E eu que não fazia ideia!…

Há dias, antes de ir dormir (lá para as cinco da manhã), dei comigo espapaçado de espanto perante as declarações desassombradas de Mohamed El-Erian a propósito do momento trepidante que a Europa económica atravessa.
Dizia o CEO da PIMCO (Pacific Instrument Management Company, que é nada menos que a maior investor bond do planeta) que a União Europeia «é uma família disfuncional» e que seria bom que se capacitasse dessa realidade rapidamente…
Depois deste bocadinho d’ouro puro fui-me deitar desalentado com a pobreza do comentário do indiscutível perito. Mas com este pensamento a rabear-me nas meninges:
– «Pois é uma família disfuncional, sim senhor, e daqui a uns tempos, caro El-Erian (e não és um Cid Campeador de coisa nenhuma!), quando os inevitáveis junk bonds do tesouro americano começarem a dançar a quadrilha com a fatal bolha imobiliária chinesa, tu, os teus sócios e os teus accionistas também serão uma»…
Goza enquanto podes, Mohamed…

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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6 respostas a E eu que não fazia ideia!…

  1. Pedro Norton diz:

    Muito bem António. Um morcão, esse Mohamed.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    E o ar de preocupação sapiente do mono, Pedro, como se ele não soubesse que nós sabemos que ele faz telefonemas ternurentos à S&P e às outras amiguinhas dele…
    Morcão mesmo!

  3. Panurgo diz:

    O sarraceno não é parvo nenhum. Gosto dele. É malandro, mas até usa essa tal “família disfuncional” como aviso… enfim, lá o que seja. E o monho vai gozar durante muito tempo… bolha chinesa? Impossível. Com aquela balança comercial? Nem que fizessem uma gigantesca linha de Sintra entre Pequim e Xangai… é impossível. Daqui a vinte anos, talvez – caramba, era preciso uma grande catástrofe em cima dos chinos.

    Os americanos que andam para aí a espalhar essa treta (esta e aquela do problema da dívida chinesa ser pior que o americano…pelo amor de Deus), lembram-me aquilo que o outro ilustre Eça escreveu sobre a relação de portugueses com Macau, “a gente vai lá com cinquenta homens e varre a China”. Pois.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Caro Panurgo, aquela balança comercial faz-me lembrar as dívidas do Sócrates, que não se pagam. E assim a tal balança só mantém o seu fiel no sítio se os fluxos comerciais se mantiverem inalteráveis – ou seja, no conhecido crescendo.
    Duvido que isso se possa manter por muito tempo.
    Ou seja: o problema não está na China, mas sim na insolvência técnica dos EUA – esta infecta a outra.
    Obrigado pelo comentário.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    António, está tudo nas horas de ir para a cama! Eu acho que só quando os chineses começarem a ir para a cama às 5 da matina é que eles sairão do incivilizado ritmo de crescimento que levam.
    Panurgo, palpita-me que não é um sentimental, mas nós somos: seja bem aparecido.

  6. Panurgo diz:

    Pois, é bem visto. Mas a insolvência americana é uma impossibilidade. Há o problema da mega-hiper-inflação… mas olhe: m… para eles. (Olhe mais lembrei-me. A metáfora da família disfuncional tem o seu o quê de helénico, está bem apanhada: uma família em que o pai mata a filha, a mãe mata o pai, o filho mata a mãe, a irmã fica chalupa, e quem os avisou mata-se por falta de paciência. Parece-me apropriado.)

    Manuel, está enganado. Sou um tipo muito sentimental: li bem o que você escreveu, A Primeira Morte, e logo uma diversidade de sentimentos me assaltou: raiva, ira, inveja, ciúme – as musas a mim não me visitam como a si. Portanto, mais vale ficar calado, meter o DVD do Mépris, reflectir um pouco sobre a menina Brigitte e fazer as pazes com Deus. Não é fácil, não é fácil…

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