É que nem sei se por aí não vou

Complicado, complicado, não é só não sabermos por onde vamos. Complicado, complicado, é ao mesmo tempo não sabermos por onde vamos e não sabermos por onde não vamos.

Por vezes percebemos que se acomodaram na nossa cabeça duas opiniões e argumentações radicalmente distintas e contraditórias sobre o mesmo facto ou tema. O que é complicado é sermos capazes de conservar as duas, alimentar as duas, dar-lhes o mesmo crédito e a mesma oportunidade, como se tivessem nascido livres e iguais em direitos, obrigando a nossa cabeça a suportar o risco da incerteza sem nos deixarmos arrastar pela saída fácil da opinião maioritária ou da opinião de prestígio. O que é complicado é permanecermos firmes no terreno da razão, sem dar o salto para o confortável colo da fé ou para a fortaleza de pedra duma ideia feita.

Há quem, de peito cheio, se vanglorie: “Eu não sou de meias-tintas, sou uma pessoa de paixões.” Essa aparente afirmação e segurança talvez não seja mais do que o medo da incerteza, do que o medo de caminhar sem estar agarrado a um GPS.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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9 respostas a É que nem sei se por aí não vou

  1. Pedro Bidarra diz:

    “Ter opiniões é estar vendido a si mesmo. Não ter opiniões é existir. Ter todas as opiniões é ser poeta.”
    Fernando Pessoa

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Ningúém sabe para onde vai, muitas vezes convençemo-nos que sabemos, e aí a “coisa” dá quase sempre para o torto…

    • manuel s. fonseca diz:

      Bernardo, já viu o I know where i’m going do Powell: that’s it.

      • Bernardo Vaz Pinto diz:

        Agora vou ter que ver…a minha lista de filmes ” que gostaria de ver mas não estão em salas de cinema “…está a aumentar…

  3. “Life is a series of natural and spontaneous changes. Don’t resist them – that only creates sorrow. Let reality be reality. Let things flow naturally forward in whatever way they like.” – Lao-Tzu

    • manuel s. fonseca diz:

      Rita, não sei se confie em si: deixe-me ir e vim parar ao século XXI português. Acha bem?

  4. manuel s. fonseca diz:

    Somos mesmo pequeninos e passamos depressa, coisas de que a eternidade é feita…

  5. Panurgo diz:

    Desde que o outro acordou de sonhos inquietos transformado num bicho, já não acredito em nada disto, muito menos em paixões ou opiniões. A gente não vai a lado nenhum; rasteja, quanto muito. E, se acaso, conseguimos escapar para algum lado, não demorará muito a que nos metam no lixo. O terreno da razão é isto.

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