ele vivia, lá estava ela, de olhos fechados, a deixar-se levar pela voz fantasmagórica de Alan Vega e pelo sintetizador hipnotizante de Martin Rev. Ele foi o primeiro. Apesar dos seus 23 anos e de ela ser uma bela mulher, ainda não tinha tido nenhum homem. Nem beijar sabia. Fê-lo por Alan Vega. Tinha sido ele, Alan Vega, através das convulsões da sua voz em Girl (nesses minutos muito mais lasciva do que fantasmagórica), a ensinar-lhe os prazeres do prazer solitário que um corpo feminino pode ter. Passou a ser um ritual, ela, pouco depois da meia-noite, despida em cima da cama, a sós com o crescendo dela numa sintonia cada vez mais perfeita com o crescendo da voz de Alan Vega, a gemer-lhe (Oh) Girl só para ela. Mas chegara a altura de perceber cada uma das inflexões daquele gemido na voz de outro homem. E fê-lo. Foi bom. Ele também ouvia Suicide a toda a hora. Ele preferia Surrender. Ela Be Bop Kid. Mas fizeram-no ao som de Girl, pois claro. Foi bom. Alan Vega era um deus.

 

Não inventei nada: está tudo, mais ou menos assim, com mais ou menos palavras, em Attenberg, que, se a minha ignorância não me trair muito, será, talvez, o primeiro filme grego a ser estreado comercialmente em Portugal. E, neste caso, um filme basta para me fazer gostar de cinema grego. Para me fazer gostar de cinema grego como gosto de cinema romeno. De tudo quanto vi de um e de outro, gostei. Do romeno, meia dúzia de filmes, todos na última meia dúzia de anos. Do grego, só mesmo este Attenberg. É estranho o filme? Pois claro que é. Mas quem gosta de Suicide e Alan Vega, não se desloca a uma sala por nada que não tenha uma boa dose de bizarria bem entranhada. Para a normalidade, já nos basta a vida lá fora.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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8 respostas a Attenberg

  1. manuel s. fonseca diz:

    A canção lembrou-me o Je t’Aime em solitário (e irónico-corrosivo). O filme é mesmo a ver…

  2. Diogo Leote diz:

    Manuel, o Je t’ aime, mesmo com os gemidos da Birkin, é uma canção de igreja comparada com este Girl, cantado pelo alucinado Vega. E para uma virgem como a do filme, é uma iniciação que promete, logo, altas cavalgadas.

  3. Teresa Conceição diz:

    Da Grécia ainda nos hão-de chegar muitas surpresas, Diogo.
    E depois do seu texto, tenho de ver o filme.
    Os Suicide são um portento.

  4. Diogo Leote diz:

    Teresa, e se for ver o filme com Suicide a tocar no carro até chegar à sala, garanto-lhe que ainda vai gostar mais.

  5. Pedro Marta Santos diz:

    Diogo, tens de ver o Kynodontas (Dogtooth). Estreou o ano passado e, na minha imodestíssima opinião, é melhor que o “Attenberg”. Mas foi uma óptima lembrança, sobretudo pela estrada musical.

    • Diogo Leote diz:

      Obrigado, Pedro, vou ver se o encontro pela Amazon. Se é melhor que o Attenberg, é porque é imperdível.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Caro doutor não sendo um fã de Suicide, gostei mais do texto e vou experimentar o Attenberg, que não conheço.

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