biriberabaro…bababerere…

São apenas uns segundos, no meio das sombras de um bar qualquer. Uma certa crueldade na filmagem a preto e branco, exacerbada pela face rude de Chet Baker, personagem central de “Let’s Get Lost”, o documentário que Bruce Weber realizou sobre esse gigante prodígio do Jazz.

Cruel também é o combinar imagens e fotografias de Chet com 20 anos,  príncepe  entre príncipes, a lembrar o Dean; com registos dos seus últimos anos de vida.  Este pequeno momento apanha Chet, a sua última mulher Carol, e um pequeno grupo de admiradores: A cara trilhada pelo tempo,  precocemente envelhecida, espelho de uma vida maltratada, entre a dureza da profissão de artista prodígio, e a acalmia fugaz dos sonhos de heroína.

Chet, adormecido e amolecido parece viver num outro mundo e o que se passa ao seu lado é já uma realidade ténue, um lugar estranho. A música soa por entre conversas e vozes, risos, e ruídos de corpos que se tocam, que se movem.

O tema escorrega para a musica, e para o jazz, as  diferenças entre Miles e Chet, Miles e Dizzy, Lee morgan, Clifford Brown.

Alguém pergunta a Baker se conhece a musica de Brown  “Joy Spring”…

De repente, sem qualquer hesitação , Baker começa  a trautear  frases  melódicas  do tema. Sem pestanegar, de ímpeto natural, este homem física e psicologicamente frágil e a caminhar para os últimos dias da sua vida,  revela o milagre do talento. Naquele preciso momento Chet é a encarnação da própria musica. Ele é a musica, ele é o trompete. O rapaz que lançara a pergunta entra ainda no despique e ambos improvisam um dueto trauteado.  Poucos segundos passam mas o momento é um arrepio.  Ali, naquele pequeno instante, faz-se um pouco de magia musical, um pouco de um céu de notas na noite densa, no bar de fumo.

Chet irá morrer pouco tempo depois.  Basta um só momento destes para dar sentido a toda uma vida.

*o referido moemnto passa-se perto do minuto 2.28…

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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9 respostas a biriberabaro…bababerere…

  1. Ana Rita Seabra diz:

    Parece que estou ouvi-lo cantar:

    “Let’s get lost, lost in each other’s arms
    Let’s get lost, let them send out alarms
    And though they’ll think us rather rude
    Let’s tell the world we’re in that crazy mood.
    Let’s defrost in a romantic mist
    Let’s get crossed off everybody’s list
    To celebrate this night we found each other, mmm, let’s get lost

    So let’s get lost baby

  2. gosto imenso do Chet Baker
    o Bernardo parece que adivinha
    confrangedor a auto-destruição

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Não sei se será aquela certeza de que era realmente um génio, deve ser difícil perceber que a vida não pode ser sempre uma audiência levantada para nos aplaudir…

  3. manuel s. fonseca diz:

    Que maravilhoso e tão cansado olhar…

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      É verdade, há um lado quase sereno naquele olhar…de quem já viveu o que tinha a viver…

  4. Pedro Marta Santos diz:

    Bernardo, já viste o “Chet´s Romance”, de um tipo suiço chamado Bertrand Févre? São só 10 minutos, mas vale a pena. E fizeste lembrar-me da minha variação favorita do “Send in the Clowns” do Stephen Sondheim. A canção tem dezenas de versões, mas a do Van Morrison com o Chet, “live at Ronny Scott’s”, é de chorar.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Pedro não vi portanto vou à procura, quanto ao Van já ouvi mas não tenho em CD …um lapso..obrigado pelas dicas…

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Antes de mais ainda bem que gostou! Quanto ao Blues do Scorcese tenho aquela caixa (8 DVD) de varios realizadores e que termina com um famoso concerto em Nova York com varios e distintos convidados. Um espectáculo! Mas que venha esse seu texto, ficamos à espera…

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