Ferro Forjado

"A Dama de Ferro", de Phyllida Lloyd

 Será que entrámos na era das biografias revisionistas? Já se sabe que o mundo está perigoso. Mas retratar o eterno, e cruel, director do FBI (“J. Edgar”, de Clint Eastwood) como uma alma torturada que busca a tranquilidade dos seus concidadãos, mesmo recorrendo-se à ironia da voz-off, é como lavar os livros de História com creme amaciador. O mesmo acontece neste “A Dama de Ferro”, sobre Margaret Thatcher, a primeira-ministra britânica entre 1979 e 1990. O filme tem como fonte nuclear as memórias da filha Carol e centra-se na Margaret de 80 anos, em luta contra a demência, no seu apartamento durante os atentados ao metro de Londres em 2005. Tanto Meryl Streep, que encarna Thatcher, como a realizadora Phyllida Lloyd (que dirigira Streep no mega-sucesso “Mamma Mia”) sabem que focar a biografia da antiga líder dos conservadores no período da sua – terrível – decadência psicológica é motivar a compaixão do espectador por uma figura que gerou tantos ódios como simpatias. O filme alarga a visão gentil ao percurso político: Thatcher, cujas medidas geraram enormes problemas de desemprego, de agitação social (o controverso “imposto comunitário”), de desregulação financeira, de desmantelamento do aparelho público, surge sobretudo como uma defensora da acção, um símbolo de firmeza feminina num mundo de homens (mas Thatcher sempre detestou as feministas). A Thatcher de “A Dama de Ferro” é a vencedora da guerra das Malvinas e a salvadora da economia britânica. Os seus opositores surgem em grandes planos distorcidos, como títeres sedentos de poder, e o “povo” que sofre com as suas reformas aparece em contracampo como um bando de arruaceiros. A construção do filme também não ajuda: tendo como núcleo o isolamento da velhice e a explosão da demência (Thatcher conversa com Dennis, o marido já falecido), regressamos à líder octogenária mais de uma dúzia de vezes, aguardando-se com impaciência os flashbacks que nos façam compreender a evolução do ser humano e do animal político. Anseia-se por uma estrutura cronológica mais límpida, por um contraponto à caricatura, por um subtexto mais denso que ultrapasse a imagem da “filha de merceeiro que triunfa no mundo dos ricos e poderosos”. É pena, porque Streep não se limita a representar Thatcher (era o caso, talentosíssimo aliás, de Helen Mirren com Isabel II em “A Rainha”). Streep apodera-se do corpo, da voz, dos maneirismos de Thatcher, transformando-se nela – não é uma representação, é uma possessão. Á excepção da actriz, é um filme encostado ao falhanço completo.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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9 respostas a Ferro Forjado

  1. Ana Rita Seabra diz:

    Também achei que à excepção da M. Streep, o filme é uma desilusão total.
    Quanto ao J. Edgar, também não me encheu a alma.

  2. «não é uma repre­sen­ta­ção, é uma pos­ses­são»
    Tal e qual …

  3. ana rüsche diz:

    muito bom texto! acho que assistirei ambos os filmes só pra poder escrever.

  4. sem-se-ver diz:

    ora, exactamente porque é uma possessão, o filme não é um falhanço completo.

    e ora, exactamente porque é sobre o homem por detrás das suas acções públicas, o filme não é um falhanço completo.

    ambos os filmes não são falhanços completos porque ambos estão cheios de pessoas lá dentro.

  5. Pedro Marta Santos diz:

    Rita, Ana Rita, Ana, espero que se emocionem com os próximos filmes da Meryl e do Clint – são suficientemente profícuos nos talentos deles para nos convidarem todos os anos. Sem-se-ver: em primeiro lugar, os falhanços podem ser mais fascinantes do que os sucessos – alguns dos filmes que mais aprecio são aves imperfeitas, de voo elíptico (não é o caso destes de que falamos); em segundo lugar, não acha que um filme cheio de pessoas lá dentro fica um bocadinho sobrelotado? Confesso que não consigo ver figuras de corpo inteiro em nenhuma das fitas citadas. Vá rever o que o sr. Eastwood (e o sr. Whitaker) fez com o Charlie Parker, e depois compare. Os meus mais respeitosos cumprimentos

    • sem-se-ver diz:

      não preciso ir revê-lo, pois tenho-o bem presente na memória; de tal maneira, que me deu um argumento extra – exactamente, reveja Bird e perceba como Eastwood trabalha o material humano, por detrás da figura pública, da mesmíssima maneira.

      igualmente 🙂

    • Ana Rita Seabra diz:

      Concordo. Vou ver com certeza! A minha desilusão em relação aos dois filmes não quer dizer que sejam filmes falhados, nada disso. Mas ficaram aquém das minhas expectativas. Quanto ao “Bird” apetece-me rever de seguida.
      Obrigado Pedro

    • Ana Rita Seabra diz:

      Concordo! Vou ver os próximos com certeza. A minha desilusão em relação aos dois filme não quer dizer que são filmes falhados. Mas ficaram aquém das minhas expectativas.
      Quanto ao “Bird” apetece-me rever já de seguida.
      Obrigado Pedro

  6. sem-se-ver diz:

    porcaria de smileys automáticos! era : -), nao : -D

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