Fado dos tempos que correm

Esquece lá o champagne
A trufa branca e o gourmet,
Diz adeus ao risotto
À bouillabaisse e ao patê.

Vinhos fenomenais,
Colheitas especiais,
Garrafeiras e reservas?
Pensa antes em conservas.

Carrinho topo de gama
E carteirinha Vuitton,
Prepara-os prò prego
Que  acabou-se o que é bom.

Festas, só das mais modestas,
Sapatos, só dos mais banais,
Viagens, só até ali
E putas, só das nacionais.

Esquece lá o positivo
A boa cara e o sorriso.
Esquece a última estação
A neve e a depilação.

Acabou-se o pagode,
Vai voltar a tristeza,
A falta de pão na mesa
E as mulheres de bigode.

Aprende mas é a coser
(Com o S e com o Z),
Que não vais ter pra vestir
E comer logo se vê.

É que mesmo que não queiras
O tempo volta pra trás
E trás tudo o que levou
Inclusive merdas más.

Refrão:

Agarremo-nos então
À morcela e ò chouriço,
Ò belo naco de pão,
Ò tacho e à gamela,
Ò cozido e à cabidela,
Ò qu’é grosso e português,
A ver se nos fica o viço
Qu’isto agora “Era uma vez…”

(Um pequeno contributo para a reeducação das classes medias)

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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11 respostas a Fado dos tempos que correm

  1. Anjo Negro diz:

    Caro Pedro
    Nem calcula como me animou este seu poema … sobretudo o falecimento das idas à neve. Eu ainda fui duas ou três vezes … pelos cabelos. Uma grande chatice, sobretudo para quem tem vertigens como eu e pouco corpinho para carregar com aquela tralha toda . Temos amigos em comum que se gabam de nunca ter lá posto os pés (e se não é verdade anda lá muito perto).
    Felizmente, parece que a coisa para já acabou. Estou com muitas esperanças que isto se simplifique e voltemos todos a não ter dinheiro para fazer nada ou quase nada. Não há melhor!

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Chapeau, Pedro.
    Quer dizer, chapeau, chapeau, talvez seja melhor dizer, chapéu!

  3. ~CC~ diz:

    Eh, eh…que paródia!
    ~CC~

  4. Helena CM diz:

    Fado muito oportuno! Mas há qualquer coisa de errado na primeira palavra: Esquece ou Esqueça?

  5. Rita V diz:

    ah ah ah
    o Tango já vai a meio
    e bem miserável como convém
    Boa Pedro

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Nada de mal na sande de meio queijo e no copo de três, servidos ali em Santos, e quem tinha mais uns cêntimos pedia a “especial”: um filete de peixe com gorduras e espinhas, que sabia a lagosta mesmo para quem a nunca tinha comido!

  7. António Eça de Queiroz diz:

    Pedro Bidarra, caro co-triste que já conheço desconhecendo: que maravilha!
    Eu faço parte dos gabados por Anjo Negro, nunca fui à neve com instintos esquiatórios.
    Só gosto dela ocasional, como surpresa, vá.
    Um pequeno reparo (do tipo Tó Zé Seguro questionando as vicissitudes da tróika):
    putas nacionais ainda vá que não vá, mas mulheres de bigode?!…
    Isso não, Pedro, isso não pode ser.
    Tenho muita pena.

  8. Proletários de colarinho branco e casa na Expo … Uni-vos!

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