Do cabaret à arte

a confiança de Otto Wacker

Otto Wacker vinha do cabaret. Tinha vivacidade, aquele intraduzível wit que os ingleses apreciam. Tinha a confiança transbordante que, nesses anos de Weimar, emanava da música, do teatro, do cinema alemães. Não falei de pintura? Esqueçam para já a pintura. Ou então não e entremos directamente no assunto.

De repente, Otto Wacker deixou o cabaret e desaguou no mundo da arte. Trazia um camião carregado de quadros de Van Gogh. O fabuloso acervo vinha da Rússia.

Levou os quadros aos peritos que os acharam magníficos. Otto usou o talento de palco e, em sottovoce porque só em sottovoce se explicam certas coisas, contou que o seu fornecedor era um aristocrata russo. Com risco de vida trouxera os quadros para a Suíça. Manter o anonimato desse herói, que retirara às bárbaras garras comunistas a grande pintura do Ocidente, era um dever moral. Pior, a família ficara entre os bolcheviques. Soubesse-se o que aristocraticamente fizera e os vermelhos matavam-lhe a família branca.

De repente, havia 33 novos quadros de Van Gogh em Berlim. Ao que parece, pintara-os o irmão de Otto, um Wacker discretíssimo e talentoso que nunca saiu da sombra.

A galeria de Paul Cassirer preparava uma exposição. Baart de la Faille ultimava o catálogo que fixava as obras. Os 33 quadros deviam e foram incluídos na exposição e no catálogo.

Nas paredes da galeria já estavam dezenas dos quadros de Wacker e, em aberto, o espaço para os últimos quatro. Os últimos quatro é que foram mesmo o diabo. Mal chegaram, os peritos torceram-se todos. Cheiravam a falso: um tipo do outro lado do Wannsee era capaz de gritar “falso”. E teria razão.

Otto foi, num fósforo, levado a julgamento. Veio o sobrinho de Van Gogh testemunhar contra ele. Nunca nenhum russo comprara quadros aos herdeiros, jurou ele. Mesmo assim, escaldados mas resilientes, alguns compradores continuaram a jurar que os quadros eram verdadeiros e Wacker um benemérito das artes.

Baart De la Faille, o perito, deu o dito por não dito e publicou uma adenda ao catálogo com a lista dos falsos Van Gogh: 33, ou seja, todos. Mas depois, durante o julgamento, olhando melhor, jurou que dos verdadeiros que eram falsos cinco dos falsos eram verdadeiros. Outro perito afirmou serem autênticos 9. Ainda outro jurou que 14 eram mesmo Van Goghs, provavelmente pintados em momento de menor inspiração.

Já não sei se foi ainda no julgamento, ou mais tarde, que Kurt Wehlte, usando o raio-X, provou que as técnicas e os pigmentos não correspondiam aos padrões de Van Gogh. Ironicamente, o quadro de referência de que se serviu para a perícia científica foi, nos anos 70, considerado falso.

A justiça além de cega, também tem uma total falta de sentido de humor: Otto foi condenado e preso. Um ano de prisão. Volta a ouvir-se falar dele depois da 2ª Guerra. Sabe-se que vive em Berlim e saberá Deus porquê não exerce a actividade de marchand.

É provável que, entre coleccionadores e museus, existam hoje no mundo 200 quadros falsos que ainda se passam por autênticos Van Gogh.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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3 respostas a Do cabaret à arte

  1. António Eça de Queiroz diz:

    De Van Gogh e de muitos outros, aos milhares…
    A falsificação atrai verdadeiros artistas, e dos mais variados géneros.
    Não me importava nada de ter um destes.

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