Dois cêntimos de infância

a criancice de um revólver inútil

Num ápice, salta da eufórica multidão para o silêncio da vasta pradaria que uma desgarrada árvore não chega a interromper. Assim começa “The Lusty Men”, de Nicholas Ray.

Robert Mitchum é um cow-boy que vive da espúria arte dos rodeos. Doma cavalos, laça bezerros e monta touros. Nos intervalos, mulheres. Nessa tarde que parecia ser de glória conhece os cornos do infortúnio. Entrou na arena de corpo vaidoso e resplandecente camisa branca. Quando, no final da curta cena, o voltamos a ver, o corpo cansado já arrasta uma perna coxa. É um aleijado num mundo que os nega e rejeita.

Um minuto de filme, o tempo da glória. Abruptamente, da multidão, dos altifalantes do estádio, das incontidas ovações, Ray tira-nos e atira-nos para uma paisagem imensa e vazia. Um silêncio de poeira, grilos e cigarras, um consumido resto de Verão, seco e estéril. Vemos o mesmo Mitchum que é já outro Mitchum. Caminha em direcção a uma casa abandonada.

Há, entre o homem oscilante e a casa decrépita, uma antiga familiaridade. Os passos de Mitchum são os passos envergonhados de quem, vencido, regressa a casa. Um cadeado ferrugento fecha o portão da cerca, já Mitchum sobe os degraus do alpendre e empurra a porta que não cede. Este coxo Ulisses, que nem a desculpa de uma Penélope tem, volta-se e sabemos pelos admiráveis e brandos olhos dele o bem e a dor, a dor e o bem, que lhe faz contemplar a interminável pradaria.

Dá a volta à casa e, de repente, pára. Pára porque um fragmento, esplêndido fragmento do passado, lhe iluminou as memórias. Afasta com o pé um esquálido arbusto e, como só um miúdo sabe ser clandestino, rasteja para debaixo da estrutura em que assenta a casa. Lá por baixo, no sujo e mágico pó do tempo, as mãos tacteiam um tesouro: a criancice de um revólver inútil, a revista de quadradinhos, uma velha bolsa de tabaco onde em miúdo guardava moedas. Encontra dois cêntimos, tantos anos depois.

Dois cêntimos de infância podem ser a infância toda, intacta. Hoje, que estas crónicas fazem um ano, falo por mim: não tenho a sorte de Mitchum. Não voltarei a essa intacta infância. Não sujarei a camisa branca rastejando para baixo da casa dos meus pais. Não voltará às minhas mãos o trémulo revólver de um Natal angolano.

Criado, eu e um milhão de portugueses, na casa errada da História, não tenho lugar a que possa regressar e dizer, como Mitchum, “quase nada mudou na casa” ou “nasci neste quarto”. Fez 50 anos este 4 de Fevereiro: outros homens saíram debaixo do que nem eram casas para me ensinar que a minha casa não era a minha casa. Uma espessa camada de História, de gerações inocentes em busca da sua liberdade, sepultou os segredos que escondi na casa dos meus pais. Não se rasteja para tão fundo. Aos coxos da História não se dá o consolo de dois cêntimos de infância.

o trémulo revólver de um Natal angolano

A crónica de um ano de crónicas no “Expresso”. Para a semana, o elogio da França.  

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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21 respostas a Dois cêntimos de infância

  1. Rita V diz:

    pois, talvez não …
    mas entre serpentinas e confettis o Manel mostra-nos que nesta Casa Triste os ‘lugares da memória’ estão como para os dois cêntimos do ‘outro’ …

  2. Panurgo diz:

    Tão novo e já era filósofo.

    (Um dia destes ainda compro o expresso. Por reverência a essa coluna.)

    • manuel s. fonseca diz:

      Filósofo de tostão, como vê, caro Panurgo… e compre lá o expresso que os cronistas não vivem do ar…

      • Panurgo diz:

        Naaa… vou comprando uns livrinhos da guerra e paz, e já não é mau… (já agora, abusando um bocado, pensando assim ao alto, coiso e tal, não se arranja aí maneira de editar na nossa língua a vida e as opiniões do gato Murr?… como quem não quer a coisa, não é verdade?…)

        • Manuel S. Fonseca diz:

          O Hoffmann vai vender-me para aí 100 exemplares. É tramado ter elites literárias reduzidas a menos de uma centena de leitores…

  3. manuel s. fonseca diz:

    Foi mesmo essa, Eugénia, a frase que me fez escrever a coisa: quando o Mitchum rasteja, o corpanzil dele só cabe debaixo da casa porque ele “encolhe” à infância.
    Obrigado pelos mimos e por sabê-la, a si, minha paciente leitora.

  4. “É-se da nossa infância como de um país.” E é mesmo. Grande texto, Manuel Fonseca. Comme d’habitude.

  5. António Eça de Queiroz diz:

    É, a infância é a pátria de quem se lembra dela – porque há quem não lembre ou prefira a amnésia apátrida.
    Belo texto, ainda bem que os reeditas aqui.

  6. pedro marta santos diz:

    O filme é grande (há algum Ray que não seja grande? Até “55 Dias em Pequim” tem passagens inesquecíveis), o texto uma tocante evocação das infâncias como pátrias perdidas. Pessoalíssima crónica, Manel, num cruzamento entre arte e vida que faz as melhores crónicas.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Pessoalíssimo é sempre o Ray: é um daqueles seres que vive na noite… conheço outro, não conheço?

  7. Pedro Bidarra diz:

    Aproveito o balanço da leitura e vou a casa da minha mãe, ao meu quarto antigo, ver se lá deixei alguma coisa.

  8. Vasco diz:

    Manel, uns anos depois de deixar Lisboa (e a pátria I guess) e já lá vão quase 20, os meus pais mudaram de casa e o meu quarto desapareceu substituido, nessa nova casa, por um quarto de visitas onde se deitam agora algumas sestas, as minhas sobrinhas e os meus Natais em visita. Não sei para onde foi aquele meu quarto mas talvez, sem o calor e a poesia dos erros que dizes ter o teu, se lhe tenha juntado lá no paraíso dos quartos e das pátrias jamais esquecidas.

    .

  9. fernando canhao diz:

    Ao ler o seu texto lembrei me de um filme que certamente gostou. Ao correr do tempo de Wim Wenders.

    Numa ida a uma casa na ilha a cena repete se em homenagem a NR.

    A moto de sidecar faz todo o resto.

    fc

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Fernando, quando vi, gostei. Na altura, tudo o que fosse on the road sabia-me bem. Os anos azedaram-me com o ww.

  10. MJC diz:

    Já não existe a casa, as muitas casas da minha infância mas sei de uma fraga no Douro Internacional, onde o meu irmão escondeu 25 tostões que roubou à mãe, embrulhou em várias pratas que guardou dos maços de tabaco do pai. Diz o meu irmão e eu digo também: naquela fraga de onde nascia uma azeda ainda lá está a moeda de 25 tostões. Já combinamos que um dia iremos lá buscá-la.

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